Sala de Aula | Linguagem | Sala de aula

Bebeteca: lugar de pequenos leitores

Mesmo antes de saber falar, sentar ou segurar um livro, crianças da creche podem e devem manusear livros e ouvir histórias

POR:
fabiana faria

Pouco texto: livros com imagens grandes e bem coloridas chamam a atenção dos bebês. Foto: Peninha Machado

Todo mundo sabe que ler é um hábito adquirido ao longo da vida e que se deve introduzi-lo cedo. Quantas pessoas não têm gravada na memória uma bela história ouvida na infância? O escritor João Ubaldo Ribeiro conta na crônica Memórias de Livros que desde muito novo convivia com volumes variados espalhados pela casa. "A ponto de passar tempos infinitos com um deles aberto no colo, fingindo que estava lendo e, na verdade, se não me trai a vã memória, de certa forma lendo, porque quando havia figuras, eu inventava as histórias que elas ilustravam e, ao olhar para as letras, tinha a sensação de que entendia nelas o que inventara." Na autobiografia As Palavras, o filósofo francês Jean Paul Sartre (1905-1980) revela que a hora da leitura tinha o cheiro de sua mãe, sabão e água de colônia. Sentado numa pequena cadeira de frente para ela, o garoto entrava num universo de fadas, bruxas e criaturas esquisitas.

Até algum tempo atrás, acreditava-se que nossa capacidade de representar o mundo só começava a se desenvolver por volta dos 2 anos. Hoje sabe-se que quanto mais cedo a leitura for introduzida na vida da criança, melhor. Isso faz com que ela amplie o vocabulário e passe a se expressar com mais desenvoltura. "As noções de causalidade e organização do tempo são aprendidas mais facilmente e, em médio prazo, isso ajuda a pessoa a ser mais falante e articulada", diz Daniela Panutti, orientadora pedagógica do Colégio Vera Cruz, em São Paulo. Mas os benefícios não param por aí. Quem se relaciona permanentemente com livros faz mais associações, adquire um repertório maior de histórias, desenvolve a concentração, aprende a ouvir e aprimora a capacidade representativa e simbólica por meio da escrita e das imagens.

"Ler aumenta o contato com o mundo e com as experiências de vida possíveis para a faixa etária. Livro tem de ser considerado brinquedo", diz Silvana Augusto, selecionadora do Prêmio Victor Civita Educador Nota 10. É fácil perceber o desenvolvimento graças à leitura, pois textos e ilustrações são compreendidos como reproduções da realidade e do mundo simbólico. Silvana lembra o dia em que notou o interesse de uma menina de 1 ano pela imagem de uma árvore no outono. No pátio, ao ver folhas secas espalhadas pelo chão, a garota pegou uma e guardou dentro do livro. "As crianças estabelecem essas relações muito rapidamente. E isso não significa roubar a infância. Ao contrário, só aumenta a possibilidade de compreender o que acontece ao redor com mais propriedade."

Quando o bebê ouve uma história e tenta repetir palavras, também está desenvolvendo as linguagens oral e escrita, mesmo que ainda não saiba falar. Ler para as turmas de creche e pré-escola requer rotina, livros variados e atraentes e um espaço bem planejado. O ideal é que isso seja feito diariamente, respeitando os limites de tempo do grupo para não cansar nem dispersar ninguém.

 

Acervo especial

No CMEI Cavalinho de Pau, em Castro, a 160 quilômetros de Curitiba, há um espaço especialmente montado para os bebês: a bebeteca. O diferencial está no acervo, voltado para a faixa dos menores de 3 anos, e na disposição de recursos adicionais, como fantoches e móbiles. "É uma maratona dar conta de tanta energia e planejar todas as possibilidades de exploração que o trabalho permite", explica Márcia Maria King, coordenadora da bebeteca. A atividade não ultrapassa 15 minutos por turno. Mariana Senhorini, bibliotecária de Londrina, a 380 quilômetros de Curitiba, adverte que o espaço físico e os outros recursos ajudam o educador, mas o importante mesmo é o livro. "Não há fórmula para explorar o faz-de- conta literário. Conhecer o interesse da turma e auxiliar na representação das histórias no faz-de-conta são as principais coordenadas", afirma.

Por enquanto, bebetecas são raras no Brasil. A chave é ampliar o cantinho de leitura. No CEI Hilca Piazero Schnaider, em Blumenau, a 139 quilômetros de Florianópolis, muitas almofadas e edredons forram o chão para deixar o ambiente aconchegante. As estantes baixinhas são um convite irresistível à leitura. A proposta funciona porque a equipe docente tem um projeto para garantir a aprendizagem. "Poderia ser apenas mais um trabalho, mas virou um espaço especial de convivência e conhecimento", conta a diretora, Maria Estela Pitz.

Toda semana, ela se reúne com os professores para discutir os lançamentos e a função das imagens. A equipe dá atenção à fundamentação teórica sobre a importância da leitura no desenvolvimento humano. Tudo para encontrar os títulos que não tenham lições de moral, personagens estereotipados e diálogos preconceituosos. Em ambas as escolas, as famílias são informadas sobre as histórias selecionadas para que elas acompanhem o desenvolvimento da leitura da garotada. Proporcionar o empréstimo de livros é uma maneira de estabelecer uma convivência saudável entre pais e filhos. "Quem gosta de ler vai além dos momentos planejados. Bom mesmo é ver os pequenos com um livro na mão, seja em casa, seja na escola, e com uma história pronta para ser contada", avalia Márcia Maria, da escola Cavalinho de Pau.

Quer saber mais?

Contatos

  • CEI Hilca Piazero Schnaider, R. Mariana Bronemann, 353, 89036-080, Blumenau, SC, tel. (47) 3329-0395
  • CMEI Cavalinho de Pau, R. Antônio Menarim, s/nº, 84172-390, Castro, PR, tel. (42) 3906-2156
  • Daniela Pannuti
  • Mariana Senhorini

Compartilhe este conteúdo: