A melhor aula para cada circunstância

Quem faz a diferença na Educação é o professor preparado para criar situações de ensino de acordo com os recursos disponíveis

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Luis Carlos de Menezes
Luis Carlos de Menezes. Foto: Marina Piedade
Luis Carlos de Menezes é físico e educador da Universidade de São Paulo (USP)

O bom trabalho educativo é feito por professores que sabem atuar nas circunstâncias que encontram, mesmo sem contar com recursos necessários a qualquer escola e nem sempre disponíveis. Lembrando que educar é também uma arte do possível e, portanto, deve ser apreciada em seu contexto, e não julgada de forma abstrata, trarei exemplos de quem tem sabido enfrentar os desafios do ensino brasileiro.

Faz toda a diferença na Educação Infantil, por exemplo, se os pequenos trazem um repertório cultural e se o espaço existente é adequado. Mesmo quando nada disso ocorre, há quem saiba ambientá-los para a aprendizagem coletiva. Se um professor do 6º ao 9º ano tem cinco turmas de 25 alunos, com duas aulas de duas horas por semana para cada classe em uma só escola, pode orientar atividades práticas, buscas na internet, visitas a centros culturais e desenvolvimento de projetos. Mas há também quem consiga bons resultados lecionando para 600, divididos entre escolas privadas e públicas, com duas aulas semanais de 50 minutos por turma e sem dispor de internet ou poder organizar excursões. Por isso, as atuações exemplares que descreverei são de profissionais que trabalham em situações não comparáveis.

Uma professora, do Sul do país, ensina História no 8º e no 9º anos da rede pública e Geografia no 7º e no 8º anos de uma escola privada. Na pública, os estudantes entrevistam avós sobre a migração de seus antepassados, comparando com noticiários sobre a atual vinda de profissionais da Europa por causa da crise econômica naquele continente. Assim, independentemente dos recursos disponíveis em classe, exemplifica ciclos migratórios que pautam toda vida social. Na escola particular, insatisfeita com o sistema de ensino adotado, sugere buscas nos tablets, em classe, para complementar a descrição dos costumes de cada região trazida pelas apostilas e, como lição de casa, recomenda ampliarem a pesquisa.

Um professor de Arte de escola confessional do Sudeste conduz com outros docentes órbitas urbanas, em que os estudantes fazem observações sociais e culturais pelo centro da cidade e depois as discutem nas aulas de várias disciplinas. Em atividades diversificadas, no 8º e no 9º anos do Ensino Fundamental, ele busca envolver os menos interessados sem desmotivar os que já têm vivência artística regular. Sua página no Facebook, em que as produções dos alunos são comentadas pelos colegas, mostra como esse seu objetivo está sendo alcançado.

Mesmo lecionando para turmas de 5º e 6º anos, uma professora de Ciências de escolas públicas nordestinas tem estudantes analfabetos. Tanto quanto ensinar a disciplina, ela busca promover o letramento. Para isso, coleciona com a meninada conchas e caramujos achados na praia, folhas e insetos encontrados no mato e porcas e parafusos recolhidos em oficinas, fazendo um exercício de escrita na rotulagem das coleções, que são expostas na escola. O trabalho prossegue com a classificação e a descrição dos itens.

Completo com um ex-docente de Educação Física que, readaptado, atua na Educação Infantil. Sua Educação pelo movimento começa com atividades corporais livres, prossegue com jogos de tabuleiro e, com base na confiança desenvolvida entre as crianças, trabalha coletivamente aspectos cognitivos.

A inspiração desses educadores pode lembrar os grandes pensadores Célestin Freinet (1896-1966), John Dewey (1859-1952), Lev Vygotsky (1896-1934), Jean Piaget (1896-1980) ou Paulo Freire (1921-1997), mas não é o que conta. Estão lado a lado nessa pequena galeria por não lamentarem a falta da escola ideal, que deveriam ter, ou dos alunos ideais, que ninguém tem, e por encararem o desafio que realmente vivem.

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