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Self-service mirim

Quando as turmas da creche e da pré-escola têm acesso a vários alimentos e podem escolhê-los aprendem a controlar quanto comer

POR:
manoela figueiredo

Cardápio rico: com várias opções, os pequenos deixam de trazer lanche de casa para a merenda. Foto: Tadeu Bianconi

As refeições servem para sustentar o corpo e garantir um bom desenvolvimento cognitivo, mas creches e pré-escolas podem ter um programa de educação alimentar que leve em conta, além dos aspectos nutricionais, as experiências culturais e sociais. Assim, a hora de comer também vai contribuir para a construção da autonomia e para o desenvolvimento de hábitos saudáveis. Pesquisas mostram que eles são definidos entre 1 e 2 anos de idade e tendem a se manter ao longo da vida, razão pela qual é tão importante ter acesso desde cedo a um cardápio variado. A diversidade de nutrientes, cores, sabores, odores e texturas ajuda a criar preferências individuais mais ricas.

O estado nutricional infantil reflete as condições de saúde da população e está entre os indicadores de qualidade de vida de um país. A Pesquisa de Orçamento Familiar, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, mostra que, nos últimos 30 anos, diminuiu o número de jovens desnutridos e aumentou o de adolescentes com sobrepeso. "A obesidade atrapalha o desenvolvimento físico, dificulta a adaptação social e o aproveitamento escolar e aumenta os riscos de doenças como a diabetes do tipo 2 e a hipertensão", afirma Vânia Assaly, da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), em São Paulo. Para mudar esse cenário, escola e família devem desestimular o consumo de frituras e guloseimas e incentivar o de verduras e frutas.

"Conhecer os alimentos é importante para aprender a fazer escolhas saudáveis, tanto em quantidade como em qualidade", diz Vânia. Toda pessoa tem um controle interno de fome e saciedade, que muitas vezes se perde com a falta de autonomia. Por isso, o excesso de regras - seja por parte dos pais, seja por parte da escola - pode levar a problemas. "A criança começa a comer de maneira desequilibrada, ingerindo menos ou mais do que de fato precisa", explica a endocrinologista e nutróloga Vânia Assaly. É fundamental também que as refeições nunca sejam associadas a recompensas e castigos. Ou seja, nada de prometer um chocolate para quem comer tudo.

 

Trabalho de equipe

Na EMEIF Teresita Borrini Farina, em João Neiva, a 81 quilômetros de Vitória, houve uma mudança radical de enfoque com o projeto Self-service, implantado em 2006. Até então, apesar de a escola oferecer a merenda, o costume era trazer de casa refrigerantes, biscoitos recheados, chocolates e batatas chips. "Percebi que tínhamos de envolver toda a comunidade para mudar esses hábitos", lembra a diretora, Glaucines Vescovi Martins.

A mudança foi precedida de discussões com os pais, palestras de uma nutricionista e de uma dentista e de cursos de formação para professoras e merendeiras - com temas como higiene pessoal e ambiental, preparo e manuseio de alimentos e a relação com a garotada. A maneira de preparar a merenda também mudou e os cardápios hoje são preparados por uma profissional da Secretaria Municipal de Educação.

Para iniciar o projeto, bastou comprar toalhas, vasilhas de inox, talheres e murais que divulgavam o cardápio diário. As novidades transformaram o refeitório em espaço de aprendizagem. Antes, a meninada não se servia sozinha, comia com colher e em pratos de plástico. Agora, a merenda é exposta numa mesa. Todos formam fila, pegam um prato de vidro e se servem. Depois, vão para a mesa e comem com garfo e faca. As professoras acompanham e orientam os pequenos a experimentar comidas e a só pegar o que será consumido. No fim de 2006, a turma de Rosiane Maria Vescovi Sacconi só tinha um que trazia lanche de casa.

No início, era complicado definir a quantidade certa de comida, manusear os talheres e esperar a vez para se servir. "Todas essas questões foram abordadas diariamente. Com o tempo, a turma aprendeu a fazer fila e a comer usando os talheres", completa a diretora. As mudanças não pararam aí. Nas reuniões, os pais contaram que, em casa, os filhos não queriam mais pegar a comida em cima do fogão: tem de pôr tudo na mesa.

As famílias ficaram satisfeitas com a autonomia que os pequenos ganharam. "Meu filho faz o suco e o leite com chocolate", conta Sinara Aparecida Fernandes Santos, mãe de Gabriel dos Santos, 4 anos. "Eu me sirvo sozinho e só escolho o que quero", comemora Victor Moraes dos Santos, 6 anos. Além dos benefícios citados, projetos como o Self-service ajudam a reduzir custos, diminuir o desperdício e melhorar o envolvimento de toda a equipe escolar com a Educação.

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Contatos

  • EMEIF Teresita Borrini Farina, R. Lucia Santa Cometti, 180, 29680-000, João Neiva, ES, tel. (27) 3258-1888
  • Elza Corsi de Oliveira

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