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O Livro Imperdível

POR:
NOVA ESCOLA

O velho era magro à beça, olhos de louco, barba branquinha e comprida, cara de doido. E, para piorar, ele nunca falava nada com nada.

Ao contrário de um bom e velho Papai Noel, com suas gargalhadas sonoras e barriga bem-humorada, esse velho inspirava medo. Ou melhor, terror mesmo. Assim pensava Kim, o garoto que detestava Dom Quixote.

Desde que seu avô lhe dera o livro para ler, dizendo tratar-se de uma obra absolutamente imperdível, Kim ficou com raiva. Por que razão uma história boba, onde tudo dava errado, com um sujeito tonto, que falava só bobagem, era leitura obrigatória?

Kim ganhou o livro, leu do começo ao fim, para agradar o avô, descendente de espanhol, e detestou cada página. Depois, só de irritação, leu tudo de novo, para ter certeza de que a história era ruim mesmo. O garoto sabia que o avô ia lhe pedir a opinião, então, como não sabia mentir, achou melhor ficar bem preparado para explicar o que achava.

Da terceira vez em que leu o livro foi marcando as piores partes, os trechos nos quais ele se sentia muito mal ao ler. Quando ia passar para a quarta leitura, nem precisou. Já tinha decorado todas as partes mais ridículas. Finalmente, decidiu que não conversaria com o avô a respeito do assunto. Se mentir não dava, porque o avô logo descobria, melhor então fazer de conta que perdia o livro.

Da primeira vez em que disse que perdeu o livro na escola, imediatamente, o avô lhe deu outro de presente. Foi a vez de inventar que o esquecera no ônibus. E o avô repetia: "Este livro é imperdível!".Desesperado, Kim concluiu que teria de ser sincero. Afinal, como esconder três livros grossos? Na hora da faxina, sua mãe ia acabar descobrindo seu esconderijo de Dom Quixote, bem embaixo da escrivaninha.

Na aula, para grande surpresa de Kim, não é que a professora resolve falar de seu livro preferido? E, lógico, para ela também, o livro imperdível era o mesmo: Dom Quixote! O livro que Kim considerava como seu ódio de estimação!

Estimação?

Isso mesmo. De tanto ruminar as bobagens que o tal do Dom Quixote fazia, como confundir moinho com dragão, achar bonita uma moça que todos consideravam feia, Kim começou a curtir o tal velhinho.

Um dia, ele e o avô estavam atravessando a rua. Para Kim, seu avô era um verdadeiro herói. Campeão de esportes, viajante do mundo. O farol mudou, o passo de seu avô não. Um carro quase o atropelou. O xingamento veio na mesma hora:

- Sai da frente, velho tonto!

Kim queria gritar que seu avô não era bobo, queria dar uma bronca no motorista. Naquele momento, o veículo pareceu-lhe um temível dragão e o motorista, o mais mortífero de todos os gigantes. Kim quis ter lanças mágicas para atacá-lo, poderes mortais para puni-lo. Mas ele era só um menino, pequenino, impotente, o carro já tinha sumido e seu avô, resignado, continuava em frente.

"Às vezes, a gente quer ter uma vitória impossível porque as pessoas não enxergam nada daquilo que a gente vê", concluiu Kim, em silêncio. E, para sua própria surpresa, o pensamento continuou assim: "como na história de Dom Quixote".

Foi quando seu avô, com um sorriso esperto, lhe perguntou de súbito.

- Kim, onde foi mesmo que você perdeu os livros imperdíveis que eu te dei? Outro dia sua mãe disse que encontrou dois deles debaixo da escrivaninha. Você os esqueceu ou os escondeu por lá?

- Ah, Vô Felippe, eu nunca vou perder o Dom Quixote.

- Você os guardou ali de propósito?

- Isso mesmo. Mas não é assim. Eu já sei tudo de cor. Dom Quixote é mesmo imperdível. Toda vez que aquele doido perde a cabeça, parece que é só para entrar na nossa. E quando ele faz isso, é o nosso mundo que vira outro, inteirinho, de cabeça para baixo.

Comovido, Dom Felippe não disse mais nada. Ele acredita na lenda da biblioteca infinita e no poder alquímico dos livros do mundo.

Naquele momento, ele percebeu: Kim já tinha encontrado o caminho de tudo que jamais se perde, que sempre se transforma e conduz a novos inícios.


Heloisa Prieto é escritora, tradutora, mestra em Comunicação e doutora em Literatura Francesa. Ganhadora de vários prêmios, entre eles dois Jabutis, é autora de A Loira do Banheiro (Ed. Ática), Lá Vem História (Ed. Companhia das Letrinhas), A Tábua de Esmeraldas (Ed. Moderna) e de muitos outros livros imperdíveis.

Ilustração: Rogério Coelho