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A base são as expectativas

A consciência do que se espera que os alunos se tornem capazes de realizar é essencial para planejar qualquer ensino

POR:
NOVA ESCOLA
Luis Carlos de Menezes,

Luis Carlos de Menezes,
físico e educador da Universidade de São Paulo (USP).

A frase acima pode soar como redundância que nada acrescenta, com base na convicção de que não há ensino que não tenha em mente a aprendizagem, que por sua vez implica a capacidade de fazer algo com o aprendido... Talvez nem toda intenção de ensino promova aprendizagem e nem toda aprendizagem capacite para algo, mas o que me encoraja a manter essa frase, como a chamada deste texto, é a lembrança de que Paulo Freire, amigo que me faz muita falta, uma vez se identificou como "andarilho do óbvio".

E já que entramos nessa trilha, comecemos pelo mais óbvio, que é a formação para atividades práticas, como a de um pedreiro, músico ou atleta. O primeiro assentará blocos e ladrilhos usando prumo e nível, o segundo dominará seu instrumento e lerá partituras, o terceiro exercerá as habilidades e técnicas do esporte, todos adquirirão a cultura do ofício, com seus códigos e desafios, mas nenhum será considerado formado antes de levantar paredes, executar peças ou jogar o jogo, pois seus professores, que fazem o que ensinam, sabem o que esperar dos aprendizes. Não parece óbvio?

Pode parecer, mas não é assim no ensino básico, pois quem ensina Ciências ou História não é cientista ou historiador nem seus alunos precisam vir a ser. Estes aprendem disciplinas pelas quais não optaram nem estão naturalmente motivados para elas, e, na cultura geral, a ideia de capacitação é mais imprecisa do que na formação profissional. Nem por isso, deixa de ter sentido fixar as expectativas de aprendizagem na educação de base, em que são ainda mais importantes, por serem menos óbvias e mais difíceis de realizar. Educar com foco na aprendizagem é tomar as atividades dos educadores em função das pretendidas para o aluno, como apontamos em nossa coluna na edição de abril de NOVA ESCOLA, e isso também confere maior clareza ao sentido da educação. Exemplificando:

 

  • Suponhamos que numa etapa do ensino de Geografia, se espere formar alunos capazes de identificar agentes de degradação ambiental e agir com responsabilidade social. Com essa meta, um estudo da contaminação de mananciais por efluentes industriais ou agrícolas preveria observações em situações reais, com tomada de posição e, se for o caso, com denúncias públicas. Mas, se aquela expectativa não fosse explicitada, talvez o ensino se resumisse ao acesso a livros- texto e à fala do professor.
     

 

  • Uma professora que ensina Literatura, esperando que seus alunos realmente leiam, mas consciente de que isso é prática incomum em seu contexto social, em lugar de lamentar a falta desse "pré-requisito", busca promover o gosto pela leitura como parte essencial de seu trabalho. A forma com que fará isso depende da condição dos estudantes e de dispor ou não de uma biblioteca, mas a necessidade dessa estratégia surge de sua clareza do que espera da aprendizagem.
     

 

  • A expectativa de que alunos da 5ª série, aos quais se ensinam noções de comprimento e área, sejam capazes de fazer medidas práticas e estimativas, pode sugerir algumas atividades, como calcular o número de caixas de ladrilhos e de rodapés, com dimensões especificadas, para substituir o piso da sala de aula, do corredor ou do pátio da escola. Diga-se, de passagem, que essa seria também uma habilidade demandada do pedreiro mencionado no segundo parágrafo desta coluna, que dificilmente aprendeu isso no ensino fundamental.


Se você ensina Arte, Ciências, Educação Física, Língua Portuguesa, qualquer disciplina, enfim, pense o que você espera que seus alunos sejam capazes de fazer, ao concluir cada etapa sob sua orientação. Questione, então, se as atividades que eles realizam de fato os capacitam para cumprir sua expectativa. Cada nova vez que eu tento responder esta pergunta "óbvia", acabo por mudar em algo a forma como conduzo meus cursos...

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