A Educação Física mudou para melhor. Agora, ela é de todos

A metodologia e os objetivos de aprendizagem das aulas da disciplina mudaram nas últimas décadas. Sai o foco nos alunos mais hábeis, entra a preocupação com a democratização. Ser solidário passou a ser tão importante quanto jogar bem um esporte. Leia mais no artigo de Marcelo Jabu, educador, criador e construtor de brinquedos, marceneiro, consultor de Programas Sociais Educativos e formador de professores

POR:
Marcel Jabu

1. No passado, aulas de Educação Física privilegiavam os alunos mais habilidosos

Aula de vôlei. Aula de Educação Física na EM Hercílio Amante. Foto: Ulisses Job
Prática de esporte na aula de Educação Física da EM Hercílio Amante.
Marcelo Barros Jabu, especialista em Educação Física. Foto: Gabriela Portilho
Marcelo Barros Jabu,
especialista em Educação Física

Este artigo é dedicado ao Prof. Beozzo, ao Prof. Simão, ao Vicentini e ao Prof. Odilon, todos eles professores de Educação Física do Grupo Escolar e Ginásio Experimental "Dr. Edmundo de Carvalho" no bairro da Lapa, em São Paulo, nos anos 60 e 70.

Recentemente passei a frequentar um desses grupos de relacionamento via Internet que promovem o encontro, melhor seria dizer reencontro, de pessoas que estudaram na mesma escola, frequentaram a mesma faculdade ou moraram na mesma rua. As pessoas vão retirando do baú fotos antigas e vão postando suas memórias no Facebook, compartilhando assim suas lembranças e saudades da infância e da adolescência.

Navegando num desses grupos, encontrei algumas fotos que retratavam nossas aulas de Educação Física no famoso "Experimental da Lapa". Essas imagens me transportaram para um tempo bem remoto e provocaram algumas reflexões que gostaria de partilhar neste artigo. Em síntese, o que pude reconstruir ao relembrar aquelas aulas foi o seguinte:

- Usávamos uniforme que consistia num tênis Conga azul-marinho com cadarços brancos, meias ¾ brancas, um calção meio balofo de brim vermelho e uma camiseta regata branca. Esse era o uniforme dos meninos. As meninas usavam uma espécie de saia pregueada ou algo assim.

- As aulas eram separadas para meninos e meninas. Os professores só podiam ministrar aulas para turmas masculinas. Já as professoras de Educação Física podiam atuar com turmas masculinas e femininas.

- Fazíamos "ginástica formativa" (flexões de braço, abdominais, exercícios na barra fixa) como aquecimento e corríamos um tempo em volta da quadra.

- As aulas consistiam em exercícios técnicos de fundamentos esportivos, geralmente das modalidades de handebol, basquete, vôlei e futebol de salão (nome da época para o futsal). E o voleibol era considerado esporte de "maricas".

- Se a gente não fizesse muita bagunça durante a aula, o professor deixava a gente "jogar de verdade" o tal esporte nos últimos 10 minutos da aula.

- Nos dias de chuva, dávamos cambalhotas em uns colchões de lona verde, plantávamos bananeiras e saltávamos sobre um plinto (aparelho destinado à execução de saltos) meio quebrado.

- Os melhores em cada modalidade eram escolhidos para participar de treinos específicos no contraturno escolar e compor equipes para representar a escola nos campeonatos colegiais.

- As meninas ensaiavam exaustivamente sequências intermináveis de ginástica sueca e participavam dos desfiles de 7 de setembro no Estádio do Pacaembu.

Analisando sob a ótica atual, é possível dizer que a Educação Física escolar daquela época segregava os alunos por gênero, favorecia os mais habilidosos em detrimento dos menos habilidosos, restringia os conteúdos a apenas algumas modalidades esportivas e ginásticas, visava à padronização dos gestos e do coletivo em vez de incentivar a expressão individual de cada aluno, valorizava a competição e não a cooperação. Enfim, era uma disciplina tecnicista, não-inclusiva e meramente instrutiva, e essa análise não estaria equivocada, pois de fato corresponderia à realidade na época.

Utilizando uma terminologia mais contemporânea, tratava-se de uma Educação Física que concentrava suas propostas didáticas na dimensão procedimental dos conteúdos, ou seja, na aprendizagem de técnicas esportivas, no desenvolvimento gestual dos alunos, enfim, no que passarei a chamar daqui em diante de dimensão corporal dos objetos de ensino e aprendizagem. Infelizmente, essa predominância da dimensão corporal se dava com uma abordagem metodológica que era eficiente para uma minoria de alunos mais habilidosos e cerceava a grande maioria dos alunos das possibilidades de aprender.

Pessoalmente, olhando essas fotos amareladas desses meninos magricelas de cabelo "escovinha" e calções balofos, as lembranças ficam um pouco contraditórias, pois elas também remetem a momentos de companheirismo efetivo, diversão, aprendizagem individual e grupal, entre outros aspectos positivos. Para minha sorte, eu pude fazer parte deste seleto grupo de alunos que, por diversas razões, tinham mais facilidade em passar ilesos pelo funil didático da Educação Física daquela época.

2. A nova Educação Física tem como foco a democratização

Alunos usando os colchonetes solicitados nas assembleias da EMEF Francisco Cardona, gerida pela diretora Débora Sacilotto. Foto: Raoni Maddalena
Preocupação com a inclusão de alunos menos habilidosos e portadores de deficiência.

Lembranças pessoais à parte, o que desejo ressaltar com essa introdução nostálgica é que a Educação Física escolar passou por um processo de mudanças muito intensas nesses 40 anos e mudou para melhor.

Os uniformes não são mais necessários, as aulas são mistas e os conteúdos são mais diversificados. Existe uma preocupação permanente com a inclusão dos alunos menos habilidosos e dos portadores de deficiência. Os processos de ensino e aprendizagem valorizam da mesma maneira a interação social entre os alunos e as conquistas específicas da dimensão corporal.

A crise conceitual dos anos 80 enfrentada pela Educação Física - e particularmente pela Educação Física Escolar - colocou o modelo tradicional em profunda discussão. Com base nesse questionamento, toda uma geração de educadores da área passou a pesquisar novas formas de atuação didática e pedagógica, na busca de responder a perguntas como:

- Como fazer para que aquela menina pequenina e tímida possa participar de um jogo de queimada sem se sentir amedrontada?

- De que modo é possível incentivar e criar maneiras efetivas para que aquele aluno gordinho e desajeitado possa avançar no processo de aprendizagem?

A partir desse momento, foi feito um grande esforço de criação e sistematização de uma proposta metodológica que conseguisse, por assim dizer, democratizar o acesso dos alunos, de TODOS os alunos, aos processos de aprendizagem com êxito. Foram muitas as mudanças e os avanços construídos pelos educadores da área. Com muitos erros e acertos, ajustes e reajustes, foi possível constituir e aplicar uma proposta metodológica que transformasse a chamada Educação Física tradicional em uma nova Educação Física escolar. Diga-se em tempo: o que norteou essa busca foi justamente a garantia de acesso à aprendizagem da dimensão corporal dos conteúdos da disciplina, ainda que outros aspectos também passassem a ter um mesmo grau de importância.

Aos poucos, as aulas foram ficando cada vez menos narradas e conduzidas apenas pelos professores. Eles foram gradativamente abandonando os comandos e o apito, abrindo espaço para uma participação mais ativa dos alunos. As filas foram substituídas por formas de organização mais eficientes e dinâmicas. As propostas padronizadas passaram a contemplar mais efetivamente as características individuais. A organização das atividades de ensino e de aprendizagem passou a ocorrer em pequenos grupos, estruturados com critérios intencionais visando potencializar a aprendizagem dos alunos e sua participação. Enfim, são inúmeros os exemplos que poderiam ser citados para ilustrar essa verdadeira revolução metodológica.

Apoiados conceitualmente nas teorias construtivistas e sociointeracionistas (que apontam para uma perspectiva de uma criança ativa no seu processo de interação com o conhecimento), os educadores formularam propostas de ensino e de aprendizagem nas quais os alunos podiam e deviam participar ativamente das aulas, resolvendo problemas, assumindo responsabilidades, tomando decisões e criando desafios, nos planos individual e grupal.

3. Brincadeiras, danças e lutas passam a receber mais atenção nas aulas

 Palavra de especialista - Educação Física. Alunos da professora de Educação Física Fernanda Pedrosa de Paula aprendendo a técnica de malabares com bambolês, na EM José Calasanz. Foto: Agência Odin
Estudantes da EM José Calasanz aprendem técnica de malabares com bambolês.

A compreensão mais clara do papel das atividades lúdicas no processo de desenvolvimento e de aprendizagem de crianças e jovens permitiu a inclusão de jogos e brincadeiras nas propostas curriculares, desde brinquedos da cultura popular até versões adaptadas dos esportes convencionais. As crianças e os educadores criaram um imenso repertório de jogos e brincadeiras, adaptando regras, transformando os espaços, construindo brinquedos, improvisando e criando materiais e objetos utilizados nas atividades. O intuito era favorecer a participação de todos, o respeito às diferenças individuais de ritmo de aprendizagem, o exercício da solidariedade e da cooperação mesmo nas atividades competitivas - essas, por sua vez, também ganharam um viés mais participativo e menos seletivo e excludente.

É possível afirmar que, nesse período, a Educação Física Escolar tem aperfeiçoado seus mecanismos metodológicos para abordar a dimensão corporal (ou procedimental) dos conteúdos e tem ampliado seu repertório de objetos de aprendizagem ao viabilizar o trabalho educativo em uma dimensão atitudinal, dando a mesma importância para o fazer e para o conviver. Nesse contexto, aprender gestos técnicos e ser solidário com o colega passou a receber a mesma atenção dos educadores na formulação dos processos de ensino e aprendizagem.

Outro aspecto que contribuiu para os avanços nesse período foi a diversificação de conteúdos delineados após a ampliação das práticas de cultura corporal consideradas relevantes: jogos e brincadeiras, esportes, danças, lutas e ginásticas. Essa ampliação de repertório das práticas da cultura corporal de movimento contribuiu significativamente para multiplicar as possibilidades de aprendizagem dos alunos, que passaram a se relacionar e a conhecer um universo mais rico de atividades corporais. Essa diversificação também contribuiu para que uma nova ampliação de objetos de conhecimento pudesse ocorrer na Educação Física escolar.

4. A cultura invade a Educação Física nas escolas

Alunos da professora Cindy Siqueira praticando capoeira, na EMEF Professor Anézio Cabral. Foto: Raoni Maddalena
Aula de capoeira na EMEF Professor Anézio Cabral.

Até aqui, as conquistas se consolidaram no campo didático-pedagógico na abordagem das dimensões corporais e atitudinais. Progressivamente, essa geração de educadores tem colocado o desafio de pesquisar e desenvolver uma proposta metodológica que inclua também as dimensões conceituais dos conteúdos nas aulas de Educação Física escolar.

Passamos, então, por uma nova ampliação de campo de conteúdos, que considera a importância dos aspectos sociais e culturais dos objetos de ensino e aprendizagem da área, o que nomearei aqui como dimensão cultural da Educação Física escolar. A perspectiva dessa ampliação permitiu que se considerasse relevante, por exemplo, conhecer os aspectos históricos das práticas da cultura corporal de movimento, apreciar suas peculiaridades éticas e estéticas, compreender sua relevância social na constituição da identidade sociocultural de um grupo ou de uma nação, ampliar a noção de respeito e admiração pela pluralidade cultural dessas práticas, entre outros.

A compreensão de que as práticas corporais são objetos socioculturais tornou possível perceber, por exemplo, que conhecer um determinado esporte valorizado e cultivado por um determinado povo é um instrumento para conhecer e respeitar esse mesmo povo. Ou ainda, que o cultivo das práticas corporais é um processo dinâmico, que se transforma constantemente em função dos contextos sociais, culturais, econômicos em que são realizados. Essa percepção abre espaço para intervenções didáticas e pedagógicas que podem instrumentalizar os aprendizes como criadores e transformadores de sua própria cultura.

5. Abordar a dimensão cultural das práticas corporais enriquece as aulas

Alunos do professor Fernando Vaghetti dançando forró, na EMEF Doutor José Dias da Silveira. Foto: Patricia Stavis
Incluir danças e brincadeiras amplia o repertório da disciplina.

A inclusão da dimensão cultural dos conteúdos na Educação Física Escolar teve influência positiva no desenvolvimento da proposta metodológica, permitindo a criação de atividades de ensino e aprendizagem: o registro e a transformação de regras, a adaptação de espaços e equipamentos, a pesquisa de campo e bibliográfica, a apreciação de vídeos e filmes, a formulação de entrevistas para investigar outras culturas e outros períodos históricos e a troca de repertório com outros grupos de contextos socioculturais diversos (aprender sobre Jogos Indígenas, por exemplo).

O fruto desse avanço metodológico pode ser ilustrado com a descrição sintética de um projeto sobre futebol realizado em uma escola de educação infantil, com um grupo de crianças de seis anos, que durou um semestre:

- jogar futebol na quadra, na grama, na areia, no pátio;

- pesquisar e ouvir músicas brasileiras sobre o futebol;

- desenhar, pintar e fazer esculturas sobre situações do jogo;

- organizar equipes em subgrupos;

- escolher nomes e desenhar símbolos para as equipes;

- jogar futebol de botão;

- entrevistar ex-jogadores profissionais;

- ouvir a gravação de transmissões de jogos no rádio de diversas épocas;

- compor hinos e gritos de guerra das equipes;

- pesquisar e adaptar regras oficiais;

- compreender as funções dos treinadores, massagistas, juízes e bandeirinhas;

- assistir a filmes sobre o futebol;

- e, entre todas essas atividades, jogar e jogar e jogar futebol.

Evidentemente, para que tudo isso fosse possível, foi necessário o envolvimento de vários outros educadores da comunidade escolar além do professor de Educação Física, como a professora de classe, os funcionários da escola, os pais, a professora de artes plásticas, a coordenação pedagógica, de modo que a organização do tempo e do espaço escolar torna-se possível o desenvolvimento de toda essa sequência de atividades, de forma sistematizada, registrada em todas as etapas, avaliada permanentemente, e desenvolvida com a participação ativa das crianças.

Em síntese, as crianças aprenderam a jogar futebol melhor do que no início do projeto, bem como aprenderam uma série de aspectos atitudinais e culturais de uma modalidade esportiva tão significativa no nosso ambiente sociocultural. Puderam ainda desenvolver uma série de competências de pesquisa, registro, expressão e comunicação de ideias e sentimentos e de apreciação e resolução de problemas e desafios de diversas ordens.

Nesse contexto, a construção de parcerias didáticas com outras disciplinas e com outros atores do cotidiano escolar pode desempenhar um papel muito importante para enriquecer o processo de aprendizagem dos alunos - sem que os momentos de vivência e aprendizagem corporal fossem esquecidos - e contribuir para uma melhoria dos projetos políticos pedagógicos das escolas para que fossem flexibilizados e oxigenados.

Vejo nessa metodologia de projetos uma ferramenta extremamente rica para que a Educação Física escolar possa continuar se desenvolvendo nos aspectos didáticos e pedagógicos, abordando as diversas dimensões de conteúdos de sua área de conhecimento, ampliando as possibilidades de aprendizagem de crianças e jovens e garantindo a manutenção dos avanços e conquistas arduamente construídos por essa geração de educadores.

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