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Os dilemas do começo

Estágio, possibilidades e caminhos que levam ao primeiro emprego, dúvidas e decisões iniciais

POR:
NOVA ESCOLA
Aprendendo a lecionar

O papel do estágio é proporcionar a observação da prática para teorizá-la e permitir ao futuro professor vivenciar situações formativas. "É uma oportunidade de ter contato direto com o dia a dia de uma escola e conhecer as situações de sala de aula", diz Luzia Orsolon, diretora administrativa do Colégio Assunção, na capital paulista. É preciso aproveitar bem essa chance. "O estagiário deve observar essa realidade, procurar lê-la com os subsídios teóricos que tem em seu curso, problematizar o observado e intervir sempre que possível."

Exigências diferentes
Conforme o curso de graduação, o futuro professor tem de cumprir um tipo de estágio

Licenciaturas específicas (como Filosofia, Letras, Matemática, Física e História) É necessário fazer estágio na disciplina em que vai se formar nas séries finais do Ensino Fundamental e também do Ensino Médio.
Carga horária total: 400 horas.

Pedagogia Há uma distribuição ao longo do curso para que o estudante realize, a partir do 3º semestre, estágios em três frentes: na área de gestão escolar, na de docência em Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental e em disciplinas pedagógicas do curso Normal (Magistério) de nível médio se houver demanda por esse tipo de ensino na região.
Carga horária total: 300 horas.


Bem vistos
Os professores da Educação Básica aparecem entre os profissionais em que a população, em geral, mais confia. Veja o ranking.

  • 97% 1º lugar Bombeiros.
  • 91% 2º lugar Professores do Ensino Fundamental e do Médio e carteiros.
  • 90% 3º lugar Médicos.
Fonte Estudo sobre credibilidade das profissões da GFK Brasil, 2011.

Questão de objetivo

A finalidade do estágio curricular obrigatório é proporcionar ao estudante de licenciatura ou Pedagogia aprendizagens sobre as práticas de ensino e o funcionamento de uma escola. Mesmo que a principal atribuição dele não seja dar aulas, ele pode ministrar algumas, com o acompanhamento do docente da universidade que orienta o estágio - em geral com base em uma proposta de regência preparada com a supervisão dele - e a tutela do docente responsável pela turma na escola. De qualquer forma, no dia a dia, o estagiário não é um mero ajudante do professor-tutor - e não pode se enxergar nem se comportar assim. Espera-se que se forme entre os dois uma genuína parceria, com trocas constantes. "O professor da escola também se beneficia com sua presença, seja atualizando-se quanto a questões teóricas contemporâneas de sua área, seja olhando suas práticas sob uma perspectiva crítica", completa Neide de Rezende, docente da Faculdade de Educação da USP.


Alternativas não obrigatórias

Além do estágio exigido pelo currículo da graduação, existe outro: o remunerado, que funciona como um pré-emprego. É permitido a partir do 4º período do curso. Se o alvo for a escola pública, a dica é ficar de olho nos sites das Secretarias de Educação - municipais e estaduais - que lançam editais abrindo seleções simplificadas para professores substitutos por tempo determinado. Cada Secretaria define seu processo, que pode envolver análise de currículo e de histórico escolar ou observação de uma aula dada pelo candidato. É possível também buscar uma vaga na rede privada, por meio de contatos dentro e fora da universidade. Há ainda outra alternativa, só que sem ganhos financeiros: o estágio voluntário. "O estudante se envolve em algum projeto de extensão na universidade, que o leva a trabalhar numa escola", diz Eliana Tabosa, coordenadora da central de estágios da Fafica. É uma boa oportunidade de agregar conhecimento à sua formação e experiência ao currículo.


A largada na rede pública

A maioria dos docentes em atividade no país leciona em escolas municipais, estaduais e federais. Para ingressar como efetivo, quem é diplomado deve prestar concurso e os que ainda não são formados podem trabalhar como temporários. Essa alternativa também é utilizada pelos graduados, enquanto aguardam concursos. Em geral, os docentes temporários são convocados para substituir os que estão de licença ou ensinar disciplinas para as quais falta pessoal qualificado. Os interessados devem procurar as Secretarias de Educação e se informar sobre como se inscrever no banco de candidatos.


Como fazer um relatório de estágio
Não existe um modelo único, pois cada professor estipula o que considera essencial ter no material que será entregue pelo estudante após a conclusão da vivência prática obrigatória. Apresentamos aqui um modelo possível

Capa

  • Nome do aluno.
  • Modalidade de relatório (varia conforme o tipo de estágio. Por exemplo, relatório de observação ou de regência, quando foi realizada uma atividade ou ministrada uma ou mais aulas previamente elaboradas).
  • Nome da escola e série em que atuou.
  • Nome do professor da disciplina que orientou o estágio.
  • Semestre e ano.

Introdução

  • Onde foi realizado o estágio, quando e em que nível de ensino. Inclui algumas características gerais do contexto encontrado.
  • Objetivos previamente traçados. Por exemplo, se foi escolhida alguma teoria pedagógica e elaborada uma atividade ou aula especial para testá-la na prática.
  • Como a proposta foi elaborada, de que forma e em que momento ela se inseriu no programa do professor.
  • Dificuldades encontradas no início do estágio para cumprir os objetivos e em que medida foi possível seguir o planejamento. O número de aulas combinadas foi dado? Todas as etapas de uma atividade programada foram implantadas? Houve a necessidade de fazer adaptações? Quais? Por quê?


Descrição da escola

  • Nome, localização (com algumas referências sobre o contexto do entorno), período de funcionamento, segmentos atendidos e tamanho.
  • Infraestrutura e recursos materiais: tem ou não biblioteca, quais as dimensões, o acervo, a capacidade, o uso, o tipo de atendimento (com ou sem pessoal capacitado); possui ou não sala de informática (com informações semelhantes às da biblioteca); quantos banheiros; em que condições encontra-se o pátio; que outros recursos materiais oferece, como aparelho de DVD, acervo de filmes e filmadora. Aspectos pedagógicos: como é a equipe de gestão, se há coordenação pedagógica, qual a composição do corpo docente, a frequência com que os professores se reúnem, como é o projeto político-pedagógico e o currículo.


Observação da sala de aula

  • Descrição analítica dos componentes das aulas de que participou durante o estágio (mesmo que apenas como observador).
  • Os conteúdos abordados, as metodologias e as estratégias adotadas pelo professor e as avaliações empregadas. Para isso, é essencial ter feito anotações no diário de campo logo depois das aulas.
  • Comentários sobre os comportamentos em classe: a interação do professor com os alunos, entre os alunos e deles com o estagiário.
  • Comentários sobre as aulas dadas, seguindo o mesmo roteiro empregado para as ministradas pelo professor titular da turma. Detalhar em que medida houve adequação ou não entre a proposta inicial e a realização.


Comentários finais

  • A importância do estágio para a formação do futuro professor.
  • Dificuldades encontradas e como elas foram superadas.
  • Sugestões que melhorariam o ensino e a aprendizagem naquele contexto.


Bibliografia e outros

  • Referências sobre os autores citados no relatório, notas de rodapé (usadas para dar informações relevantes adicionais) e anexos (basicamente, o material didático usado pelo professor e a produção dos alunos durantes as aulas ou atividades do período de estágio).
Consultoria Neide de Rezende, docente da USP.

1,2 Foi o número de candidatos por vaga em um concurso para seleção de professores de Matemática do estado de São Paulo em 2011, que registrou 19.058 inscritos para 16.461 postos. Foram aprovadas somente 7 mil pessoas.

70% Foi a porcentagem de candidatos que já lecionavam na rede paulista como temporários, mas fizeram a prova para uma vaga como efetivos.

Fonte Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.

Estratégia caça-concursos

Investir em concursos de outras cidades é uma opção. Antes, é preciso avaliar: o local é perto de onde mora e dá para ir e voltar todo dia? Caso seja necessário se mudar, isso vale a pena? O salário será suficiente? E o que seria deixado para trás, considerando família e outras possibilidades de emprego? É essencial ainda analisar as chances de formação. Há boas universidades que oferecem pós-graduação? A rede investe em capacitação em serviço? Tem plano de carreira? As escolas, em sua maioria, têm coordenadores pedagógicos?


O guia do concurso
O que é preciso saber para participar do processo oficial de seleção das redes públicas e se sair bem

Onde se informar Os sites das Secretarias de Educação dos estados e dos municípios são as fontes primárias de informação nesse caso - neles são publicados os editais. Na agenda do site NOVA ESCOLA, também há várias dicas. Como não existem datas fixas para o lançamento dos editais ou a realização das provas, é preciso ficar atento o ano todo.
Como se preparar Em primeiro lugar, é preciso ler bem o edital. Ele esclarece as regras e cada concurso tem as suas. Depois conferir quantos dias restam até a data das provas e montar um cronograma de estudo. Vale decidir o que é melhor: fazer isso sozinho ou se inscrever num curso preparatório.
O que estudar Depende. Cada concurso tem um programa e uma bibliografia específica. Bernardete Gatti, da FCC realizou uma pesquisa entre 2001 e 2008 sobre como foram as provas dos concursos públicos para professor nesse período. Ela concluiu que a maioria das questões tratava de assuntos ligados à legislação: por exemplo, a Lei das Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). Teorias educacionais e pensamentos de nomes importantes, como o russo Lev Vygotsky (1896-1934), também apareceram, ainda que em menor proporção. Bem menos destaque ainda ganharam as metodologias específicas e os conteúdos da disciplina que o professor vai ensinar e/ou do ciclo em que atuará.


4 questões que já caíram nas provas
Confira exemplos de perguntas extraídas de concursos para professor em diferentes redes públicas e veja se você acertaria as respostas. Elas estão no pé da página

1 Vygotsky foi um dos teóricos interacionistas na área da Psicologia que têm influenciado pesquisas e práticas pedagógicas. Sobre suas concepções em relação ao desenvolvimento da criança, analise as alternativas abaixo e marque a alternativa INCORRETA:
a. Para Vygotsky a construção do pensamento e da subjetividade é um processo cultural e não uma formação natural e universal da espécie humana.
b. A construção do pensamento, de acordo com Vygotsky, ocorre por meio do uso de signos e do emprego de instrumentos elaborados na história humana.
c. Segundo a perspectiva vigotskiana, os signos não são criados nem descobertos pelos sujeitos, mas construídos e apropriados com base na relação com parceiros mais experientes que emprestam significações a suas ações em tarefas realizadas conjuntamente.
d. Entre outros signos, a apropriação pela pessoa da linguagem de seu grupo social constitui o processo mais importante no seu desenvolvimento.
e. De acordo com Vygotsky, o pensamento humano é formado primordialmente pelas aptidões geneticamente determinadas e amadurecidas com base na estimulação ambiental.

Prefeitura Municipal de Patos, MG, 2010. concurso para professor das séries iniciais do Ensino Fundamental.

2 Em sua crítica pedagógica tradicional, Paulo Freire evidencia os mecanismos opressivos da Educação capitalista, cuja essência seria:
a. A disciplina
b. O modelo
c. A organização
d. O trabalho
e. A exploração

Governo do Estado do Rio de Janeiro, 2010. concurso para professor da Educação Básica/Física.

3 Sobre as Orientações Curriculares para o Ensino Fundamental - CADERNO 1, no que tange especificamente à Língua Portuguesa, é possível dizer que:
a. Contrariam os Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental (1997), para os quais o domínio da linguagem verbal tem estreita relação com a possibilidade de plena realização social.
b. Sugerem que a responsabilidade de garantir a seus alunos os saberes linguísticos é maior quanto maior for o grau de letramento das comunidades em que vivem as crianças.
c. Garantem que a produção de textos eficazes nas mais variadas situações comunicativas comprometem a proficiência leitora dos alunos.
d. Repudiam a relevância da linguagem para o exercício da cidadania, direito inalienável de todos, e limitam a capacidade de discernimento do aluno.
e. Afirmam que a escola, comprometida com a democratização social e cultural, assume a responsabilidade de garantir a seus alunos o acesso aos saberes linguísticos.

Prefeitura Municipal de Aracruz, ES, 2010. concurso para professor do 1º ao 5º anos do Ensino Fundamental.

4 "Mano, ver sua foto me dá um aperto no peito."
"Os gambé vieram a mil farejando."
"Ficava muito doido e deixava a mina só."
"Aí, truta, essa é dedicada pra todos os guerrero."
"Mano", "gambé", "mina", "truta" são termos que constituem marcas de linguagem do rap, presentes na periferia em geral. Os termos acima evidenciam a variante linguística denominada:
a. Etnoleto.
b. Gíria.
c. Topônimo.
d. Jargão.

Prefeitura municipal de Belo Horizonte, MG, 2011. concurso para professor de Língua Portuguesa.

Respostas 1e, 2a, 3c e 4b

Como fazer um currículo
O ideal é optar por um modelo simples, mas eficiente

Nome completo

  • Endereço completo, telefones (com DDD) e e-mail.
  • Idade e estado civil.
  • Currículo Lattes (coloque o link, caso esteja presente no banco de dados oficial de currículos de pesquisadores, instituições e grupos de pesquisa).

Dica: se quiser, inclua uma foto neste bloco, mas apenas de rosto.

Objetivo

  • Cargo ao qual está se candidatando.

Formação

  • Nome do curso e a instituição na qual foi realizado.
  • Período (os anos de início e de conclusão).

Dicas: liste os cursos de graduação e de pós, (especialização, mestrado ou doutorado), especificando se presencial ou a distância e a carga horária. Se a pós já foi iniciada, mas ainda não concluída, coloque no item período, o ano de início e, entre parênteses, "em curso". Repita a estrutura caso vá mencionar mais de um. Prefira começar pelo mais recente.

Experiência

  • Cargo (especifique se foi contratado como estagiário ou como funcionário).
  • Nome da empresa ou da escola.
  • Período (data de entrada e de saída).
  • Principais responsabilidades.

Outros cursos e seminários

  • Nome do curso, seminário ou workshop, seguido do nome da instituição que o promoveu.
  • Período (as datas de início e de conclusão).
  • Descrição.

Dicas: no campo descrição, indique os temas e a carga horária. Prefira começar pelo mais recente. Lembre-se de que cursos na área de tecnologia são valorizados.

Outras experiências

  • Instituição.
  • Período.
  • Descrição.

Dicas: cite as atividades não diretamente ligadas à Educação, mas relevantes porque são relacionadas à criança. Por exemplo, animação de festas infantis, participação em grupos de teatro, trabalho (voluntário ou não) em ONGs e vivências no Brasil ou no exterior como babá.

Idiomas

  • Língua, seguida do grau de proficiência (básico, intermediário ou avançado).

Dica: divida sua fluência na língua em três frentes. Exemplo: "Inglês - leitura avançada, escrita intermediária e conversação básica".

Informática

  • Programa, seguido do grau de proficiência (básico, intermediário ou avançado).

Até quando dura o começo

Os especialistas consideram como início de carreira os três primeiros anos de docência. Duas características são marcantes nesse período: a necessidade de sobrevivência e a descoberta, sentimentos vividos paralelamente. O primeiro é consequência da confrontação dos ideais e das convicções do novato com a realidade da escola - frequentemente repleta de dificuldades, como a superlotação nas classes, a indisciplina dos alunos e a ausência de orientação. Já a descoberta é o entusiasmo típico de todo começo, alimentado pela sensação de fazer parte de uma equipe de educadores. Essa oportunidade faz a autoestima ir lá em cima. Não por acaso, se diz que a descoberta compensa qualquer obstáculo que desperte a necessidade de sobrevivência.


A largada na rede privada

Nas escolas particulares, a seleção funciona mais ou menos como em qualquer empresa. "O processo costuma iniciar com uma fase de análise de currículo. Depois, há uma prova escrita e, por fim, uma entrevista com a coordenação pedagógica ou o gestor", descreve Débora Rana, coordenadora pedagógica da Escola Projeto Vida, em São Paulo. Às vezes, os melhores candidatos são escolhidos para uma espécie de estágio de curta duração e efetivados só se tiverem bom desempenho nessa experiência. Para ficar de olho na abertura de vagas, vale perguntar para os colegas que já estão colocados, separar um grupo de escolas em que gostaria de trabalhar para enviar currículo e ficar de olho nos classificados de empregos disponíveis na internet e nos jornais.


Comportamento apropriado

Para agir de modo adequado em uma entrevista de emprego, o entrevistado deve apresentar um panorama da sua carreira e habilidades, que significa descrever oralmente, de forma sucinta, o que está no currículo. Pode mostrar material produzido por alunos que já teve ou acompanhou em estágios. Um bom uso da Língua Portuguesa é fundamental. Gírias não são proibidas, mas é melhor evitá-las. O candidato deve estar preparado para responder a questões não só sobre sua carreira, mas também relativas ao seu repertório cultural, como hábitos de leitura e qual o último filme a que assistiu. Pode ser solicitado a montar um plano de aula. Um alerta: é importante controlar a ansiedade e driblar a timidez.


5 dicas para impressionar o selecionador
Algumas atitudes, apesar de básicas, são essenciais na hora da entrevista de emprego. Elas mostram se o profissional é responsável e interessado

1 Não se atrase um minuto sequer. A pontualidade passará a mensagem de que você se preocupa em cumprir horário e nunca deixará suas turmas esperando.

2 Não deixe dúvidas de que você conhece bem a área para a qual está se candidatando - e gosta dela!

3 Nem pensar em falar mal dos empregos anteriores ou de diretores e de coordenadores pedagógicos com quem já teve a chance de trabalhar.

4 Demonstre que está por dentro da linha pedagógica e de outras informações importantes sobre a escola. Para isso, faça uma boa pesquisa na internet antes.

5 Vista o mesmo tipo de roupa que pretende usar em sala. Lembre que o visual ideal para professores é informal. Isso significa não usar bermuda, saia curta, decote, salto alto e acessórios extravagantes.

Palavra de especialista

"O estagiário deve procurar sempre se sentar em um lugar estratégico na sala para poder observar com facilidade o andamento da aula. Mas também pode colaborar com o trabalho do professor em atividades fora de classe, como na biblioteca da escola. E, claro, aproveitar a oportunidade para desenvolver pesquisas junto aos estudantes para a universidade e o futuro exercício da profissão."
Neide de Rezende, docente da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP).

"De um modo geral, as provas dos concursos públicos para professores não são muito bem elaboradas. Há muitas questões formuladas de maneira ambígua."
Bernardete Gatti, pesquisadora colaboradora da FCC.

"A entrada na rede privada pode ser uma via mais imediata para um recém-formado, pois não é necessário esperar pela realização de concursos. Mas é bom lembrar que a rede pública oferece vantagens: o professor concursado tem a garantia de estabilidade e a chance de contar com um plano de carreira - previsto em lei, mas ainda oferecido por menos da metade das redes municipais do país - o que há em poucas instituições particulares. Nas escolas privadas, a demissão pode se dar a qualquer momento. As avaliações de desempenho são realizadas anualmente e podem ser decisivas para a manutenção do emprego."
Luzia Orsolon, diretora administrativa do Colégio Assunção, na capital paulista.

"Quando entrevisto um professor para uma vaga, quero que ele me conte a experiência que tem, ou seja, que faça um resumo de seu currículo e de suas competências na área. Como o iniciante tem pouca vivência prática em sala de aula, ele pode ressaltar outros pontos fortes do currículo, como a fluência em idiomas ou o domínio de ferramentas tecnológicas. É fundamental mencionar a participação em congressos, workshops, palestras e seminários. A presença nesse tipo de evento mostra que o profissional tem um perfil de busca constante, algo que é muito valorizado na carreira docente. Já quando converso com um candidato a estágio, espero ver, principalmente, brilho nos olhos. Preciso identificar disponibilidade para aprender."
Débora Rana, coordenadora pedagógica da Escola Projeto Vida, em São Paulo.

Plantão de dúvidas

As escolas são obrigadas a aceitar estagiários?
Não, nem as públicas nem as particulares são obrigadas a isso. "Mas há uma parceria estabelecida entre instituições formadoras e escolas de Educação Básica", afirma Eliana Tabosa, coordenadora da central de estágios da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Caruaru (Fafica), cuja pesquisa de mestrado tratou do professor em início de carreira. Ou seja, na prática, as universidades costumam ter um grupo de escolas que aceitam seus estudantes como estagiários. Mas sempre é possível tentar vias alternativas. O primeiro passo é se informar na faculdade sobre quais são as escolas parceiras - vale até pedir uma orientação sobre as que têm um menor número de candidatos. É recomendável ligar antes para agendar uma visita. Se isso não funcionar, vale procurar o gestor da escola com uma carta de apresentação da faculdade, em papel timbrado, e com o formulário de formalização do estágio já preenchido para tentar conseguir o endosso. Apesar de não ser obrigatório, é importante levar uma proposta do que pretende realizar durante o período. A rede particular, de forma geral, solicita também um currículo.

O que o estagiário deve fazer se o docente que é seu tutor na escola falta muito e não consegue dar atenção a ele?
Se a escola aceitou participar de um programa de estágio com uma instituição de ensino superior, é esperado que ela dê atenção e suporte aos estudantes que recebe. Porém, em um caso como esse, a saída é procurar a equipe da faculdade responsável pelo estágio e relatar o que está ocorrendo. Uma solução é a realocação, com a continuidade do trabalho com outro professor. Um alerta: o estagiário não pode se desmotivar em situações como essa e nem achar que é natural faltar muito ao trabalho na escola.

Como um novato, que, em geral, só tem graduação, pode disputar uma vaga em pé de igualdade com quem é mais experiente e coleciona títulos?
Uma das fases dos concursos é a análise dos documentos dos candidatos para comprovar sua experiência no Magistério e sua trajetória de formação. É óbvio que, nesse quesito, quem tem mais prática e mais títulos leva vantagem. Mas o iniciante deve investir firme em outro diferencial. Bernardete Gatti, pesquisadora colaboradora da Fundação Carlos Chagas (FCC), dá a dica: "A nota nas provas tem um peso maior do que a documentação, e com frequência os candidatos vão muito mal nesses testes. Por isso, estudar bastante é o melhor a fazer".

Como redigir um currículo quando se tem pouca experiência?
Uma boa saída para compensar a falta de prática é dar ênfase aos pontos fortes da formação. A graduação em uma instituição de credibilidade e prestígio ajuda muito a se destacar nessa hora. De qualquer forma, conta o conjunto da obra. Assim, se o professor está cursando uma pós deve incluir essa informação, ainda que vá demorar a concluí-la. Caso tenha feito vários cursos de curta duração durante a universidade e participado de seminários importantes, vale incluí-los. Hoje em dia, leva vantagem quem tiver grande afinidade com a tecnologia, seja por meio de cursos, seja por interesse pessoal e iniciativa própria. Outra possibilidade é colocar experiências profissionais que envolvam o contato com crianças, mesmo que sejam só indiretamente ligadas à Educação. Entram aí atividades de contador de histórias, monitor em festas infantis, cuidador de crianças no exterior e até trabalhos voluntários em projetos de organizações não governamentais (ONGs). Tudo isso ajuda a chamar a atenção dos selecionadores.

Atuar como professor eventual, substituto ou auxiliar é uma opção interessante para ganhar um pouco de experiência?
Com certeza, essas vivências são um ótimo meio para começar na carreira. "Enquanto cursava a faculdade, trabalhei como auxiliar de classe, e essa foi uma experiência que avalio como muito positiva e válida: o convívio com um educador experiente me permitiu aprender bastante", conta Brenda Paes Moreira, professora da Escola de Aplicação da USP. Os ensinamentos adquiridos naquela fase inicial nunca foram esquecidos. "Até hoje percebo que muitas das minhas atitudes em sala de aula são resultado dos exemplos que recebi dos docentes com os quais trabalhei lá no começo."

Você sabia?

  • O governo está dedicado a selecionar empresas para participar do processo de inclusão digital das escolas públicas, fornecendo tablets, notebooks e lousas digitais para quase 1 milhão de salas de aula. Essa é mais uma prova de que o uso de ferramentas tecnológicas é uma realidade cada vez mais presente na Educação.
  • Enviar currículos pode ser uma boa medida para conseguir o primeiro emprego, assim como preencher cadastro nos sites das escolas, sempre que houver o link "Trabalhe conosco". Várias instituições particulares organizam um banco de dados com os portfólios que recebem e consultam esse acervo quando surge uma vaga.

O que aprendi

Driblar dificuldades
"Ingressei na carreira por meio de concurso público. Tinha apenas 20 anos e era recém-formada em Pedagogia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Fui trabalhar numa escola na zona rural de Caruaru, a 40 quilômetros do centro da cidade. Assumi uma turma de alfabetização, com 43 estudantes entre 7 e 13 anos. As dificuldades eram muitas: não havia coordenador pedagógico, as famílias, muitas vezes, transferiam toda a responsabilidade pelas crianças para os educadores e faltavam materiais didáticos. Só me restava tentar fazer o melhor dentro daquelas circunstâncias. Aceitei o desafio e segui em frente. Eu poderia simplesmente ter desistido, mas sempre fui de persistir nos meus objetivos."
Eliana Tabosa, coordenadora da central de estágios da Fafica.

Parceria com a coordenação
"Fui chamada por uma escola particular para lecionar para as séries finais do Ensino Fundamental quando estava no 2º ano da graduação em licenciatura em Matemática na Universidade Federal de Rondônia (Unir). Um dos primeiros problemas que enfrentei na sala de aula foi a demora excessiva apresentada por uma turma para terminar as avaliações que propunha. Ficava me perguntando: 'Será que a prova é muito grande para o tempo que temos? As questões são extensas? Ou não são adequadas ao nível das crianças?' Eu não conseguia chegar a um diagnóstico. O papel da coordenadora pedagógica foi essencial. Ela me ajudou a localizar as falhas que, no fundo, eram uma mistura de tudo o que tinha cogitado. Ter vivido essa experiência me tornou uma professora melhor. Aprendi a analisar criticamente minhas ações e a valorizar o trabalho do coordenador."
Andréia Brito, professora da rede pública estadual em Presidente Médici, a 408 quilômetros de Porto Velho, e ganhadora do prêmio Educador Nota 10, da Fundação Victor Civita (FVC).