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Sinal de alerta

O ritmo alucinado das grandes cidades está fazendo mal ao nosso planeta. Nossos hábitos cotidianos, como a produção crescente de equipamentos tecnológicos e o acúmulo de resíduos, estão exigindo da Terra mais do que ela pode suportar. A saída é uma só: conscientização

POR:
André Albert

O consumo está ligado ao mundo em que vivemos, em maior ou menor grau em diferentes países. Apesar de serem unânimes em afirmar que o hábito é responsável pelo esgotamento do planeta, os especialistas admitem que não é possível acabar com ele. A saída é comprar com critério e moderação. Quando se fala em consumo exagerado, no entanto, os Estados Unidos são o país que primeiro vem à nossa mente. Para a maior parte 310 milhões de norte-americanos, o consumo é a ferramenta ideal para atingir o ideal de vida confortável. Graças a incentivos públicos, a partir de 1945, milhões de habitantes do país deixaram o agito das grandes cidades e migraram para casas maiores nos tranquilos subúrbios. Não que as famílias hoje sejam maiores. Dados de 2009 do US Census Bureau, responsável pelo censo norte-americano, indica que cada lar é ocupado por, em média, 2,57 pessoas. Em 1950, eram 3,37.

As pessoas fogem do estresse, mas seus empregos estão nas metrópoles. E o carro é indispensável. As vendas de veículos caíram de 2001 para cá, mas a frota dos EUA continua sendo maior que o número de motoristas habilitados. Gastar tempo na cozinha é inimaginável diante da praticidade do fast-food e dos alimentos congelados. Na virada do século, os norte-americanos gastaram 110 bilhões de dólares em restaurantes de refeições rápidas - ou 390 dólares por pessoa. E o conforto também está nas facilidades tecnológicas. Pesquisa da Pew Research Center de 2006 mostra que 71% da população acredita que ter um aparelho de ar-condicionado em casa é fundamental.

Qual é o custo desse estilo de vida para o nosso planeta? Embora sejam 5% da população mundial, os norte-americanos são responsáveis por 32% do consumo. Em média, cada cidadão dos EUA produz 760 quilos de lixo por ano - quase o dobro que um do Japão. O relatório State of the World 2010, da Worldwatch Foundation, calculou quantas pessoas o mundo conseguiria manter de forma adequada se elas tivessem os hábitos dos norte-americanos. Resultado: 1,4 bilhão. Porém já somos 6,6 bilhões.

Rever conceitos O consumo consciente prevê repensar os hábitos. Isso inclui optar por móveis de madeira certificada, recusar produtos que agridam o meio ambiente, reduzir a produção de resíduos, reutilizar materiais e, por fim, reciclar.

O dado mais alarmante é a pegada ecológica, conceito criado em 1992 por dois pesquisadores: o canadense William Rees e o suíço Mathis Wackernagel. O cálculo da pegada considera quantos hectares produtivos seriam necessários para recompor os recursos gastos pelo homem. O índice ideal, de acordo com eles, é 1,8 hectare, mas o mundo já consome 2,2. Os norte-americanos precisariam de 9,4 hectares para manter seu ritmo: mais de cinco planetas.

"O consumo é um sintoma de um modo de vida, assim como a deterioração ambiental", diz Eda Terezinha Tassara, professora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP, leia o artigo mais abaixo). Para ela, a publicidade usa imagens e valores para alimentar a vontade de consumir, pois cria novas necessidades e reinventa os objetos de desejo. E a máquina é poderosa: levantamento da agência McCann-Erickson estima que, em 2006, foram gastos 630 bilhões de dólares em publicidade no mundo. Esse valor representa mais da metade do PIB brasileiro no mesmo ano.

É claro que nem todos os norte-americanos vivem assim. Um exemplo no outro extremo são as pequenas comunidades conservadoras da igreja cristã Amish. Isoladas em áreas rurais, elas rejeitam o contato com o exterior a ponto de deixar de usar a energia elétrica. Os trajes, os equipamentos agrícolas e muitos hábitos do grupo pouco se alteraram do século 18 para cá. Em algumas aldeias, há geradores a querosene e ônibus que levam os amish às cidades próximas em caso de emergência. Mas o uso de combustíveis poluentes é mínimo se comparado ao do restante do país.

O valor de mudar hábitos

Exemplos do cotidiano não faltam para abordar em sala de aula o impacto do consumo no planeta. Estimular o uso racional de recursos é mais útil que promover campanhas de reciclagem. Veja abaixo os principais erros no ensino do conteúdo e como evitá-los.

Errado Demonizar o consumo de qualquer natureza.
Certo Incentive a reflexão sobre os exageros no consumo, mas mostre que é praticamente impossível deixar de comprar.

Errado Abordar apenas questões próximas da realidade do aluno.
Certo Mostre as relações entre fatos do dia a dia e aspectos macro do meio ambiente. Assim, os alunos vão perceber que o desmatamento na Amazônia tem a ver também com quem mora no sul do país.

Errado Tratar a coleta de recicláveis como uma solução definitiva.
Certo Ela é benéfica, mas não a melhor saída. Estimule as discussões sobre o consumo para que haja efeito a longo prazo.

Errado Defender a transformação de itens descartados em novos.
Certo Explique à turma que esse processo muitas vezes consome eletricidade, água e outros recursos. Por isso, deve-se enfatizar a redução do consumo e a reutilização de produtos.

Errado Restringir o trabalho somente a atividades de sala de aula.
Certo Estudos do meio num aterro podem ser úteis para dar aos estudantes a dimensão do impacto do nosso consumo no solo.

Consultoria Gilberto Pamplona, professor de Geografia do Colégio Santa Cruz, em São Paulo, e Ademir Romeiro Ribeiro, docente do Instituto de Economia da Universidade de São Paulo (USP)

Antes de reciclar, é preciso repensar o que e como consumir

Lixo tecnológico Em 2005, o Brasil descartou 368 mil toneladas de detritos eletrônicos - que incluem computadores, impressoras, telefones celulares, geladeiras e TVs. A maior parte desses itens foi parar em lixões comuns, contaminando o solo e os lençóis freáticos.

Algumas experiências hoje já mostram que há um meio-termo. Gabriel Morales, 23 anos, não quis parar no tempo para frear seu impacto sobre o meio ambiente. Ele vive há um ano na Morada da Floresta, uma ecovila fundada em 2000 em São Paulo. O local é um centro de distribuição da rede Sementes da Paz, que produz alimentos orgânicos e promove cursos ligados à sustentabilidade. Ali, o computador é moderno, mas aproveita-se a luz natural. A água da chuva é captada e usada na rega das plantas, na lavagem do quintal e nos vasos sanitários. No telhado, placas de PVC pintadas de preto absorvem o calor dos raios solares e esquentam a água para o banho.

Adaptado à nova rotina, Morales adverte: "É preciso pensar a reciclagem como a última opção dos cinco Rs". Ele se refere ao conceito de Educação ambiental que agrupa cinco atitudes: reciclar, repensar os hábitos, reduzir a produção de lixo, reutilizar materiais e recusar produtos que agridam o meio ambiente. Nesse ponto, entram atitudes como adquirir apenas móveis de madeira certificada ou recusar carne de rebanhos criados em áreas de floresta desmatada.

No Brasil, os municípios são responsáveis por recolher o lixo doméstico e pela limpeza urbana. No entanto, menos de 10% das cidades brasileiras têm coleta de lixo reciclável. Matérias-primas como o vidro e o plástico, que poderiam ser reaproveitadas, são despejadas em lixões e aterros, onde demoram mais de um século para se decompor. Os catadores que recolhem materiais valorizados no mercado se expõem a riscos de saúde.

"Quem comanda a cadeia de reciclagem é o mercado. Então, o vidro e os sacos plásticos ficam nos lixões porque não são lucrativos como o alumínio, o papelão e as garrafas PET", diz Wanda Günther, professora da Faculdade de Saúde Pública da USP e coordenadora do Programa USP Recicla. Ela destaca o exemplo de duas cidades de médio porte com 100% de coleta seletiva: Santo André, na região metropolitana de São Paulo, e Londrina, a 378 quilômetros de Curitiba. "Londrina reciclou 23% do lixo urbano coletado em 2007, um índice alto para o Brasil. Isso porque os catadores, organizados em cooperativas, passavam na casa das pessoas para instruir sobre a segregação do lixo", diz a professora. Santo André não fez o mesmo trabalho e teve uma alta taxa de rejeição de material na triagem, pois a população não sabia separar.

Outro risco crescente ao meio ambiente é o chamado lixo eletrônico. Segundo o Banco Mundial, entraram no mercado global quase 300 milhões de computadores e 1,2 bilhão de aparelhos celulares novos em 2008 (veja o infográfico abaixo). As pessoas têm cada vez mais acesso a bens eletroeletrônicos que logo ficam ultrapassados. Os programas de computador exigem cada vez mais capacidade e os antigos não dão conta.

Um relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) deu o alerta: o mundo gerou 40 milhões de toneladas de resíduos desse tipo em 2009. Estima-se que em 2005 o Brasil tenha descartado 368 mil toneladas de lixo eletrônico, contando apenas computadores, impressoras, telefones celulares, TVs e geladeiras. A maior parte desses itens foi parar em lixões comuns. Com isso, é alto o risco de contaminação do solo e dos lençóis freáticos por metais pesados, como o chumbo.

O primeiro passo para o Brasil lidar melhor com esse tipo de resíduo está por ser dado. Um projeto de Política Nacional de Resíduos Sólidos foi aprovado na Câmara em março e aguarda uma avaliação do Senado. A nova lei prevê a responsabilidade compartilhada sobre o lixo eletrônico e outros resíduos perigosos, como lâmpadas e pneus. Isto é, o consumidor leva produtos descartados a um local adequado. A partir daí, o fabricante ou o importador são responsáveis pela coleta e pelo tratamento do material.

Agressões à Terra

Eda Terezinha Tassara
Professora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP)

Uma garrafa de refrigerante vazia é atirada no córrego que atravessa o casario precariamente construído. Levada pela água, é arrastada até atingir um bueiro e por lá fica. Também se enrosca por ali um toco de madeira - provavelmente resto de mobília -, acompanhado por um saco plástico engordurado que já serviu de embalagem para algum alimento cheio de conservantes. É possível que essas guloseimas tenham sido consumidas por um garoto no caminho da escola. Começa a chover e a água que deveria escorrer pelo bueiro permanece retida pela garrafa, pelo toco de madeira, pela embalagem amassada e por outros tantos dejetos acumulados pelo bairro. Como consequência, a região fica inundada. A lama cobre automóveis sem seguro e inutiliza móveis novos em diversas residências. Um morador se arrisca para salvar a TV de tela plana. E o menino, que poderia aprender algumas noções de preservação do meio ambiente nas aulas, não consegue chegar à escola, também inundada.

Quadros como esse refletem uma realidade que muitos se acostumaram a aceitar com descaso. Eles denotam problemas que se multiplicam sem que se esboce qualquer tentativa de solução inteligente e eficaz. Se o quadro acima continuasse a ser pintado, logo iríamos descobrir que sua moldura ultrapassa as fronteiras do bairro e até mesmo da cidade, assumindo uma dimensão planetária que coloca em xeque a única habitação possível da humanidade.

No entanto, consumir refrigerantes e lanches e comprar móveis novos e outros bens de consumo passou a ser um direito de todos, uma necessidade inerente aos indivíduos que compõem nossa sociedade. Todos se sentem inclinados a afirmar que consumir é viver. E isso parece verdadeiro tanto para os mais privilegiados e os que ocupam cargos de poder - a quem cabe a maior parcela de responsabilidade pela busca de respostas - como para os que não têm posses. Esse clamor se dá em todo o mundo, com uma pressão surda, que, aparentemente, só uma minoria de pessoas de bom senso parece identificar com clareza.

Assim, configura-se um confronto. Por um lado, o direito de uma população que não está disposta a renunciar aos exageros do paraíso prometido pela sociedade de consumo. Por outro, o dever, às vezes ignorado, de otimizar metas do progresso, impondo limites que não impliquem em entupir bueiros, matar a fome de garotos com lanches insalubres, menosprezar o valor da Educação e, principalmente, que mantenha o olhar firme e vigilante sobre o nosso (único) planeta: a Terra.

Venenoso

O celular é o ícone da modernidade. Nele, quase tudo pode ser visto, acessado, jogado. Dá até para telefonar! No Brasil, quase todos têm um... que vai ficar obsoleto e - descartado de maneira imprópria - pode se transformar em um vilão poluidor

Na reciclagem, um tesouro

De acordo com o relatório From Waste to Resources, do Programa para o Meio Ambiente das Nações Unidas (Unep), 1 tonelada de celulares sem as baterias rende 3,5 quilos de prata, 340 gramas de ouro,140 gramas de paládio e 130 quilos de cobre.
No 1,2 bilhão de celulares vendidos no mundo em 2007 foram usadas

  • 300 toneladas de prata;
  • 29 toneladas de ouro;
  • 11 toneladas de paládio;
  • 11.000 toneladas de cobre.

Nas baterias de lítio (20 gramas), foram usadas 4.500 toneladas de cobalto.

O Brasil se liga no celular

Número de linhas por 100 habitantes:

  • 2000: 23,1 milhões
  • 2009: 90,55 milhões
  • Fevereiro/2010: 91 milhões

O provável descarte

Fontes Anatel, Banco Mundial, Nokia, Sony Ericsson, Worldwatch Institute, Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, Convenção de Basileia - MPPI (Iniciativa de Parceria para Telefones Móveis).

Quer saber mais?

Contatos

  • Ecovila Morada da Floresta, moradadafloresta@gmail.com
  • Eda Terezinha Tassara, lapsi@usp.br
  • Gilberto Pamplona, gibapamplona@gmail.com
  • USP Recicla, recicla@edu.usp.br, tel. (11) 3091-4428

Bibliografia

  • Desafios do Consumo, Ricardo Mendes Antas Jr., Ladislau Dowbor e Hélio Silva (orgs.), 342 págs., Ed. Vozes, tel. (24) 2233-9000, 62 reais
  • Consumindo, Benjamin R. Barber, 476 págs., Ed. Record, tel. (21) 2472-2000, 57,90 reais

Internet

Infografia: Alessandro Meiguins. Fotos: Dercílio, Inside-Photo/Erick Saillet/Getty Images, Saulo Mazzoni, Mario Leite, Lucas Landau. Ilustrações: Rogério Fernandes