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Para não errar na escolha

A indicação de uma obra que vai fazer a diferença na vida de uma criança ou de um jovem segue apenas um critério: qualidade literária e artística

POR:
NOVA ESCOLA
Márcia Leite,

Márcia Leite,
escritora de livros para crianças e jovens, editora e assessora de Língua Portuguesa da Escola Vera Cruz, em São Paulo

O que seriam livros imperdíveis?, perguntei-me antes de escrever este artigo. Seriam os que nunca se perdem dentro de nós? Os que permanecem na memória de cada leitor durante anos, às vezes durante toda a vida? Ou, como diz a escritora argentina María Teresa Andruetto, no livro Por Uma Literatura sem Adjetivos (Ed. Pulo do Gato), livros que "abrem em nós uma fenda que não nos permite esquecê-los, [...] que se alojam em nossa memória e continuam nos questionando acerca de nós mesmos".

"Para quando é o livro, professora?", meus alunos adolescentes perguntavam. "Para sempre, para a vida toda" - eu respondia, e aproveitava, nessas horas, para iniciar alguma conversação literária. Sabia que estimulava inquietações que ficariam à espreita, esperando a oportunidade de fazerem sentido para eles: por que os homens continuam a escrever livros e outros continuam a lê-los? Por que a escola promove a leitura de algumas dessas obras? Por que um livro não agrada a todos os leitores? Por que alguns nos encantam e nos fazem refletir e outros parecem falar uma língua à qual somos surdos? Por que alguns nos acolhem, outros nos desconfortam? Eu ouvia e aprendia com o que os estudantes tinham a dizer. Sabia que sem diálogo e sem escuta por parte do mediador não há terra fértil para semear a leitura.

Penso duas vezes se me perguntam sobre seleção de livros na escola. Quando temos como meta a formação de leitores literários, não há maior cilada que a prescrição de critérios fechados - como apenas a classificação por temas, tipologias, idade, níveis de leitura, ensino de valores, afinidade com os conteúdos. O melhor e mais honesto critério que conheço é o da seleção por qualidade literária e artística, ou, como aponta a educadora argentina Cecilia Bajour em Ouvir nas Entrelinhas (Ed. Pulo do Gato), pela "escolha de textos vigorosos, abertos, desafiadores, que não caiam na sedução simplista e demagógica, que provoquem perguntas, silêncios, imagens, gestos, rejeições e atrações".

A melhor seleção de livros inclui diversos estilos, linguagens, temas, ilustrações, projetos visuais, formatos, gêneros. O melhor livro é aquele cujo texto está a serviço unicamente da própria literatura, da inventividade, da possibilidade de falar a cada leitor . Ele não permite respostas prontas para todas as perguntas, não se contenta com questões de verificação, porque o livro imperdível, aquele que não se perde dentro do leitor, não propicia uma única leitura, até porque um livro não fecha nada, ao contrário, abre, ou, como diz o filósofo búlgaro Tzvetan Todorov em A Literatura em Perigo (Ed. Difel), "amplia o nosso universo, incita-nos a imaginar outras maneiras de concebê-lo e de organizá-lo".

Quando existe respeito e compromisso com a literatura durante a seleção de livros a serem indicados, interesse em promover a formação do leitor e, principalmente, um mediador disposto a compartilhar leituras e seus gostos, a escutar a voz do livro e do leitor, a provocar, com brilho nos olhos, desejo pelas publicações que apresenta, o encontro acontece. E o que é melhor, isso pode e deve se dar dentro de casa e da escola.


Foto: Arquivo pessoal

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