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Liderança e inovação no ensino

POR:
NOVA ESCOLA
Fernando Reimers,

Fernando Reimers,
professor e diretor de Educação Global da Universidade de Harvard, com a colaboração de Zachary Ahmed, estudante de especialização em Ciências da Computação

Os avanços da tecnologia transformaram indústrias, facilitaram inovações e diminuíram custos em várias áreas produtivas. E, desde que os primeiros computadores foram inventados, há cerca de 30 anos, nos perguntamos como eles podem transformar o ensino e a aprendizagem. Já existem muitas tentativas de empregá-los a favor da melhoria da Educação e da gestão escolar. O uso das mídias digitais, por exemplo, favorece o ensino de maneira mais personalizada, engajada e autêntica, permite avaliar estudantes e dar feedback sobre o aprendizado. Também possibilita gerenciar informações sobre as matrículas, o progresso acadêmico e os recursos humanos de escolas, além de facilitar a comunicação com a comunidade externa.

Animadas por esse evidente poder e pela certeza de que as crianças e os jovens de hoje viverão num mundo em que o conhecimento tecnológico será essencial para o trabalho e para a vida civil, muitas nações têm investido em computadores e outros recursos para as escolas. A atitude mais recente nesse sentido é a de fornecer um laptop ou um tablet a cada estudante. Mas vários estudos e a simples observação sugerem que esse esforço ainda não colabora com a inovação na Educação. Em um universo com tantos desafios (evasão, baixa qualidade do ensino etc.), por que a tecnologia ainda não produziu a transformação que ajudaria a enfrentá-los?

O cerne do problema está no lado humano dessa equação. Coisas boas acontecem nas instituições porque há indivíduos que batalham para que elas ocorram. E o desafio da liderança é garantir espaço para a mudança. Ou seja, se quisermos que as escolas inovem, precisamos de líderes focados na condução desse processo. Os diretores precisam entender o uso dos recursos tecnológicos como um apoio a seu trabalho e buscar maneiras eficazes para alcançar bons resultados.

 

Competências do século 21

A tarefa primordial dos gestores escolares consiste em definir bem o objetivo a ser alcançado e ele deve estar relacionado com o desenvolvimento de habilidades e conhecimentos dos estudantes. Mas quais as competências essenciais que eles precisam aprender a fim de se tornar cidadãos e trabalhadores engajados, eficientes e produtivos no século 21? Há um consenso sobre uma base sólida em comunicação, línguas, Matemática, Ciências e estudos sociais. Nos Estados Unidos, uma aliança público-privada (p21.org) que debate essa questão propôs complementar os conteúdos tradicionais com pensamento crítico, criatividade e capacidade de comunicação e colaboração. Pesquisas das últimas décadas também demonstraram a importância de competências como resiliência, perseverança, empatia e a capacidade de se autorregular. Além disso, os alunos devem desenvolver a noção de cidadania nas comunidades em que estão inseridos.

Uma vez definido o conjunto de competências que norteará os objetivos educacionais, cabe ao dirigente mapear os processos que permitirão alcançá-las e orientar a inovação. Convém lembrar que no centro do ensino está a interação de crianças e jovens com o conteúdo, com seus colegas e professores. Por esse motivo, coloca-se uma questão-chave: é possível reconfigurar o programa de estudos e a didática de forma a tornar a Educação mais relevante e eficiente? O currículo e os materiais de ensino muitas vezes estão longe do contexto e dos interesses dos jovens, fazendo com que eles não estabeleçam conexão entre sua vida e o que aprendem na escola. Pelo que se observa, os docentes bem-sucedidos costumam oferecer escolhas sobre o que estudar e focam problemas que motivem os alunos.

 

Novos papéis na aprendizagem

A personalização do ensino encontra na internet sua principal aliada, pois ela dá acesso a uma rede global de aprendizado, a aulas e palestras de cursos universitários ou técnicos, material valioso para informação e inspiração. E um dos desafios do professor é apresentar conteúdos úteis à maioria dos estudantes de uma classe. Nesse contexto, os computadores possibilitam seguir sequências e caminhos diversos a fim de obter domínio sobre um mesmo tema.

As ferramentas tecnológicas também têm potencial para reconfigurar os tradicionais papéis de professor e de aluno. Se atualmente é possível obter tanto conhecimento na internet, por que aceitamos que ele esteja disponível apenas para uma pessoa em posição de autoridade formal? Talvez seja essa a inovação mais significativa da tecnologia: ela permite que educadores, estudantes, pais e outros interessados redefinam hierarquias velhas e antiquadas. Se antes o docente era o principal responsável pela apresentação de um novo conteúdo e por dar feedback, hoje, além de pesquisar conteúdos por conta própria, os estudantes podem apresentar seu trabalho a um público mais amplo - incluindo colegas da mesma escola e outros espalhados pelo mundo - e receber feedback de outras pessoas. Do mesmo modo, conseguem dar retorno a outros alunos pela internet. Já os professores podem participar de comunidades de desenvolvimento profissional online, ou seja, têm a chance de trocar informações, aprimorar suas práticas e refletir sobre suas capacidades profissionais.

 

Gestão de processos e de pessoas

A automatização de processos administrativos que dão apoio à Educação, como o registro de frequência e do progresso de turmas inteiras de estudantes, libera o tempo dos professores para o ensino. Outras ferramentas ajudam a escola a melhorar a comunicação e a participação dos pais. Assim, a tecnologia colabora com inovações que melhoram, de forma dramática, o desempenho de processos escolares tradicionais, abrindo espaço para a emergência de novas formas de aprendizado. No entanto, essas mudanças não estão acontecendo com consistência ou a um ritmo suficientemente rápido para permitir uma reinvenção substancial da Educação.

É responsabilidade dos gestores indicar os caminhos mais propícios para que as mudanças sejam implementadas. Iniciativas participativas e abertas que envolvam os estudantes, além dos professores, provavelmente, são as mais eficientes por uma série de razões. Uma delas é que as novas tecnologias, em particular aquelas ligadas em rede e as mídias sociais, tornam possíveis formas de liderança mais democráticas. Outra pressupõe que a responsabilidade compartilhada acelera o desenvolvimento de boas estratégias de tecnologia na escola. O desafio dos diretores é envolver a comunidade escolar no processo e, se todos devem obter as habilidades necessárias para inovar, vale garantir o acesso, as ferramentas adequadas e o apoio para tanto.

Claramente, os líderes comprometidos com tais esforços precisam mostrar capacidade de integração e de comunicação, confiança e humildade (para admitir o que não conhecem e valorizar pessoas que sabem mais). Mas também precisam assumir o compromisso de se engajar no mundo digital, usando a tecnologia para realizar seu trabalho e aprendendo continuamente com ela para liderar de forma eficiente. Se esperam envolver sua equipe, precisarão fomentar uma cultura voltada à experimentação e ao risco, ao aprendizado com os erros e à paciência quando as coisas não saírem como planejadas. Dessa maneira, ajudarão estudantes a desenvolver um espírito empreendedor e darão aos educadores a chance de promover uma cultura de aprendizado na era digital. As decisões e atitudes destes gestores de hoje indicarão se, em um futuro próximo, a tecnologia transformará de fato a Educação.

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