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Saber ler para estudar e dominar procedimentos como sublinhar e resumir é o caminho para a autoria de textos informativos

POR:
Beatriz Santomauro

Os textos informativos têm a função de abordar algum fato, transmitir dados, atualizar conceitos e ensinar sobre um tema. Isso é o que ocorre em reportagens de revistas, verbetes de enciclopédias, notícias de jornais, artigos de divulgação científica e livros didáticos. A maioria dos leitores, ao ter um texto informativo em mãos, quer saber o que está sendo dito e aprender algo com a leitura. Ok, é sempre gostoso ler um texto com um estilo inventivo e bem escrito. Mas, no caso dos gêneros informativos, não resta dúvida: a ênfase é sobre o conteúdo que se escreve.

Ter isso em mente ajuda a lembrar as habilidades de leitura a ser trabalhadas com esse tipo de gênero. Usando textos informativos, você deve levar a turma a buscar dados específicos, tomar notas, comparar fontes de informação e interpretar a linguagem da diagramação. Em poucas palavras, é preciso saber ler para estudar. Além de fundamentais para a vida cotidiana, essas competências são essenciais para que os alunos se tornem, de fato, autores de textos informativos (e não meros copiadores de trechos de referências, como costuma ocorrer em muitas pesquisas).

Há diversos procedimentos de leitura para organizar informações e facilitar o entendimento: sublinhar os trechos essenciais para apresentar as ideias, resumir o texto, mostrando o que é mais importante, e fazer registros em tópicos (leia a sequência didática). Quando o estudante cumpre essas etapas de estudo, as informações fundamentais são destacadas, o que facilita a retomada para o momento da escrita.

 

Esmiuçar cada texto para retirar os dados que mais interessam

Decidir quais estratégias usar - se é mais adequado resumir do que fazer esquemas, por exemplo - depende do tipo de texto e da informação que se quer obter com base na leitura. A aluna Sara Laiane Oliveira Souza, que cursava o 5o ano da EMEF Victor Civita, em São Paulo, foi orientada pela professora Priscila Barbosa Arantes a sublinhar e tomar notas em tópicos de diversos textos-fonte de jornais e revistas com um objetivo claro: procurar informações que pudessem ser úteis para o momento de escrever para o jornal mural da escola sobre os 40 anos da chegada do homem à Lua, efeméride comemorada em julho de 2009 (leia o quadro abaixo).

Antes de começar a escrever, é preciso ler

Confira o processo de produção de um texto sobre a chegada do homem à Lua

Atividade 1 proposta à aluna
Aqui estão três textos sobre a Lua. Com canetas coloridas, destaque nos textos 1 e 2 as informações sobre o satélite natural, a Terra e as crateras lunares. No texto 3, encontre falas signifi cativas dos astronautas.

Atividade 2
Transcreva informações que você considere importantes para elaborar seu texto sobre os 40 anos da chegada do homem à Lua. O que já foi sublinhado na atividade anterior não precisa ser novamente destacado.

Atividade 3
Você foi convidado a escrever um artigo para o jornal mural da escola sobre os 40 anos da chegada do homem à Lua, comemorados em 20 de julho de 2009. Para elaborar esse artigo, use informações dos textos, organizando-as para despertar o interesse do leitor.

Comentário de Claudio Bazzoni
"Por ser o primeiro texto informativo escrito pela aluna, ocorrem alguns problemas bastante previsíveis. O principal deles é a falta de autoria, com cópia dos trechos grifados na leitura para estudo. Por isso, é fundamental que o professor realize revisões e proponha novas produções para permitir que seja criada a familiaridade com o gênero."


Com a ajuda da professora, Sara entendeu rapidamente a utilidade dos processos intermediários à escrita propriamente dita. "A maneira de registrar o que mais se destaca permitiu que ela tivesse em mãos a síntese de sua leitura e suas notas de apoio, podendo recuperá-las mais rapidamente do que se ela tivesse de reler tudo", diz Claudio Bazzoni, assessor de Língua Portuguesa da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo e selecionador do Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10.

Grifar o que importa ou fazer um apanhado dos conceitos mais relevantes não é coisa simples. "No caso do sublinhado, por exemplo, muitas vezes os alunos escolhem o parágrafo inteiro ou apenas palavras isoladas, ou seja, fazem a atividade sem definir um critério claro do que é o principal", explica Bazzoni. Esse foi um dos conflitos de Sara. Como avaliar o que é mais importante? A quantidade de rochas trazidas pelos astronautas à Terra? A distância do nosso planeta até a Lua? Teria sido mais adequado falar sobre as missões enviadas pelos Estados Unidos? Para orientar o aluno nesse tipo de escolha, você tem de ajudar a delimitar o que vai ser sublinhado e não somente dizer "grife o mais importante". Uma opção é mostrar suas próprias estratégias, fornecendo a referência de um leitor experiente. Essas dicas valem sempre que alguém estiver vacilante sobre a escolha de informações.

Já no momento de resumir um texto, a turma terá de se preocupar em condensar fielmente as ideias lidas. É possível iniciar pelo reconhecimento dos blocos significativos - os conceitos que unem cada grupo de frases, períodos e parágrafos. Em textos curtos, os alunos podem numerar os parágrafos, delimitar os blocos significativos e, só depois disso, escrever o resumo, de modo a ressaltar a correlação entre as partes.

 

Diagramação e hierarquia, uma dupla inseparável

Nos textos informativos, a intervenção do professor é essencial para orientar a turma a notar qual o tratamento da informação dada pelos veículos de comunicação. Em jornais, revistas e sites, o texto quase nunca aparece em sua forma "pura". Tome as páginas desta reportagem como exemplo: além do chamado texto principal, há título, subtítulos e chamadas no meio do texto. Esses e outros elementos de diagramação, como fotos e ilustrações, não têm como objetivo deixar a reportagem mais bonita: eles ambicionam guiar a leitura, enfatizando determinados pontos de vista e opiniões. Espera-se, por exemplo, que o título explicite o assunto principal, o subtítulo o complemente e os primeiros parágrafos funcionem como um resumo dos dados mais relevantes. O mesmo vale para as fotografias: se são grandes e estão localizadas na parte superior da página, tendem a ser mais importantes. Uma boa maneira de levar a turma a ref letir sobre essa relação entre diagramação e hierarquia é estimular o debate: o que dizem título, subtítulos, fotos e legendas de determinada reportagem? Há outro elemento na diagramação, como um quadro com alguns itens ou um trecho colocado em destaque? Quais palavras dão pistas das opiniões do autor?

 

Leituras feitas, a turma vai para a sistematização e a produção

Depois da leitura e da discussão sobre o conteúdo, é hora de sistematizar as características de cada um dos diferentes gêneros informativos. Quais os termos recorrentes? Os estudantes percebem que esses textos, normalmente escritos em terceira pessoa, não costumam trazer uma opinião pessoal explícita? Veem que as informações tendem a ser rigorosas, com números retirados de fontes como estudos e pesquisas de universidades e entidades internacionais?

Unindo os dados sobre o formato do gênero e o conteúdo apresentado, é hora de planejar o que vai ser escrito, prestando atenção para não somente copiar, transcrever trechos longos na íntegra ou levantar um só aspecto da questão. O ideal é que o aluno consiga criar outra produção, se descolando, de fato, dos textos que serviram de base, construindo sua própria hierarquia dos dados com o que selecionou das leituras. Ele deve ter claro para quê, para quem e o que escrever, informações essenciais que o professor precisa fornecer logo no início do trabalho. Com uma bagagem razoável sobre o tema, espera-se que a garotada tenha condições de cruzar dados, relacioná-los com os conhecimentos que já possui, refletir sobre o que foi proposto e, então, reorganizar as informações selecionadas para serem arquitetadas em uma nova estrutura.

Essa postura não significa jogar para o alto todo o estudo anterior. A turma pode continuar consultando os textos que já leu, quando necessário, para confirmar uma grafia, ver como uma definição é usada, qual o verbo empregado para indicar uma ação presente ou um acontecimento passado etc., mas evitando copiá-los, é claro. Quando o aluno lida com mais de uma fonte, é possível que ele se depare com informações conflitantes. O que fazer com elas? No caso dos textos utilizados por Sara, isso ocorreu com a distância da Terra à Lua. Em um, aparece 380 mil quilômetros. Em outro, 384,4 mil. Nessas ocasiões, o melhor a fazer é buscar mais informações em outras fontes confiáveis para confirmar uma das versões ou sugerir outra alternativa mais confiável. Entretanto, se o aluno resolver escolher um dos dados ou mesmo usar os dois, deve saber que precisa sempre citar as fontes em seu texto, indicando de onde os dados foram retirados. "Com a ajuda do professor, a turma acaba percebendo as limitações, as imprecisões e até mesmo a presença de furos de notícias e reportagens", explica Bazzoni.

Como ocorre com os demais gêneros, os informativos podem (e devem) ser retomados em diferentes momentos da escolarização. O que precisa variar na abordagem do professor é a complexidade dos textos apresentados aos estudantes e a profundidade das discussões feitas em classe. Quanto mais familiarizados com essas práticas, mais eles serão capazes de localizar informações, ler para saber mais e escrever sobre o que conhecem - habilidades essenciais para o bom desenvolvimento da vida acadêmica.

Quer saber mais?

Contatos

  • Claudio Bazzoni, bazzoni@uol.com.br
  • EMEF Victor Civita, tel. (11) 3941-1906, emefvcivita@ig.com.br
  • Priscila Barbosa Arantes, arantes.priscila@gmail.com
Fotos: Fernanda Preto
Agradecimentos: Equipe da EMEF Victor Civita, em São Paulo, e Sara Laiane Oliveira Souza, que escreveu, a pedido de Nova Escola, os textos reproduzidos nesta reportagem.

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