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Quem é o diretor escolar?

Duas pesquisas realizadas pela área de Estudos e Pesquisas da Fundação Victor Civita, uma para traçar o perfil desse profissional e outra para avaliar práticas eficazes de gestão, são apresentadas a você nesta edição especial. Elas apontam para reflexões importantes, que podem ajudar a melhorar a qualidade de nossa Educação

POR:
Gustavo Heidrich

Preocupada em contribuir para a melhoria da Educação brasileira, a Fundação Victor Civita realizou em 2009 duas pesquisas sobre o papel do diretor escolar. Intitulada Perfil dos Diretores de Escola da Rede Pública, a primeira delas traz dados sobre a formação desses profissionais e o que eles pensam sobre a profissão e a Educação no país (400 diretores de 13 capitais responderam a um questionário aplicado pelo Ibope). Já o estudo Práticas Comuns dos Diretores Eficazes, coordenado por Fernando Abrúcio, cientista político e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), visitou dez escolas em quatro municípios paulistas ao longo de três meses. "Graças a um modelo estatístico, excluímos a influência dos fatores sociais, culturais e econômicos no desempenho dos alunos na Prova Brasil e escolhemos unidades em que é possível medir o efeito da boa gestão na aprendizagem", explica Abrúcio.

Os resultados revelam que a gestão escolar brasileira ainda está na fase que os pesquisadores chamam de primeira onda. "As escolas que sobressaem são as que conseguiram arrumar a casa, criando rotinas de trabalho e um clima organizacional positivo, garantindo a frequência dos professores e dos alunos, e cujos diretores têm uma formação mais especializada. A segunda onda - atenção ao trabalho pedagógico -, que poderia ser concomitante, ainda não aconteceu", afirma Francisco Soares, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e consultor do estudo. Os números do Ibope confirmam esses dados. Apenas 51% dos diretores participam das reuniões de formação continuada, 25% nunca conferiram um caderno de aluno e 20% dedicam pouco tempo às questões pedagógicas (saiba mais).

Já o estudo sobre as melhores práticas chegou a dois resultados principais: de um lado, dez procedimentos eficazes que deveriam ser adotados pelas redes de ensino, como políticas públicas (leia mais) e, de outro, quatro ações que são de responsabilidade do diretor e fazem a diferença na gestão interna das escolas.

1. Qualidade da formação

Diz respeito à forma como os diretores aplicam seu conhecimento no exercício da função para melhorar a aprendizagem dos alunos. "Cada vez mais se faz necessário o estudo de processos administrativos que deem suporte ao educacional", diz Mário Aquino, professor de Administração Pública da FGV. Segundo dados do Ibope, apesar de 93% dos diretores avaliarem a própria formação inicial como tendo sido boa, apenas 36% acham que ela os preparou para o cargo.

2. Visão integradora

Capacidade de unir as áreas da gestão escolar - infraestrutura, administração, finanças etc. - em prol da aprendizagem. "Muitos diretores focam um ou dois setores e se envolvem numa burocracia que os afasta dos objetivos pedagógicos", diz Abrúcio. Além disso, a pesquisa do Ibope mostra que apenas 13% dos diretores consideram a integração das áreas um fator importante para a boa gestão.

3. Clima organizacional

Criar um ambiente adequado exige do diretor a definição de rotinas de trabalho e mais interação da equipe para atingir os objetivos comuns. Contudo, só 6% dos diretores entrevistados apontaram o estímulo ao trabalho em equipe como uma característica do bom gestor escolar.

4. Atenção às metas

É a habilidade para repensar as práticas da escola usando como base os resultados de avaliações institucionais (como a Prova Brasil) e o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). "Conhecer os dados e estabelecer metas faz com que essas avaliações externas não se tornem números sem conexão com a qualidade do ensino", explica Abrúcio.


Ilustração de Daniela Domingues sobre fotos de Paulo Vitale