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A chave para o sucesso

Os computadores são um poderoso aliado do professor, que pode usá-los para que os alunos aproveitem os equipamentos e suas possibilidades para se conectar com o mundo e descobrir as próprias potencialidades. Mas tudo isso só é possível quando há planejamento tanto na rede de ensino quanto dentro de cada escola. Incluir a tecnologia no projeto pedagógico é a única forma de garantir que as máquinas se tornem, de fato, ferramentas a serviço da aprendizagem dos conteúdos curriculares - e não um fim em si mesmas

POR:
Melissa Diniz

Já é consenso que os computadores são importantes aliados do professor. Para 78% dos pesquisados, o uso das tecnologias na Educação amplia as possibilidades de exploração dos conteúdos escolares. E 63% acreditam que o bom aproveitamento das máquinas se reflete na melhora da aprendizagem dos alunos. Para que isso seja realidade, porém, é preciso um ingrediente essencial: planejamento. A boa notícia é que a maioria dos entrevistados diz incluir as ferramentas tecnológicas no projeto pedagógico da escola.

O ideal é começar no início do ano, no planejamento geral em que cada disciplina decide os projetos a desenvolver - e elege os recursos tecnológicos que "casam" com os conteúdos. "Ao longo dos meses, é preciso promover avaliações periódicas e um bom monitoramento para verificar se o que foi previsto está funcionando e atendendo às necessidades", diz Elizabete dos Santos, diretora de Tecnologias Educacionais da Secretaria de Educação do Paraná, que mantém um time de 270 assessores distribuídos em 32 núcleos regionais para auxiliar as 2,1 mil escolas da rede a realizar esse planejamento e acompanhamento. "Podemos detectar, por exemplo, uma escola que está no limite de uso da conexão com a internet e precisa de mais banda."

Trabalho semelhante de organização da rede é feito pela prefeitura de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, onde todas as escolas de Ensino Fundamental têm laboratório de informática e professores especializados atuando em parceria com os responsáveis de cada disciplina dentro das escolas.

Lea Fagundes, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), explica por que as escolas precisam se adaptar à nova realidade de uso das tecnologias: "Temos de sair de uma lógica da cultura industrial para entrar na da cultura digital, em que não há a divisão de tempo e espaço". Confira na próxima página algumas ações que as redes podem adotar para garantir que o planejamento das escolas incorpore as novas tecnologias no processo de ensino e aprendizagem dos conteúdos previstos no currículo.


Todos plugados
Quanto mais professores usam computadores no dia a dia, maior a possibilidade de trabalharem conteúdos pedagógicos usando a tecnologia

Ações que podem fazer a diferença

1 Fechar parcerias com outras escolas e secretarias.
O Instituto para o Desenvolvimento de Inovação Educativa, ligado à Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI), oferece apoio aos governos para avaliação e implementação de políticas públicas voltadas ao uso de tecnologias em escolas públicas.

2 Estruturar ações de suporte pedagógico às escolas.
Cabe às Secretarias de Educação municipais e estaduais montar equipes de profissionais que se dediquem à pesquisa e ao gerenciamento das ações formativas e de suporte pedagógico. Essa estrutura vai ajudar diretores e professores a fazer o planejamento, o monitoramento e a avaliação do uso das tecnologias. O Ministério da Educação também estimula as redes a criar Núcleos de Tecnologia Educacional para acompanhar o processo de informatização das escolas.

3 Implementar ações para desenvolver a cultura digital.
Só assim os professores e gestores escolares vão passar a fazer uso mais frequente das tecnologias e apropriar-se delas para uso com os alunos em sala de aula.

4 Socializar as boas práticas entre todas as escolas da rede.
Propiciar momentos de troca de experiências é fundamental para que os professores e gestores menos experientes aprendam com quem está mais avançado no processo de incorporação das tecnologias ao projeto pedagógico da escola.

5 Criar uma cultura de valorização e orientação.
Essa é uma forma de ajudar os diretores e coordenadores pedagógicos a planejar o projeto de suas escolas e organizar de forma mais eficaz o bom uso dos horários de trabalho pedagógico coletivo. Afinal, todos precisam atuar juntos (da equipe técnica da Secretaria ao corpo docente) para a usar as tecnologias a serviço dos conteúdos.

 

Entrevista

Quais são as principais dificuldades que as escolas encontram hoje para incluir a tecnologia em seu projeto pedagógico?
Lea As mesmas que enfrentam para pôr em prática esse projeto. O chamado PPP é uma conquista extraordinária no sistema educacional brasileiro, pois confere autonomia aos educadores, à comunidade de cada escola. Entretanto, há muitas instituições públicas em que o PPP é elaborado pelos gestores e só informado aos professores e pais. Vale o mesmo para o uso de computadores.

O que mais atrapalha o bom uso das tecnologias em sala de aula?
Lea Muitas escolas reclamam de exclusão digital, mas ainda não compreenderam que conseguir equipamentos não basta para incluí-las na cultura digital da atual sociedade do conhecimento. O mais comum é a escola receber equipamentos, montar um laboratório e criar mais uma "disciplina" de informática, o que é muito ruim. Em vez de incorporar as tecnologias como ferramentas de ensino, muitos professores continuam dando suas aulas de um jeito muito tradicional, sem perceber que isso não melhora em nada a aprendizagem dos alunos.

Como superar esses obstáculos?
Lea Com novas políticas de gestão, em todos os níveis: na concepção da cultura digital, com projetos governamentais inovadores que ajudem a constituir redes sociais, com mais tempo para a formação inicial e continuada dos professores, de forma que todos saibam como incorporar as tecnologias às atividades de sala de aula, com avaliações capazes de medir as habilidades e competências que as novas gerações precisam desenvolver.


Lea Fagundes é professora de pós-graduação e coordenadora de pesquisa do Laboratório de Estudos Cognitivos do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

 

A serviço da aprendizagem

Na EMEB Otílio de Oliveira, o planejamento do uso da tecnologia é feito em reuniões

Os laboratórios de informática começaram a chegar às 68 escolas de Ensino Fundamental de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, em 2002 (agora, a prefeitura estuda informatizar as 76 unidades que atendem à Educação Infantil).

"A incorporação das tecnologias ao projeto pedagógico foi um processo que demorou a ser compreendido", afirma Kátia Duarte Cruz Rocha, chefe de seção de Laboratório e Educação Tecnológica do município. No início do programa, os professores de apoio elaboravam um plano de trabalho específico que constava como um capítulo do planejamento escolar - ou seja, caracterizava o laboratório como um espaço com objetivos próprios. Só em 2007, após muita reflexão coletiva, foi publicada a Proposta Curricular de Tecnologia da Informação, que representou um grande avanço no modo de conceber o uso pedagógico desses recursos. "Desde então, a orientação da rede vai no sentido de integrar os computadores às necessidades de ensino e aprendizagem de cada escola e cada professor", diz Kátia.

A EMEB Otílio de Oliveira é uma das que seguem a orientação à risca. A escola tem um laboratório de informática com 18 computadores, acesso à internet, impressora, câmera digital e scanner, além de professores de apoio aos programas educacionais (pape). "Na reunião de planejamento, no início do ano, sentamos com os responsáveis pelas disciplinas e planejamos juntos o bom uso dos recursos tecnológicos, sempre pensando nos conteúdos previstos", explica Élida Ferrari Penhalver, pape da Otílio de Oliveira. "E, ao longo do ano, aproveitamos os horários de trabalho pedagógico coletivo para dar os ajustes necessários ao trabalho." Um bom exemplo dessa integração é um projeto desenvolvido atualmente pelos professores de Língua Portuguesa de quatro turmas de 4º ano sobre correspondências. Cada turma se comprometeu a apresentar o que aprendeu de uma forma diferente. Um dos grupos optou por uma poesia e usou o Power Point para exibir o material na tela. Outro resolveu fazer uma paródia da música Fada, de Victor e Léo, que foi rebatizada de Carta. "Os meninos compuseram a nova letra, o filho da professora fez um arranjo e depois um grupo usou o laboratório de informática para gravar o registro de voz", conta Élida. "Em todos os casos, as máquinas foram usadas para atender às necessidades de aprendizagem previstas pelos professores."

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