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A avaliação e o fracasso escolar

Áreas de estudo: Avaliação e práticas avaliativas

POR:
NOVA ESCOLA
Charles Hadji,

Charles Hadji,
doutor em Letras e Ciências Humanas, é professor emérito do Laboratório de Ciências da Educação da Universidade Pierre Mendès-France (UPMF), na França

O insucesso na escola é sempre vivenciado com dor. Não só por aqueles a quem atinge mas também pela sociedade como um todo, já que é percebido como um fracasso do sistema, o que é lamentável. No entanto, o insucesso poderia ter uma função oculta - por exemplo, contribuir para a reprodução de um tipo de estratificação social.

Ademais, o fracasso nada mais é que o oposto do êxito. Mas o que vem a ser êxito? Pode-se vislumbrar pelo menos três tipos: o meramente escolar (concluir, na instituição, o percurso valorizado pela sociedade e obter o diploma), o social (alcançar um cargo, uma posição social lucrativa e valorizada) e, por fim, o pessoal (atingir a autorrealização que proporciona qualidade de vida e traz felicidade, como ser um bom profissional, útil aos seus contemporâneos). Esses três planos estão sempre interligados. Entretanto, faremos um esforço para abordar aqui a questão do fracasso sob o ângulo meramente escolar, tendo em vista que é um mal a ser combatido.

Assim sendo, é possível se considerar a avaliação como um instrumento útil e eficaz nessa batalha? Responderemos que sim, mas com uma grande condição: a de que a avaliação seja analisada sob a ótica da pedagogia do sucesso.

Ficamos tentados a dizer que ela se inscreve em uma ótica de democratização do ensino. Mas isso poderia levar-nos à impressão de estar misturando pedagogia e política. Seria possível então responder que discorrer sobre a democratização nos levaria a falar do sucesso para todos! Almejar a democratização da Educação é desejar que todos os alunos (ou ao menos a maioria) possam concluir com êxito o percurso tido pela instituição como o percurso do sucesso.

Por certo, uma grande ambiguidade cerca essa noção. Há diferentes caminhos possíveis como regra de igual valor. Mas alguns deles, ainda que a instituição não admita, são mais valorizados em termos de oportunidades profissionais e sociais que outros!

Um exemplo é o que ocorre na França, onde o caminho percorrido - por meio das disciplinas científicas e das escolas de Ensino Médio mais prestigiadas das grandes cidades - conduz os alunos às classes preparatórias para as grandes escolas e, posteriormente, às famosas Polytechnique e Ecole Normale Supérieure. A preocupação com a democratização ou com a oportunidade de sucesso para todos fará com que, em primeiro lugar, determinados estudantes não sejam afastados do caminho que a sociedade considera como sendo de excelência e que constitui o caminho de ouro rumo ao sucesso social. Afinal, por esse caminho, a seleção se dá pela eliminação. O combate a ser travado é claro: é necessário lutar contra uma seleção muito precoce, massificante e discriminatória, já que atinge aqueles que, além de tudo, são mais fracos e mais pobres também.

Naturalmente, nem todas as crianças de uma geração vão ingressar em escolas renomadas. A maioria vai se contentar com um percurso de sucesso (como conseguir um diploma do Ensino Médio) e nada mais. No entanto, sem ser capaz de fazer milagres, a avaliação tem um primeiro mecanismo de ação: recusa-se a ser reduzida ao papel de ferramenta destinada à seleção das elites. Na prática, isso pode se traduzir na negação daquilo que André Antibi (2003) chamou de constante macabra: independentemente da turma e do nível, os professores se sentem obrigados a dar um grande número de notas baixas, como se a credibilidade deles dependesse disso. Como se a curva de Gauss, ou curva normal, exprimisse uma lei natural que rege todos os fenômenos submetidos à avaliação. Como se fosse necessário identificar candidatos naturais à eliminação.

Sob tais condições, o fracasso é um artefato real, produzido pelo exercício da avaliação em si, que faz uma classificação predeterminada e nada mais é que a antecâmara da eliminação. O que podemos pensar de um médico que sempre se contenta em ver 25% de seus pacientes morrerem? Um educador tampouco é técnico de um time de futebol. Ele não deve simplesmente convocar os 11 melhores, mas obter 100% de aprovação daqueles que lhe são confiados. É exatamente esse o princípio básico da pedagogia voltada ao bom desempenho: sob as condições apropriadas, quase todos os alunos conseguem dominar os conteúdos dados. Condições essas que dizem respeito à organização pedagógica em geral e também à avaliação (Huberman, 1988).

Antibi propôs um método de avaliação por contrato de confiança (EPCC, sigla em francês), facilmente empregado:

a) Alguns dias antes da avaliação, entrega-se aos alunos uma lista de assuntos abordados em sala de aula, com exercícios já feitos e corrigidos, abrangendo, assim, todo o conteúdo programático;

b) Dois dias antes do exame, dedica-se uma sessão de uma hora à formulação de perguntas e respostas relativas ao conteúdo para esclarecer pontos que possam não ter sido bem compreendidos;

c) No dia do teste, propõe-se uma prova de controle composta de 75% do conteúdo da lista de revisão;

d) Após cada prova, proporciona-se um momento de autoavaliação.

Com o EPCC, os conteúdos não assustam. Os alunos vivenciam a experiência de que o trabalho de aprendizagem efetuado em classe é recompensador. Compreendem o que se esperava deles na prova.

Ademais, a avaliação possibilita identificar aquilo que o estudante não compreendeu. O método estimula o estudo, que é o principal fator para o sucesso dentro de um clima de confiança. Um aluno que leva o estudo realmente a sério garante a obtenção da média e escapa do corte da constante macabra.

Qual o risco de tentar? Perceber que há um número significativamente elevado de alunos que se esforçam e passam! Afinal, o essencial não é que todos saibam fazer aquilo que se quer que saibam fazer e que o tenham aprendido em sala de aula? A rejeição da constante macabra será testemunha (e também o meio) do comprometimento da avaliação dentro de um processo de luta contra o insucesso.

Da mesma forma que não deveria ter medo de dar muitas notas boas, um educador também não deveria aceitar a introdução do jogo de competição generalizada. A ideologia dominante entende a excelência como um produto da competição. A regra de ouro é: que vença o melhor. Mas quantos vencedores haverá para tantos e inúmeros perdedores?

Seria então vae victis ("ai dos vencidos", em latim) a ordem de uma sociedade moderna? Aprende-se lutando contra os outros ou contra si mesmo? Para combater o insucesso escolar, parece-nos necessário também escapar da obsessão pela performance. O aluno não pode ser comparado a um atleta que almeja conquistar uma medalha nos Jogos Olímpicos. O objetivo não é passar à frente dos outros, mas adquirir as habilidades que a sociedade julga serem fundamentais. Aprender, não aprender a competir com os outros. Sabe-se atualmente que se aprende melhor em um clima de cooperação do que em um clima de competição (Monteil, 1989). É por isso que o educador deve desconfiar e se afastar das classificações.

Não entregar a lição de casa começando pelo melhor e terminar pelo menos pior. Não tornar pública as classificações que institucionalizem a comparação entre alunos, engessando os resultados. A questão é saber em que cada um se encontra em relação a um objetivo: Paulo sabe ler e resumir um texto? Não se trata de saber se ele o faz melhor que Pedro. A classificação ocorrerá nas competições, quando se faz uma seleção para um número reduzido de lugares. Ela é irrelevante durante o processo de aprendizagem, em que o que conta é, tão-somente, o progresso de cada um em relação a si mesmo.

Podemos finalmente compreender por que é necessário nos livrarmos da obsessão avaliativa. Seguramente, a avaliação é uma necessidade. É o processo que permite constatar se a realidade está de acordo com certas expectativas legítimas que sobre ela recaem (Hadji, 2001). Entretanto, ela deve ser realizada com foco na atividade a que se destina: avaliar os resultados. Uma avaliação escolar que se torna obsessiva pode tornar o aprendizado muito mais difícil. É o que ocorre quando as provas são realizadas em um ambiente de estresse, que elas mesmas ajudaram a criar e que mantêm.

A questão da competição na escola torna-se logo devastadora não só para os alunos mas também para os pais e os professores. Em países onde predomina a cultura da performance e da classificação, a escola acaba adoecendo (George, 2002). Além disso, a avaliação contribui para transformar a escola em um local de sofrimento: os estudantes são humilhados, com comentários negativos e notas vexatórias. Em 2010, uma pesquisa conduzida na França com 760 estudantes, demonstrou que 73% não gosta de ir à escola ou à faculdade, sendo as notas e a avaliação a primeira causa de preocupação!

É necessário, portanto, livrar-se do mito da nota real (Hadji, 1989, 2000) e da tentação de distribuir notas a torto e a direito. É na obsessão avaliativa que reside o perigo. A nota é uma droga cujo abuso é condenável. Não se avalia por meio dela uma criança que está aprendendo a falar: isso a levaria à gagueira! Nem uma criança que está aprendendo a andar de bicicleta: faz-se companhia a ela até que consiga fazer isso. E, quando chega o momento da avaliação, parece-nos possível interromper a espiral do estresse ruim, desde que deixemos de focar as notas. Há outras maneiras de comunicar a um aluno o resultado de uma tarefa, como um texto escrito por ele. A melhor é dizer-lhe claramente quais os pontos exatos da realidade observada no momento da avaliação se afastam, ou não, daquilo que dele se espera.

A nota se presta muito facilmente a uma utilização devastadora: deixar a marca da vergonha naqueles que, a partir de então, passarão a acreditar que estão destinados ao fracasso - a não ser que acabem cometendo suicídio, como fazem, por exemplo, jovens indianos após irem mal nas provas. A avaliação luta contra o insucesso escolar na medida em que se distancia dessa obsessão fatal pelas notas.

Assim, é por meio da recusa de se incluir na tríade seleção-competição-atribuição de uma nota, que a avaliação trará uma imensa contribuição à luta contra o insucesso escolar. E isso é possível com a adoção de uma avaliação por contrato de confiança. Por meio do acompanhamento individualizado do percurso do aprendizado, visando informar cada aluno sobre a sua situação em relação às competências a serem adquiridas (Scallon, 2007).

Sem dúvida, já é tempo de compreender que o essencial não é permanecer no mundo das sombras, fazendo de conta que é possível mensurar a aprendizagem, mas dar a cada aluno informações precisas sobre a realidade e a eficiência de seus conhecimentos e suas habilidades, informações necessárias para melhor autorregular o seu aprendizado (Hadji, 2011).

Bibliografia

  • Antibi, A. (2003). La constante macabre. Paris: Nathan.
  • George, G. (2002). Ces enfants malades du stress. Paris: Éd. Anne Carrière.
  • Hadji, C. (1989/2000). L'évaluation, règles du jeu. Paris: ESF Éditeur.
  • Hadji, C. (2001). Avaliação desmistificada. Porto Alegre: Artmed.
  • Hadji, C. (2011). Ajudar os alunos a fazer a autorregulação da sua aprendizagem: por quê? Como? Pinhais: Editora Melo.
  • Huberman, M. (Dir.) (1988). Assurer la réussite des apprentissages scolaires. Neuchâtel: Delachaux et Niestlé.
  • Monteil, J. M. (1989). Eduquer et former. Perspectives psycho-sociales. Grenoble: PUG.
  • Scallon, G. (2007). L'évaluation des apprentissages dans une approche par compétences. Bruxelles: De Boeck.
Foto: Gustavo Lourenção. Ilustração: Sandro Grassetti