Penso, logo registro. Ou o diário além da burocracia

Entre Colegas

POR:
Felipe Bandoni
Felipe Bandoni. Foto: Ramón Vasconcelos

Felipe Bandoni
Professor de Ciências na Educação de Jovens e Adultos (EJA) do Colégio Santa Cruz, em São Paulo

"Felipe, você lembra do estudo com câmeras de lata? Eu escrevi: ‘Uma das fotos não ficou como eu esperava, mas depois deu certo’", me disse um ex-aluno que encontrei na escola em que lecionei há dez anos. A observação a respeito da atividade, parte de uma investigação sobre fotografia, tinha sido escrita por ele em um caderno elaborado coletivamente em sala. Fiquei surpreso em ver que, além das amizades, ele se recordava especificamente do registro.

A instituição havia tido o cuidado de guardar essa e outras produções dos estudantes, então fomos buscar o tal caderno. Lá, encontramos a frase recitada pelo garoto. Minhas lembranças daquele projeto, não tão nítidas quanto as dele, foram reavivadas pelas anotações que fiz na época. A experiência foi extremamente interessante tanto pelo prazer de relembrar a atividade quanto pelas reflexões derivadas da leitura - ao reler o que escrevi quando ainda era um professor iniciante, pude recordar um pouco do meu percurso formativo como docente. Nada disso teria sido possível se eu não tivesse documentado minhas impressões naquele momento.

Grande parte dos professores faz algum tipo de registro. O mais comum é o diário de classe, em que colocamos faltas, notas e explicações breves sobre o que foi ensinado. Muitas vezes essas anotações são meramente burocráticas, ou seja, apenas uma obrigação a ser cumprida pelo educador. Penso que o diário deve ser muito mais rico que isso. Ele pode conter registros que nos levem a pensar sobre nossa prática e contribuam para aperfeiçoá-la. Ao colocar no papel uma descrição viva dos eventos em sala, podemos observar nossa atuação fora do calor do momento.

Essas anotações são também importantes instrumentos avaliativos. É comum que os estudantes exponham seus aprendizados fora de situações formais de mensuração dos saberes, como provas ou apresentações. Essas manifestações não podem passar despercebidas. Uma participação que demonstra que o aluno aprendeu (ou não) determinado conteúdo é importantíssima de ser registrada. Além de ser um modo de auxiliar na identificação da evolução do estudante, pode subsidiar discussões com a turma, com outros professores ou com os pais sobre o processo de aprendizado.

Não restrinjo minhas anotações ao diário. O material didático que preparo para as aulas também está cheio de rabiscos! Quando o distribuo para os alunos, por exemplo, mantenho uma cópia comigo. Vou fazendo registros variados enquanto eles executam a atividade: escrevo sobre o desempenho dos estudantes e o ritmo da turma para cumprir a proposta, mas também comento sobre o próprio recurso, as escolhas didáticas que fiz e o encaminhamento que dei aos conteúdos.

Tanta coisa escrita não tem valor se ficar guardada. Por isso, é essencial retomar os registros sempre que forem úteis. O primeiro passo é organizá-los: guardo os meus em pastas por turmas, além de ter sempre à mão o caderno que levo a todas as aulas. Acesso o que preciso conforme o momento do ano. O que anotei sobre os alunos ressurge em reuniões pedagógicas e conselhos de classe. O material comentado, por sua vez, é revisto a cada novo planejamento - e aprimorado.

Diversos teóricos da Educação afirmam que escrever organiza o pensamento. Concordo. No caso específico dos registros de aula, a grande contribuição é a possibilidade de refletir sobre o fazer docente. Eles são a memória do percurso seguido, ajudam a averiguar o que deu certo e errado e contêm pistas dos caminhos a seguir. Também não deixam de ser a recordação de um bom trabalho. Muitas vezes, nos inspiram a fazer outros que também ficarão na lembrança.

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