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A busca pelo saber

A observação de fenômenos e a experimentação são fundamentais para que os alunos ampliem os conhecimentos na área

POR:
Neila Baldi

Ciências não se aprende só na prática. É claro que experiências laboratoriais são válidas. Porém não são só elas que permitem à garotada compreender os conceitos da área. Consultores sugerem investir também nas pesquisas e na realização de projetos didáticos, como a construção de uma maquete do Sistema Solar ou outros ligados a temas do cotidiano dos estudantes, como uma campanha por uma alimentação saudável.

Luciana Hubner, gerente de formação de projetos educacionais da empresa Sangari, afirma que as práticas e os conteúdos desenvolvidos do 6º ao 9º ano não se modernizaram. "Não temos um currículo de Ciências, mas apenas orientações gerais trazidas pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs)." Para driblar essa dificuldade, mais do que seguir o livro didático, é importante trabalhar com temas dentro de um contexto social e culturalmente relevante para o aluno de modo a proporcionar uma aprendizagem significativa. Com base nessa perspectiva, ao abordar conteúdos como as estações do ano e as regiões climáticas, você não pode deixar de comentar catástrofes climáticas - as enchentes no Sul do país, como a de Blumenau em 2008 e as do Rio Grande do Sul em 2009, e as secas recorrentes no Nordeste são bons exemplos.

A aprendizagem significativa é uma necessidade para os jovens. Por isso, se torna importante que nas situações-problema propostas o conteúdo seja próximo da realidade dos estudantes. "Se não fizer sentido, a atividade vira apenas mais uma tarefa. É preciso criar propósitos e estímulo para a busca de outras informações", explica Celina Martins de Mello Morais, professora da Escola da Vila, em São Paulo. "Novas perguntas é que vão fazer os alunos avançarem."

 

Pesquisa e escrita são essenciais na aprendizagem

O ensino da disciplina deve criar condições para que o aluno faça pesquisas - com a aplicação do método científico - e desenvolva o pensamento crítico e a argumentação sólida. Para tanto, relacionar os conceitos da área às questões sociais, tecnológicas, políticas, culturais e éticas (relações de contexto) é essencial. Cabe ao professor durante as aulas, ainda, estabelecer relações entre os conceitos vinculados a conteúdos estruturantes (relações conceituais), os científicos e os ligados a outras disciplinas.

Parte dos conteúdos desenvolvidos de 6º a 9º ano já foi trabalhada antes. Por isso, a sistematização de ideias científicas de forma estruturada é essencial para aprofundar os conhecimentos. A produção de textos informativos e esquemas tem como intenção reunir e organizar dados e interpretá-los para responder a um problema proposto inicialmente. Ao realizar esses escritos, o aluno articula as soluções parciais encontradas no decorrer da elaboração de um projeto, por exemplo. A sistematização pode incluir ainda a apresentação ao público da classe.

Veja a seguir quatro situações didáticas essenciais para o ensino de Ciências.

1 Pesquisa
O que é O estímulo à busca de informações em fontes diversificadas por meio da observação, da leitura de textos, de entrevistas, do estudo do meio e das diferentes tecnologias.
Quando propor Durante o desenvolvimento de todos os conteúdos. A curiosidade e a busca de informações são os combustíveis da ciência e devem ser continuamente estimuladas.
O que o aluno aprende A formular hipóteses, interpretar resultados, elaborar problemas, recolher dados, pesquisar e registrar as informações obtidas.
Como propor Em atividades de busca de informações, o aluno deve comparar e elaborar hipóteses e suposições, estabelecendo relações entre fatos ou fenômenos. Para que a pesquisa em textos - na biblioteca ou na internet - seja produtiva e não apenas uma coleta de dados mecânica, é importante apresentar questões que levantem problemas sobre o tema a ser pesquisado.

2 Experimentação
O que é A construção de formas de averiguar hipóteses e suposições.
Quando propor Como parte dos projetos e sequências didáticas. O conhecimento é mais facilmente apreendido quando os jovens observam o problema.
O que o aluno aprende Os conteúdos relacionados ao tema em questão - e a encontrar variáveis.
Como propor A atividade não precisa, necessariamente, ser realizada num laboratório. Muitas vezes, a sala é adequada. Diferentemente do que se pensava no passado, as experiências não servem para comprovar informações recebidas em aulas teóricas, mas para verificar hipóteses. Antes de iniciar a montagem do experimento, é preciso tematizá-lo para que a problematização não seja artificial. "O que queremos descobrir?" é a pergunta-chave. Cabe ao aluno prever o que pode ocorrer durante a realização do experimento.

3 Uso de gêneros orais
O que é Explorar formas de falar sobre Ciências, com debates, seminários, dramatizações, entrevistas e exposições.
Quando propor Regularmente, vinculado às sequências didáticas.
O que o aluno aprende A se expressar sobre conteúdos científicos, por meio de diferentes linguagens, e adequar os termos que usa à situação vivenciada. A linguagem empregada num encontro de pesquisadores tem de ser diferente daquela que visa a divulgação científica.
Como propor É importante buscar formas diferentes de falar sobre Ciências. São oportunidades de aprendizagem os debates entre os colegas que devem defender pontos de vista diferentes, a apresentação de seminários sobre os conteúdos estudados, a realização de entrevistas com especialistas e as exposições dos conteúdos aprendidos. Falar sobre uma descoberta recente é um modo de dominar e usar a linguagem específica de textos científicos, gráficos e tabelas.

4 Escrita sobre Ciências
O que é Produção de textos informativos e esquemas crescentemente complexos de forma coletiva e individual.
Quando propor Como parte de projetos e sequências didáticas.
O que o aluno aprende

A organizar o pensamento, sistematizar conhecimentos adquiridos e conhecer as características dos textos informativos.
Como propor A escrita pode nascer de uma experiência - o relato dela e de conclusões - ou se constituir no aprofundamento do que foi experimentado, com base na coleta de dados em várias fontes. A produção coletiva da classe sob coordenação do professor é fundamental. Ela garante o registro das discussões e conduz à aprendizagem do texto informativo, incluindo a socialização de ideias e dos modos de formulá-las. As produções devem ser consistentes e prever a utilização de definições e termos cujo significado é conhecido por todos. Aos poucos, com a conquista de autonomia, a atividade pode se tornar individual.

Expectativas de aprendizagem

Ao fim do 9º ano, os estudantes devem ser capazes de:

  • Organizar, individualmente e em grupo, relatos orais e registros sobre questões ambientais, estabelecendo relações entre as informações obtidas em fontes diversas e elaborando sínteses em tabelas, gráficos, esquemas, textos e maquetes.
  • Relacionar a fotossíntese, a respiração celular e a combustão nos ciclos do carbono e do oxigênio para compreender o papel da vegetação, do desmatamento e das queimadas na atmosfera.
  • Relacionar os sentidos (visão, audição, olfato, paladar e tato) ao sistema nervoso.
  • Reconhecer os agravos à saúde física e mental no uso e abuso de drogas, no sexo desprotegido, nas ações violentas e nos esportes radicais, considerando fatores psicológicos, culturais e sociais.
  • Compreender o corpo humano e sua saúde como um todo integrado por dimensões biológicas, afetivas e sociais.
  • Identificar símbolos e outras representações de aparelhos elétricos, como potência e tensão.
  • Compreender a relação entre velocidade e energia de movimento.
  • Comparar diferentes combustíveis, suas origens e seus usos.
  • Sequenciar algumas transformações de energia que ocorrem em máquinas e equipamentos, como nos veículos, na iluminação e em eletrodomésticos.
  • Comparar principais fontes e consumos de energia presentes na matriz energética brasileira.
  • Investigar e comparar diferentes modelos explicativos da constituição da matéria ao longo da história.
  • Identificar e estimar ordens de grandeza de espaço e tempo em escala astronômica, situando a Terra e o sistema solar.
  • Reconhecer a existência da força gravitacional, associando-a à atração entre objetos na Terra e no Universo e relacionando-a às suas massas e respectivas distâncias.
  • Comparar os modelos geocêntrico e heliocêntrico do sistema solar, relacionando-os a diferentes visões e a aspectos sociais, culturais e filosóficos.

Fonte Orientações Curriculares, da prefeitura do município de São Paulo

Proposta de plano plurianual

6º ano - 1º semestre
Sequências didáticas

  • A Terra: influência do Sol e da Lua (marés), eclipses, estações do ano e regiões climáticas.
  • Experimento: composição química dos astros (ver site da Nasa, em inglês).

Projetos didáticos

  • Sistema solar. Construção em escala de uma maquete dos planetas e outra mostrando planetas com anéis e múltiplos satélites, como Júpiter e Saturno.


6º ano - 2º semestre
Sequências didáticas

  • Ecossistemas e biomas: ecossistemas e os biomas em relação ao clima das regiões da Terra (visto no 1º semestre).
  • Experimento: construção de relógio solar.

Projetos didáticos

  • Preservação ambiental, efeito estufa e aquecimento global. Os estudantes devem elaborar um mural de notícias selecionadas sobre a importância da preservação ambiental e da recuperação de alguns ambientes já degradados.


7º ano - 1º semestre
Sequências didáticas

  • Animais e micro-organismos (reinos monera, protoctista e fungi).

Atividades permanentes

  • Experimentos quinzenais: culturas de microorganismos

Projetos didáticos

  • Estudo de classes, ordens e famílias de animais e suas características. Construção de maquete e criação do projeto de um zoológico. Cada equipe de alunos cuida da área reservada a uma família de animais com base em seu habitat, alimentação e comportamento.


7º ano - 2º semestre
Sequências didáticas

  • Plantas e fungos (os macroscópicos e reprodução).

Atividades permanentes

  • Debates sobre questões agrícolas polêmicas: adubação química, esgotamento do solo, desertificação, transgênicos etc.

Projetos didáticos

  • Produção de caderno de receitas com vegetais disponíveis na comunidade, mas que não são usados ou com partes de vegetais normalmente descartadas.


8º ano - 1º semestre
Sequências didáticas

  • Análise da energia no corpo humano: digestão, respiração, circulação e excreção.
  • Experimentos: identificação do amido nos alimentos, importância da mastigação e o papel da bile na digestão das gorduras (usando comprimidos efervescentes).

Projetos didáticos

  • Campanha na comunidade sobre alimentação saudável e dieta balanceada.


8º ano - 2º semestre
Sequências didáticas

  • Corpo humano: sistemas de integração e controle e reprodução.

Atividades permanentes

  • Mensalmente, debates sobre promoção da saúde, com foco no sistema que está em estudo no momento.

Projetos didáticos

  • O funcionamento do sistema nervoso. Uma maquete com circuito elétrico simples - pilha, fios e lâmpada - deve demonstrar a ação do neurônio e evidenciar que, para ele, a informação é um sinal elétrico. Papel dos neurotransmissores no processo.


9º ano - 1º semestre
Sequências didáticas

  • Energia na sociedade atual: formas e fontes (renováveis e não), processos de produção e distribuição.
  • Experimento: construção de baterias.

Projetos didáticos

  • Desperdício de energia. Com base em notícias selecionadas, os estudantes devem produzir informações e dicas sobre sustentabilidade, impacto ambiental e combate ao desperdício para a exposição num mural.


9º ano - 2º semestre
Sequências didáticas

  • Transformações de energia em máquinas e equipamentos: como ela acontece nos veículos, na iluminação e em eletrodomésticos.

Projetos didáticos

  • O petróleo. Com base na pesquisa de constituição, tamanho das reservas e região de maior incidência, os alunos devem apresentar num seminário os processos de transformação do produto, desde o poço até a fabricação de múltiplos produtos (garrafas PET, cosméticos e combustíveis).

Quer saber mais?

Contatos


Bibliografia

  • O Paradigma Emergente e a Prática Pedagógica, Marilda Behrens, 120 págs., Ed. Vozes, tel. (21) 2215-0110, 20,40 reais
  • Para Compreender a Ciência: Uma Perspectiva Histórica, Maria Amélia Andery, 436 págs., Ed. Educ, tel. (11) 3670-8558 (edição esgotada)

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