A indisciplina ao alcance de todos

É o que acontece em escolas que não definem coletivamente normas de convivência nem compromissos de trabalho e de aprendizagem

POR:
Luis Carlos de Menezes
Foto: Marcos Rosa
"Quando há regras de convívio claras, a desobediência não vira um problema disciplinar sistêmico."
Foto: Marcos Rosa

Disciplina na escola pode significar coisas muito diferentes, mas indisciplina é sempre comportamento impróprio (desobediência, desrespeito ou agressividade). Esses desvios de conduta também aparecem em relações familiares, comerciais, esportivas e políticas. Por isso, acredito que é essencial compreender como isso se dá nos outros contextos para renovar nosso olhar sobre o que ocorre na escola e, assim, evitar diagnósticos cheios de preconceito e insistir em propostas que não têm dado resultado.

No convívio familiar, uma criança que faz algo impróprio ou perigoso pode ser advertida ou perder autonomia até se mostrar confiável. Porém, se essa criança for agredida em vez de orientada, pode se tornar agressiva e, aí sim, expressar sua revolta com indisciplina. Nos esportes, as regras (predefinidas e aceitas por todos) punem lances faltosos, mas a falta é parte do jogo, não indisciplina. Só quando as regras são mal aplicadas é que o jogo descamba para o desrespeito, a deslealdade ou a agressão - a indisciplina, enfim.

No comércio de bens e serviços, o atraso no pagamento ou fornecimento é punido com juros e multas contratuais e as partes prejudicadas têm como lutar por seus direitos. Isso só vira indisciplina quando não há chance de recorrer e alguém sai esmurrando balcões de atendimento. Na política e na Justiça, o conflito é coisa natural. Dos parlamentos e tribunais espera-se integridade, não consenso. Mas ações indignas, em que questões pessoais prejudicam o interesse público ou desmoralizam o processo democrático, acabam em desrespeito às instituições, em indisciplina cívica.

Nas relações sociais, do comércio à política, em casa ou nas quadras esportivas, a indisciplina entra em cena quando há desvios de comportamento e regras ausentes, impróprias ou mal aplicadas. O mesmo deveria valer para as escolas. Ao receber os estudantes, se estabelece um compromisso recíproco de ensino e de empenho pelo aprendizado. De um lado, é preciso um projeto pedagógico claro e eficaz, com uma proposta curricular periodicamente avaliada. De outro, alunos e seus responsáveis precisam participar de forma consciente e efetiva.

É por isso que, quando a elaboração e a vivência das regras de convívio fazem parte do processo educativo, as desobediências e advertências não se transformam em desrespeito ou em problema disciplinar sistêmico. São as escolas que sofrem com esse problema que precisam de diagnóstico, não os alunos. O caminho é a elaboração de um código de conduta por e para todos: professores, funcionários, alunos e responsáveis. E não se surpreenda se isso melhorar o desempenho escolar como um todo, e não só no que diz respeito à disciplina. Pois a disciplina pessoal não é somente meio, mas também resultado da Educação. E a indisciplina não é somente obstáculo ao aprendizado, mas também a falta de aprendizado.

Sem esse compromisso explícito, prevalece o convite à displicência e, em conseqüência, à frustração. Aos professores falta clareza do que e de como ensinar, aos coordenadores faltam diretrizes para orientar, aos alunos falta quase tudo. Só uma coisa não falta nesse cenário: a indisciplina ao alcance de todos!

Luis Carlos de Menezes

É físico e educador da Universidade de São Paulo (USP).

 

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