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Ai, que vontade de morder

As dentadas são uma forma de a criança de até 3 anos se comunicar e expressar sentimentos. Saiba como lidar com elas

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jaciara de sá

Tapas e beijos: comuns nessa idade, as mordidas podem demonstrar carinho ou descontentamento. Foto: Kriz Knack

No CEI Santo Antonio, em São Paulo, aconteceu uma situação delicada: uma avó disse que a creche estava cheia de pit bulls, pois o neto de 2 anos tinha as marcas dos dentes de um colega no rosto. Outra mãe ouviu o comentário e reclamou com a direção. "Ela não concordava com o rótulo dado para a turma de seu filho", lembra a coordenadora pedagógica, Elizabeth Bilezikjian.

Muitos professores enfrentam constantemente o choro de dor de uma criança e a indignação de um pai. Apesar de comum, a situação é um desafio na Educação Infantil. Afinal, por que os pequenos gostam tanto de fazer isso? Desde o aparecimento da dentição, até por volta dos 2 anos, eles adoram abocanhar brinquedos, sapatos e até os pais, professores e amigos para descobrir-se e identificar sensações e movimentos.

"Nessa fase, a criança testa os limites do corpo, começando a reconhecer onde o dela acaba e começa o do outro. E os dentes, que estão nascendo, ganham destaque", explica Heloysa Dantas, professora aposentada da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo.

Sigmund Freud (1856-1939), fundador da psicanálise, definiu como fase oral o período em que a criança sente necessidade de levar à boca tudo o que estiver ao seu alcance, pois o prazer vital está ligado à nutrição. Assim, ela experimenta o mundo e não compreende que a mordida machuca e causa dor. A consciência do fato só surge a partir dos 3 anos, quando há compreensão de que essa é uma forma de agredir o colega.

Outra razão é a necessidade de comunicação. Os pequenos não dominam a linguagem verbal e utilizam esse ato para expressar descontentamento, desconforto ou insegurança, disputar a atenção dos pais ou objetos com os amigos. Amor e carinho também podem se manifestar com uma mordidela. "O professor precisa perceber qual desses sentimentos está em jogo para agir sem drama", destaca a psicopedagoga Denise Argolo Estill, da clínica Infans Unidade de Atendimento ao Bebê, em São Paulo.

 

Sem rótulos nem drama

Como o bebê usa os dentes como recurso de expressão, ele não pode ser rotulado. Além da descoberta do corpo, essa fase é a da construção da identidade. Quando é estigmatizado como o agressor da turma, ele pode apresentar dificuldade em se desvincular desse papel e de desempenhar outro. "Podem ocorrer dificuldades de relacionamento e o que seria uma fase transitória se cristaliza em comportamento permanente", explica Denise.

Para evitar que a história dos pit bulls se espalhasse e gerasse um mal-estar maior entre os pais, a coordenação do CEI Santo Antonio chamou todas as famílias para uma conversa. Na reunião não foi revelado o nome de quem mordeu, mas todos os esclarecimentos sobre as causas desse comportamento foram dados. O objetivo era mostrar aos presentes que a situação é comum, tanto em casa como na escola, e que não se trata de negligência dos adultos.

Quer saber mais?

Contatos

  • CEI Santo Antonio, R. Fiação da Saúde, 425, 04144-900, São Paulo, SP, tel. (11) 5594-0662
  • Infans Unidade de Atendimento ao Bebê, R. Artur de Azevedo, 46, 05404-000, São Paulo, SP, tel. (11) 3493-7394
  • Karina Rizek

Bibliografia

  • As Necessidades Essenciais das Crianças, T. Berry Brazelton e Stanley I. Greenspan, 214 págs., Ed. Artmed, tel. 0800-703-3444, 38 reais

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