O aprendizado das lições ocultas

Os estudantes estão atentos a tudo. Por isso, os professores devem ter consciência de que ensinam muito além de suas palavras

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Luis Carlos de Menezes
Luis Carlos de Menezes, físico e educador da Universidade de São Paulo, sabe que, mais do que informações, o que os alunos querem é sentido. Foto: Emilia Brandão
Luis Carlos de Menezes,  físico e educador da Universidade de São  Paulo, sabe que, mais do que informações,  o que os alunos querem é sentido. Foto: Emilia Brandão

A palavra nem sempre é validada por expressões e atitudes. O rosto e o olhar, por exemplo, revelam alegria ou tristeza, simpatia ou rejeição, e confirmam ou contradizem o que uma pessoa fala. O ator, aliás, ajusta os gestos ao texto para dar veracidade a um personagem. Vale lembrar que "pessoa" e "personagem" têm a mesma origem, persona, que é a máscara do teatro romano pela qual (per) passa o som da voz (sona). Todos nós representamos papéis. Em situações de convívio familiar ou na sala de aula, projetamos imagens que, como máscaras teatrais, qualificam nossas ações. É possível que um sorriso expresse ternura ou desprezo e o silêncio demonstre ou consentimento ou recusa. Talvez digamos mais com atitudes que com palavras. 

Nossos filhos e alunos aprendem lições ocultas que reforçam ou negam o que queremos ensinar. Uma criança que brincou na terra e é lavada com carinho aprende a associar higiene a afeto. Outra, maltratada pela mesma razão, pode passar a detestar banhos. Um menino que apanha por agredir outro menor tem sua violência validada e aprende a não bater no mais fraco na presença do mais forte. Um estudante humilhado por estar desatento pode aprender o desrespeito e passar a fingir atenção. 

Mais do que as palavras, a atitude do professor promove participação ou passividade, cooperação ou individualismo, esperança ou desalento. Reunir alunos em círculo em vez de perfilá-los é sinalizar a importância da interação na aprendizagem. Tomar um livro de Ciências como fonte única de informação é ignorar a capacidade de investigação do jovem. Admitir que uma criança, por ser obesa, não participe de um jogo é aceitar que nem todos têm o direito de viver o esporte. Perguntar se a turma é grata a dom João por nos trazer a corte, à Inglaterra por nos vender seus produtos e a Napoleão por ter começado a confusão é convidá-la a pensar nossa história dos últimos 200 anos, não a memorizá-la. São incontáveis os exemplos, mas a idéia é que devemos ter consciência das mensagens implícitas em nossas atitudes e expressões e de que isso pode ser mais importante que outras sabedorias, pois os alunos também buscam sentidos, e não apenas informações. Conheço uma Luiza cuja vida mudou quando a professora a deixou inventar o fim de uma história e uma Jussara que descobriu sua profissão ao ver a colega cega sendo ensinada. Mas sei de um Rafael que largou a escola, ainda analfabeto, envergonhado por olhares de desprezo do professor. 

A imagem que projetamos atinge os alunos mais profundamente do que os conceitos que explicamos. Por isso, a coerência entre nossas palavras e nossas atitudes, nossa confiança na vida e nosso apreço pela cultura são essenciais. Assim evitamos desvios de comportamento, como o do professor "desbravador"

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