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A carreira e seus horizontes

Salários, perspectivas, vantagens e desvantagens da profissão

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NOVA ESCOLA
Quando o temporário vira permanente

Nem todos os professores que atuam na rede pública têm assegurado o piso salarial da categoria. Um dos possíveis motivos para a existência de rendimentos menores do que o mínimo garantido por lei é que 23% são profissionais admitidos em caráter temporário, apesar de muitas vezes selecionados por concurso público. Em alguns casos, eles foram chamados para substituir um efetivo que tenha se ausentado por licença e podem ficar por 20 a 30 anos nessa situação graças a renovações contínuas dos contratos temporários. De acordo com José Marcelino de Rezende Pinto, professor da Universidade de São Paulo (USP) e um dos autores da pesquisa Remuneração e Características do Trabalho Docente no Brasil, de 2011, em alguns sistemas a incidência do vínculo precário não dá direito a benefícios, como gratificações por tempo de serviço.

R$1.187 é o piso salarial nacional dos profissionais da Educação Básica pública com jornada de 40 horas semanais.

Fonte Lei nº 11.738.

O perfil do coordenador pedagógico
Veja quem ocupa essa função no país, de acordo com pesquisa da Fundação Victor Civita (FVC) 90% são mulheres.

  • 44 anos é a idade média.
  • 88% têm experiência anterior como professor.
  • 59% consideram o concurso público a forma mais adequada de chegar ao posto, mas apenas um terço foi selecionado dessa maneira.
  • 28% já acumulam mais de dez anos de experiência.
  • 70% fizeram uma pós-graduação, mas só 4% deles escolheram um mestrado.
  • 35% voltaram à universidade para uma segunda graduação. Desses, 61% optaram por Pedagogia.
  • 55% se formaram em Pedagogia.
Fonte Pesquisa O Coordenador Pedagógico e a Formação dos Professores: Intenções, Tensões e Contradições (FVC, 2010/2011).

Poucos querem ser professor

Uma pesquisa de 2009 encomendada à Fundação Carlos Chagas (FCC) pela FVC sondou 1.501 estudantes prestes a concluir o Ensino Médio em escolas públicas e privadas de oito grandes cidades do Brasil sobre a possibilidade de seguir a carreira docente. Embora 32% tenham afirmado que chegaram a cogitar esse futuro, apenas 2% optaram, de fato, por ingressar em um curso de Pedagogia ou alguma licenciatura. Veja algumas soluções para reverter esse quadro:

  • Oferecer salários mais altos.
  • Propor bons planos de carreira.
  • Melhorar a formação inicial.
  • Resgatar o valor do professor na sociedade.
  • Tratá-lo como profissional.
  • Limitar o número de alunos por turma.
  • Equilibrar a carga horária da sala de aula com o tempo de estudo individual e coletivo.

 


R$1.565 é o salário médio do professor de Educação Básica com jornada de pelo menos 30 horas semanais, se considerados o ensino público e o privado.

Fonte Pesquisa Remuneração e Características do Trabalho Docente no Brasil, 2011.

Dedicação exclusiva

A maioria dos professores da Eucação Básica leciona em apenas uma escola, o que permite um vínculo maior com os alunos

  • 76,8% uma escola
  • 19% duas escolas
  • 3,2% três escolas
  • 1% mais de três
Fonte Censo escolar/INEP 2009.

Amor declarado à carreira
Os professores brasileiros que estão na ativa adoram o que fazem e nem se imaginam exercendo outra profissão, como mostram os dados abaixo

Fonte Grupo de Estudos sobre Política Educacional e Trabalho Docente (Gestrado) da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Carência de profissionais

No Ensino Médio, especificamente, a área que mais sofre com a escassez de professores é a de Ciências da Natureza e suas Tecnologias, segundo o relatório Escassez de Professores no Ensino Médio: Soluções Estruturais e Emergenciais, feito pelo Conselho Nacional de Educação (CNE). Faltam, principalmente, os de Física e Química - são poucos os formados nesses cursos e boa parte deles não segue o Magistério. Em virtude disso, na iniciativa privada, em que vale a lei do mercado, quem ensina uma das duas matérias pode ser contratado por um salário maior do que quem leciona Língua Portuguesa ou Língua Estrangeira, profissionais em maior número. Essa carência provoca problemas tanto na rede pública quanto na particular. É comum especialistas em Matemática serem recrutados para lecionar Física, por exemplo. Esse professor enfatizará os cálculos, sendo que o mais importante da disciplina em questão é o conceito. Além disso, a Física é mais empírica, enquanto a Matemática privilegia a abstração.


1,97 milhões é o número de docentes em atividade no país.

Fonte Censo Escolar 2009.

Perfil ideal

O profissional valorizado hoje tem capacidade de reflexão, defendem vários especialistas. Isso significa que ele precisa ser um observador atento do contexto da escola, da realidade cotidiana em sala de aula e de sua atuação diante de cada situação ou fator que influenciam o ensino. Isso inclui também estar aberto para as ideias dos outros e ter disposição para refletir em torno de tudo isso - o que exige um embasamento teórico sólido. "Para atender às necessidades de uma sociedade em transformação, as escolas precisam ser dinâmicas. Isso não se cumpre se a docência é exercida de forma rotineira", explica Isabel Alarcão, doutora em Educação e professora aposentada da Universidade de Aveiro, em Portugal.


Superligados

Os dias atuais pedem professores preparados para utilizar as tecnologias no processo de ensino e aprendizagem. Como ninguém se sente à vontade com algo que não domina, os educadores precisam buscar formação nessa área na rede em que atuam, na escola ou por conta própria. Maristela de Alcântara, diretora do Centro Digital do Ensino Fundamental da rede municipal de São Caetano do Sul, na Grande São Paulo, afirma: "Somente se apropriando dos recursos disponíveis, um docente é capaz de desenvolver em seus alunos as habilidades necessárias para que eles caminhem com propriedade." Esse trabalho se dá em três frentes:
Pesquisa Com a internet, as possibilidades são imensas. Mas os alunos precisam ser orientados para buscar informações com sabedoria. É preciso desenvolver neles o espírito crítico.
Comunicação A aprendizagem colaborativa é uma nova possibilidade aberta com as recentes ferramentas tecnológicas. É na troca de ideias que se constrói o conhecimento.
Produção Crianças e adolescentes se sentem motivados a aprender quando entendem que também podem produzir e divulgar conteúdos. Isso desenvolve a criatividade e o raciocínio.


De olho no Ensino Superior

Na carreira docente, o professor universitário é o único que tem remuneração equivalente ou maior do que a de outros profissionais com formação superior. Com um salário médio de 4.467 reais, de acordo com IBGE, ele só recebe menos do que os médicos (salário médio 6.140 reais). "A situação não é tão boa se considerarmos que a formação de quem leciona na universidade precisa incluir pelo menos o mestrado e os seus ganhos se equiparam aos de profissionais que podem atuar apenas com a graduação", diz José Marcelino de Rezende Pinto, da USP. Para quem quer se destacar na carreira a dica é fazer, além do mestrado, também o doutorado.


O grande empregador dos professores é a rede pública de ensino

  • 77,9% rede pública
  • 17,6% rede privada
  • 4,5% rede puública e privada
Fonte PNAD 2009/IBGE

Chance de progredir traz satisfação

A sensação de que a carreira proporciona possibilidades de ascensão faz com que metade dos professores do país se sinta satisfeita. Essa é uma das conclusões da pesquisa Trabalho Docente na Educação Básica no Brasil, desenvolvida pelo Gestrado, da UFMG. Coordenado por Dalila Andrade Oliveira e Lívia Maria Fraga Vieira, o estudo foi realizado em 2009 com cerca de 665 mil docentes da Educação Básica em atividade em escolas públicas e particulares de sete estados brasileiros. O bloco que pensa justamente o contrário e se julga insatisfeito soma 22%. São menores a parcela dos que se sentem estagnados (7%), pois já teriam alcançado a posição máxima que a carreira poderia lhe oferecer, e a dos que se dizem indiferentes em relação a isso ou deram outras respostas (21%).


A jornada
Mais de um terço dos professores brasileiros trabalham em regime de 40 horas semanais.

  • 36,5% 40 horas
  • 27,1% de 20 a 25 horas
  • 16,3% de 26 a 39 horas
  • 14,7% mais de 40%
  • 5,4% até 18 horas
Fonte Pesquisa Remuneração e Características do Trabalho Docente no Brasil, 2011.

5 pré-requisitos para chegar à equipe gestora
Assim como o cargo de diretor, o posto de coordenador pedagógico também pede experiência anterior como docente. Saiba detalhes sobre essa e outras competências esperadas de quem almeja um lugar na equipe de gestão

1 Experiência de qualidade Tempo de serviço faz diferença, mas desde que o professor passe por essa fase de uma forma reflexiva, com orientação adequada para aprimorar seu trabalho. Três anos de dedicação com qualidade valem mais do que 30 realizando mecanicamente sempre as mesmas tarefas.

2 Formação dirigida Mais do que conhecimento profundo dos conteúdos específicos e das metodologias de ensino da sua área de atuação, o professor necessita ter uma sólida formação nos fundamentos da Educação para atuar como coordenador pedagógico, diretor ou vice. Não por acaso, a graduação em Pedagogia é pré-requisito para ser gestor na seleção de diversas Secretarias de Educação.

3 Liderança com persistência Um candidato à equipe de gestão deve ser capaz de motivar muita gente - no caso do diretor, a comunidade escolar, e, do coordenador pedagógico, o corpo docente. O objetivo é direcionar a energia para a aprendizagem dos alunos. Saber liderar inclui outras qualidades, como ter visão de conjunto, raciocínio estratégico e capacidade de resistir a pressões.

4 Facilidade para se relacionar A chave é saber ouvir, ter um projeto que envolva a equipe, saber tomar decisões e criar um ambiente saudável em torno de si - um clima que desperte em todos o prazer de trabalhar. Assim, será possível manter sempre abertos os canais de comunicação com as comunidades interna e externa da escola, ou seja, com os professores, funcionários, alunos e pais.

5 Humildade É essencial não se achar mais do que ninguém, respeitar as opiniões dos outros e aceitar críticas. Quem está em posição de gestão não faz nada sozinho e, por isso, precisa contar com a colaboração de todos os membros da equipe.


Prêmio reconhece o valor dos educadores

Desde sua criação, em 1998, o Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10, uma iniciativa da FVC, tem como proposta identificar e valorizar boas práticas em sala de aula desenvolvidas em todo o país. Depois de um criterioso processo de seleção, são escolhidos, anualmente, dez projetos desenvolvidos com sucesso por professores de Educação Infantil e do Ensino Fundamental nas diferentes disciplinas. Em 2007, foi criada mais uma categoria, a do Gestor Nota 10, que reconhece a atuação de um diretor escolar ou um coordenador pedagógico a cada ano. Todos os vencedores recebem um troféu e uma premiação em dinheiro, além de ampla visibilidade com a divulgação de seu trabalho. Um dos dez professores ainda é eleito o Educador do Ano, destaque que lhe rende uma pós-graduação. Até hoje, já são 145 educadores premiados que, juntos, receberam, aproximadamente, 1,44 milhão de reais. A cerimônia de entrega dos troféus ocorre sempre em outubro. As inscrições são abertas meses antes, exclusivamente pela internet, no site premiovc.org.br. É preciso ler o regulamento, preencher uma ficha de inscrição e anexar o projeto escrito.


O salário do diretor em três redes

Não existem parâmetros salariais para um diretor escolar válidos para todo o país. Os valores variam conforme o plano de carreira de cada rede. Veja os exemplos de três estados:

1 São Paulo A escala estabelecida em junho de 2011 prevê vencimentos que variam de 2.226,64 reais a 6.302,47 reais para um diretor que cumpra 40 horas semanais.
2 Rio de Janeiro Os salários de gestores escolares foram reajustados em abril de 2011 e podem chegar a 5.378,56 reais, por 40 horas semanais.
3 Minas Gerais A tabela em vigor em outubro de 2011 estabelece ganhos de 1.939 reais a 3.500 reais, dependendo do número de alunos da escola.


De onde vem a cobrança
Para metade dos professores, a maior pressão por um bom desempenho profissional é exercida por eles mesmos. Veja quais são as outras fontes de cobrança.

  • 50% o próprio professor
  • 13% Secretaria de Educação
  • 13% direção da escola
  • 11% supervisão/coordenação pedagógica
  • 6% alunos
  • 5% pais
  • 2% colegas
Fonte Gestrado/UFMG.

Como são os planos de carreira

Embora existam as Diretrizes Nacionais para a Carreira dos Profissionais do Magistério, não há, efetivamente, um plano nacional da carreira docente. Várias redes formularam o seu, e um pode ser bem diferente do outro. Ainda há uma má notícia: "Não são raros os casos em que ele existe, mas não é colocado em prática", afirma Rubens Barbosa de Camargo, da Faculdade de Educação da USP, que coordena o grupo Observatório da Remuneração Docente. Os limites orçamentários costumam ser a justificativa mais comum dos sistemas estaduais e municipais para o descumprimento da lei. "Por isso, uma das principais reivindicações dos docentes é a aplicação do plano de carreira." O documento é elaborado para permitir uma progressão funcional do servidor estável na função, ou seja, que foi efetivado depois de cumprir três anos de estágio probatório. Isso pode ocorrer de duas formas: verticalmente (quando o profissional passa a ganhar mais porque alcança níveis superiores dentro ou fora da sala de aula, depois de ter, em geral, incrementado sua formação) ou horizontalmente (quando ele ganha um acréscimo salarial sem mudar de função). O professor, tal como outros servidores públicos, pode obter adicionais ou gratificações por tempo de serviço, por desempenho e outros, conforme as regras da rede. Em tempo: tudo isso se refere ao ensino público. De acordo com Camargo, no setor privado, seja na Educação Básica ou no Ensino Superior, são raríssimas as instituições que oferecem um plano de carreira.


Questão de objetivo

Cursar a pós-graduação é uma forma de progredir na carreira e incrementar o salário. Mas se engana quem tem essa iniciativa com o único objetivo de obter ganhos materiais. É o que defende a professora Beatriz Gouveia, coordenadora do programa Além das Letras do Instituto Avisa Lá, em São Paulo. "Muitos professores fazem a pós apenas para obter um título que proporcione uma melhor colocação e um percentual de aumento. Isso pode dar uma satisfação imediata, mas a real satisfação profissional está mais vinculada aos resultados do trabalho", explica Beatriz, que é mestranda em Psicologia da Educação na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Por essa razão, ela recomenda a quem resolver dar esse passo escolher uma área que seja coerente com o foco escolhido para sua carreira a fim de que ajude efetivamente na melhoria de sua atuação. "A pós-graduação somente se torna um processo bem-sucedido se produz impacto na outra ponta, ou seja, se incide sobre o aprendizado dos alunos."

Palavra de especialista

"Para quem gosta de lidar com gente, não há melhor profissão no mundo. Estar em sala de aula, lecionando, é fonte de grande satisfação, porque ser responsável pela formação de pessoas é algo muito especial. É claro que nós, educadores, queremos ser valorizados e ter melhores salários. Mas, ainda assim, nunca me arrependi de ser professora."
Sofia Lerche Vieira, professora e pesquisadora da Uece.

"Todo professor deve saber que é essencial reservar momentos de estudo. Para fazer bem seu trabalho, ele precisa se empenhar na busca de mais conhecimentos. Faço muitos cursos - alguns a distância. Dessa forma, otimizo meu tempo e posso estudar bem cedo, até as 7 horas da manhã, o que seria inviável num curso regular. Cada um tem de achar espaço em sua agenda para a formação."
Maristela de Alcântara, diretora do Centro Digital do Ensino Fundamental da rede municipal de São Caetano do Sul, na Grande São Paulo.

"Diversos professores decidem trabalhar como diretores porque podem desenvolver habilidades que acreditam ter, como as de liderança, mobilização de pessoas e mediação, alargando assim sua identidade profissional. Além disso, eles podem ampliar seu espectro de influência, obtendo o reconhecimento de um grande número de pessoas. Esses ganhos até superam em significado e importância os financeiros. Em pesquisas nacionais e internacionais sobre a motivação no trabalho, as vantagens salariais nunca são apontadas como a primeira razão para escolher uma ocupação, sejam quais forem as categorias profissionais consultadas."
Heloísa Lück, diretora do Centro de Desenvolvimento Humano Aplicado (Cedhap) e coordenadora da pesquisa Práticas de Seleção e Capacitação de Diretores Escolares, da FVC.

Plantão de dúvidas

Existe uma idade mínima ou máxima para começar a lecionar?
Na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) não há referências à idade. No ensino público, é necessário seguir as regras gerais do funcionalismo - e elas determinam que quem presta um concurso precisa ter 18 anos até a data de tomar posse do cargo. No mais, o que conta na seleção é a formação de cada candidato. Nas escolas particulares, eventualmente, pode haver preferência por alguma faixa etária mas, ainda assim, as competências e as habilidades sempre têm peso maior.

É preciso ter experiência como professor para se candidatar a diretor?
Alguns anos de prática como docente é um dos pré-requisitos para quem deseja ocupar o cargo de gestor escolar exigidos por 20 das 24 redes estaduais consultadas para a pesquisa da FVC sobre o tema. O tempo exato pode variar, mas a legislação brasileira prevê que o professor acumule, no mínimo, três anos de Magistério para ser diretor. Da mesma forma que é praxe cobrar essa experiência na rede pública, ela é desejável nas intituições particulares. Afinal, para ser capaz de orientar bem uma equipe, é necessário conhecer as dificuldades e os mecanismos da prática. "O caminho natural para o exercício de funções externas à sala de aula começa nela própria", diz Sofia Lerche Vieira, professora e pesquisadora da Universidade Estadual do Ceará (Uece).

É possível ter dois empregos na rede pública ou um na pública e outro na particular?
A lei permite que o professor assuma dois cargos públicos, desde que as cargas horárias sejam compatíveis. Para isso, ele precisa ter realizado dois concursos. Da mesma forma, não há problemas legais em trabalhar, paralelamente, nas redes pública e privada.

É possível ganhar mais na rede particular do que na pública?
"Não passa de mito a ideia de que as escolas particulares pagam melhor. É possível encontrar bons rendimentos em algumas escolas grandes e caras, mas há muitas instituições pequenas com salários abaixo da média", revela José Marcelino de Rezende Pinto, da USP, com base em recente pesquisa sobre remuneração do trabalho docente no Brasil.
Os resultados confirmam dados de levantamento realizado pelo Sindicato dos Professores de São Paulo (Sinpro-SP), em 2007. A pesquisa detectou diferenças salariais de até 624% entre uma e outra escola da rede privada paulistana, de acordo com a região em que se localizava a unidade e o perfil do público que atendia. Enquanto uma instituição do bairro nobre do Morumbi pagava 4.151 reais aos professores das primeiras séries do Ensino Fundamental por turno de 25 horas, o valor recebido pelos docentes da mesma etapa caía para 573 reais numa escola de Santana, bairro de classe média.
Dados da PNAD demonstram que, na média, a remuneração da rede privada é maior do que a da pública apenas no Ensino Médio (e mais ainda nos cursinhos pré-vestibulares). "Nesses casos, prevalece a lógica do futebol, que destina os melhores salários às estrelas do time", diz Rezende Pinto.

Você sabia?

  • Há dois regimes de contratação na Educação Básica do país: um é o estatutário, adotado para 53,8% dos professores; o outro é o fundamentado na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) (regime da iniciativa privada), que norteia o vínculo empregatício de 23,2% dos docentes. Os demais são temporários, com vínculo precário. Os dados são da pesquisa Remuneração e Características do Trabalho Docente no Brasil.
  • Professores que atuam nas redes públicas nem sempre querem que seus filhos estudem em uma escola mantida pelo governo. Quase 40% desses docentes matriculam suas crianças em instituições particulares. Os dados são da Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio (Pnad) de 2009, feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
  • Boa parte dos professores da Educação Básica no país não se graduou numa universidade. A pesquisa Trabalho Docente na Educação Básica no Brasil, realizada pelo Gestrado, da UFMG, indica, com base no Censo Escolar de 2009, que metade dos que atuam na Educação Infantil não têm formação em nível superior, assim como um terço dos que lecionam no Ensino Fundamental.
  • De acordo com a pesquisa Práticas de Seleção e Capacitação Diretores Escolares, realizada pela FVC, São Paulo é o único estado brasileiro que realiza concursos públicos para selecionar diretores de escola. Nas demais redes estaduais e municipais, predominam a eleição pela comunidade escolar e a indicação por instâncias superiores.

O que aprendi

Voltar à sala de aula revigora a prática
"A primeira vez que pisei em uma sala de aula foi logo depois de ter concluído o curso de Magistério. Fui lecionar na 2ª série de uma escola da rede estadual de São Paulo e encontrei muitos alunos que ainda não sabiam ler. Eles, simplesmente, decoravam a lição da cartilha. 'E agora?', pensei. Corri buscar o auxílio de professores mais experientes. Levei os cadernos das crianças e fiz, com a colaboração deles, o que chamamos hoje de avaliação diagnóstica da situação da turma. Assim começou todo o meu processo de formação. Funcionou tão bem que nunca quis parar de ensinar. Quando tive a oportunidade de assumir cargos de gestão, escolhi ser formadora de professores. Além de ser minha vocação, por meio desse trabalho alcanço meu principal objetivo, o de atingir o aluno. Em 2010, senti a necessidade de voltar à sala de aula para alfabetizar. Como forma de colocar em prática o que discuto para os docentes, peguei turmas noturnas de Educação de Jovens e Adultos."
Iris Francisco, professora de EJA e formadora de professores, em Bragança Paulista, a 87 quilômetros de São Paulo.