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Olhar a realidade

O desafio da área é cruzar informações do presente e do passado, do macro e do micro, da sociedade e da esfera individual

POR:
Leonor Macedo

Nem tudo o que lemos, vemos ou ouvimos é uma verdade absoluta. É isso o que deve ensinar a disciplina de História do 6º ao 9º ano. Hoje, com o acesso dos jovens aos diversos meios de comunicação, o filtro e o entendimento daquilo que é ou não um fato histórico depende da seleção e da comparação de informações provenientes de fontes diversificadas. Nessa fase, os alunos estudam semelhanças, diferenças, permanências e transformações no modo de vida social, cultural e econômico de sua localidade, no presente e no passado, com ênfase no domínio da linguagem escrita.

"Essa prática contribui para a formação de um adolescente questionador, capaz de fazer uma leitura crítica de quem ele é, quem somos nós e qual é o mundo em que vivemos", diz Renato Fontes, que leciona História no Colégio Visconde de Porto Seguro, em São Paulo.

Renato destaca a evolução da disciplina no novo século. "Dizemos no meio acadêmico que o ensino nos anos 1990 ainda estava marcado pela História oficial, ou seja, aquela que valoriza as efemérides e os grandes temas - como Iluminismo, Revolução Francesa e Grécia clássica - e dava pouca ênfase às relações com o presente, que hoje são bem mais desenvolvidas", relembra.

 

O papel de cada pessoa no processo histórico

Todos nós somos produtores de história, mesmo que no futuro nossos atos não apareçam em livros didáticos, reportagens televisivas e jornais. Os sujeitos do processo histórico não precisam ser grandes personagens que desempenham atos considerados heroicos. Eles podem ser agentes de ações sociais, como trabalhadores, patrões, escravos, reis, camponeses, políticos, prisioneiros, crianças, mulheres, religiosos, velhos, partidos políticos etc.

"A História estuda a constituição de uma identidade. Para isso, todo indivíduo deve saber seu papel na sua localidade e cultura", garante Pedro Moura Leite Ribeiro, professor do Colégio Sidarta, de Cotia, na Grande São Paulo. "Só quando percebo o 'eu' é que percebo o 'outro' e o 'nós'", completa Pedro. Uma abordagem possível para desenvolver essa ideia em sala de aula é procurar elementos culturais comuns entre os alunos, em suas comunidades e em âmbito nacional, além de identificar povos que constroem modos de vida diferentes.

Outra questão importante é trabalhar atividades didáticas que envolvam perspectivas distintas de tempo. Estudar medições e calendários de diferentes culturas, distinguir periodicidades, mudanças e permanências nos hábitos e costumes de sociedades estudadas, relacionar um acontecimento com outros de épocas passadas e identificar os ritmos de ordenação temporal das atividades de pessoas e grupos relacionados a padrões culturais, sociais, econômicos e políticos vigentes: tudo isso ajuda a garotada a organizar os acontecimentos históricos no presente e no passado.

Daniel Helene, selecionador do Prêmio Victor Civita Educador Nota 10 e professor da Escola da Vila, em São Paulo, diz que relacionar os fatos ajuda na compreensão de que a história é um processo. "O aluno precisa entender as transformações que ocorrem no decorrer do tempo. Essa também é uma forma de aproximar o conteúdo da vida do estudante, o que se tornava impossível quando os temas eram tratados cronologicamente. "Hoje, o professor precisa estimular a reflexão e deve se valer de diferentes mídias e linguagens para fazer com que a decoreba de informações sem sentido seja substituída pela compreensão", afirma Helene.

Para isso, é essencial colocar os estudantes em contato com relatos e realidades diferentes sobre o mesmo assunto. Isso ajuda na compreensão e na elaboração de uma crítica mais complexa do processo histórico. A pluralidade das fontes históricas dentro da pesquisa é, portanto, fundamental no ensino da disciplina. Veja a seguir cinco situações didáticas essenciais para o ensino da disciplina.

1 Leitura e escrita sobre História
O que é O contato com diferentes formas de escrita da História para distinguir as marcas linguísticas, os marcadores temporais e de contextualização, por exemplo, que evidenciam os valores e as visões do autor.
Quando propor Sempre que possível, como parte de sequências e projetos didáticos.
O que o aluno aprende Que todo registro incorpora a subjetividade de quem o faz e a reconhecer diferentes pontos de vista, podendo evidenciar uma realidade que não é única, e sim plural. Ele percebe, portanto, que a História não é apenas o que ocorreu, mas a interpretação dada aquilo que ocorreu.
Como propor Por meio do trabalho com variadas fontes textuais (artigos científicos, didáticos e paradidáticos).

2 Uso de diferentes gêneros orais
O que é A utilização da História Oral como fonte de informação válida e de ferramentas como entrevistas, seminários, debates e grupos de discussão para captá-la, analisá-la ou transmiti-la.
Quando propor Em todos os momentos, como parte de sequências e projetos didáticos.
O que o aluno aprende Que História é debate de ideias e a valorizar falas de diferentes atores para reconstituir fatos.
Como propor Por meio de pesquisas e entrevistas cujos resultados devem ser debatidos em sala durante seminários ou grupos de discussão.

3 Análise e leitura de diferentes fontes
O que é Considerar como fonte qualquer objeto que possa ganhar sentido histórico, desde um antigo documento escrito até uma música, uma construção ou uma obra de arte.
Quando propor Sempre que possível, como parte de sequências e projetos didáticos.
O que o aluno aprende

A reconhecer diferentes formas de representação da realidade, desenvolvendo a habilidade de interpretação de distintas fontes.
Como propor Trazendo para a sala de aula variados documentos históricos, como quadros, esculturas, textos, músicas, roupas e filmes.

4 Sistematização da pesquisa histórica
O que é O processo de identificação, seleção, hierarquização, organização e interpretação de dados e informações que permitem perceber a História como uma ciência que segue uma metodologia específica, com critérios e categorias definidos pelo pesquisador.
Quando propor Como parte de sequências e projetos didáticos.
O que o aluno aprende A respeitar os procedimentos de pesquisa e observar, registrar e levantar hipóteses sobre impactos sociais de diversos fenômenos e acontecimentos.
Como propor Por meio de um projeto de pesquisa que dê origem a um texto ou a um seminário apresentado para a classe ou para uma banca de professores.

5 Trabalho de campo na comunidade
O que é Pesquisa por meio da qual se estabelece a relação entre
O que é ensinado e a realidade do estudante.
Quando propor Como parte de sequências e projetos didáticos.
O que o aluno aprende A reconhecer sua história e desmistificar o conceito de que a História é feita apenas por grandes nomes e fatos, além de valorizar as relações humanas solidárias e a respeitar a diversidade cultural.
Como propor Por meio da indicação de pesquisa sobre a história do bairro ou da cidade. Os alunos devem buscar depoimentos diversos e trabalhos científicos, visitar museus, fábricas, construções antigas. É necessário planejar o estudo do meio prevendo as atividades anteriores à visita, o levantamento das questões a ser investigadas, a seleção de informações a ser observadas em campo, comparar dados levantados e os conhecimentos organizados por outros pesquisadores.

Expectativas de aprendizagem

Ao fim do 9º ano, os estudantes devem ser capazes de:

  • Identificar transformações temporais quanto às formas diferenciadas de ocupação do espaço e às mudanças na paisagem pelas populações, desde a Antiguidade até a contemporaneidade.
  • Apontar mudanças na organização social quanto ao comércio, à produção de alimentos e no uso de recursos naturais em espaços diferenciados.
  • Reconhecer a importância do patrimônio étnico-cultural e artístico para a preservação e construção de memórias e identidades.
  • Coletar informações de fontes históricas, como textos, imagens, objetos, mapas urbanos e edificações.
  • Localizar no tempo e no espaço as sociedades estudadas.
  • Valorizar atitudes de respeito à diversidade étnica e cultural.
  • Dar importância aos intercâmbios entre as diferentes sociedades e às negociações na mediação de conflitos.
  • Conhecer as mudanças na organização dos espaços e os conflitos sociais.
  • Identificar transformações técnicas na produção e nas relações de trabalho vindas com a Revolução Industrial.
  • Comparar a organização social e o espaço urbano das primeiras cidades industriais com o município em que se vive, inserindo-o na organização política e territorial brasileira.
  • Conhecer o processo de organização das nações europeias, de independência política do Brasil e de construção do Estado nacional brasileiro.
  • Estabelecer uma relação entre política e cultura, expressa em manifestações religiosas, artísticas e educacionais.
  • Identificar as lutas políticas e sociais da população do município e os espaços de participação pública atuais.
  • Conhecer a organização da república.
  • Identificar os poderes econômicos e institucionais atuais no município.
  • Reconhecer a importância dos movimentos pela igualdade de direitos.

Fonte Orientações Curriculares, da prefeitura do município de São Paulo

Proposta de plano plurianual

6º ano - 1º semestre
Sequências didáticas

  • Uso de diferentes linguagens das fontes históricas: documentos escritos, mapas, imagens e entrevistas.
  • Análise da vida na Pré-História com base na exibição do filme A Guerra do Fogo.

Atividades permanentes

  • Visitas mensais a patrimônios históricos e culturais e museus.

Projetos didáticos

  • Grandes Civilizações do Oriente Próximo. Apresentações orais e cartazes sobre o surgimento do Estado e aspectos da vida e da cultura egípcia, mesopotâmica, hebraica, fenícia e persa ainda presentes na nossa sociedade.


6º ano - 2º semestre
Sequências didáticas

  • Pesquisa bibliográfica sobre aspectos da vida na China e na África antigas.
  • Pesquisa iconográfica sobre a arte cristã e a islâmica para estudar a influência da fé na sociedade e na cultura.

Atividades permanentes

  • Visitas mensais a patrimônios históricos e culturais e museus.

Projetos didáticos

  • Semelhanças e diferenças entre gregos e romanos. Seminário destacando aspectos da vida e da cultura desses povos ainda presentes em nossa sociedade. A vida na Grécia antiga: sociedade, vida cotidiana, mitos, religião, cidades-estado, pólis, democracia e cidadania. A vida na Roma antiga: vida urbana e sociedade, cotidiano, república, escravismo e militarismo.


7º ano - 1º semestre
Sequências didáticas

  • Leitura de textos sobre relações sociais, econômicas, políticas e religiosas sob o feudalismo.
  • Análise das cruzadas com base na exibição do filme Cruzada.
  • Leitura de textos sobre a formação das monarquias nacionais (Portugal, Espanha, Inglaterra e França).

Atividades permanentes

  • Visitas mensais a patrimônios históricos e culturais e museus.

Projetos didáticos

  • Reforma protestante e Contra-Reforma. Seminário sobre o peso da religião no mundo medieval. Apontar as causas e a repercussão da Reforma e discutir o poder da Igreja nas decisões de Estado e na vida das pessoas.


7º ano - 2º semestre
Sequências didáticas

  • Leitura de textos e reflexão sobre a expansão marítima europeia nos séculos 15 e 16
  • Análise do Brasil no período pré-colonial com base na exibição do filme Hans Staden
  • Pesquisa iconográfica sobre o Brasil colonial: obras sacras e pinturas (de Debret, Taunay e Post) mostrando o cotidiano, a escravidão, as paisagens, o engenho e a cidade.

Atividades permanentes

  • Visitas mensais a patrimônios históricos e culturais e museus.

Projetos didáticos

  • Ocupação da América. Apresentações orais e mapas para serem afixados na escola, destacando os pontos onde os europeus se estabeleceram, como foram se expandindo pelo território e os principais povos na época (maias, astecas, incas e tupis).


8º ano - 1º semestre
Sequências didáticas

  • Leitura de textos sobre a independência dos Estados Unidos e da América Espanhola.
  • Leitura crítica do especial Veja - 1808, que cobre a vinda da Família Real para o Brasil e a conjuntura mundial naquele ano.

Atividades permanentes

  • Visitas mensais a patrimônios históricos e culturais e museus.

Projetos didáticos

  • Independência do Brasil. Produção de textos para um hipotético jornal do período anterior à emancipação do Brasil que defende a independência. Os artigos, as entrevistas e as reportagens devem abordar as causas, os movimentos e rebeliões, as questões econômicas e a influência externa.


8º ano - 2º semestre
Sequências didáticas

  • Leitura de textos sobre o Primeiro Reinado no Brasil.
  • Leitura de textos e reflexão sobre as transformações econômicas, políticas e sociais no Brasil, incluindo o abolicionismo e as migrações.
  • Pesquisa e debate sobre os movimentos sociais e políticos na Europa no século 19: as ideias socialistas, comunistas e anarquistas, liberalismo e nacionalismo.

Atividades permanentes

  • Visitas mensais a patrimônios históricos e culturais e museus.

Projetos didáticos

  • Segundo Reinado no Brasil. Apresentações orais e cartazes para serem fixados na escola, destacando as principais características, crises e legados do Segundo Reinado no Brasil, culminando com a proclamação da República. A figura de dom Pedro II, a política interna, a economia, revoltas, revoluções e as relações exteriores.


9º ano - 1º semestre
Sequências didáticas

  • Análise da Revolução Russa com base na leitura do livro Dez Dias Que Abalaram o Mundo.
  • Apreciação de caricaturas de Raul Pederneiras e da revista Fon-fon! para analisar o Brasil na Velha República: as contradições, a modernização e o processo de exclusão política, econômica e social do povo.

Atividades permanentes

  • Visitas mensais a patrimônios históricos e culturais e museus.

Projetos didáticos

  • Getúlio Vargas: democrata ou ditador? Júri simulado. A defesa destacará as leis trabalhistas, o combate às oligarquias etc. e a acusação focará o apego ao poder, a simpatia pelo nazifascismo e o populismo. Abordar a trajetória política, os períodos revolucionário, ditatorial e constitucional, as relações internacionais e o suicídio.


9º ano - 2º semestre
Sequências didáticas

  • Entrevistas com pessoas de diferentes formações que tenham vivido no Brasil entre os anos 1945 a 1964 para analisar esse período democrático e populista.
  • Análise da ditadura no Brasil e no continente com base em entrevistas com pessoas que tenham vivido naquele período e da exibição de filmes como Estado de Sítio e O que é Isso, Companheiro?

Atividades permanentes

  • Visitas mensais a patrimônios históricos e culturais e museus.

Projetos didáticos

  • Redemocratização no Brasil. Seminário destacando os principais personagens, episódios e avanços garantidos pela chamada Constituição Cidadã, o movimento Diretas Já, a eleição indireta de Tancredo Neves, a morte do presidente eleito, a posse de José Sarney e a Constituição de 1988.

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Contatos


Bibliografia

  • Ensino de História: Fundamentos e Métodos, Circe Maria Fernandes Bittencourt, 408 págs., Ed. Cortez, tel. (11) 3611-9616, 48 reais

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