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Melhor que boletim

Descrever o que a criança aprendeu é o jeito ideal para avaliar na creche e na pré-escola

POR:
Roberta Bencini

Carta individual: Ivan recebe avaliação da professora, com a descrição de seus principais avanços. Foto: Gustavo Lourenção

No final de 2005, a mãe de Ivan Correia, 6 anos, teve uma surpresa. Ela não recebeu um boletim, mas uma carta que, em vez de estar endereçada a ela, veio em nome do próprio menino. A correspondência era assinada pela professora Glória Maria Ribeiro dos Reis, da EMEI Maria Alice Pasquarelli, em São José dos Campos, a 94 quilômetros de São Paulo. Cada conquista dele em Matemática, em Leitura e Escrita e no relacionamento com os colegas consta do texto. Iniciativas desse tipo ainda são raras na Educação Infantil. O mais comum é a avaliação estar numa tabela, com conceitos correspondentes ao nível de aprendizado e aos conteúdos trabalhados no período. O desenvolvimento da criança é classificado apenas por faixas como excelente, muito bom, razoável e precisa melhorar.

"Comparações entre os pequenos e boletins em forma de fichas feitos no final do bimestre ou trimestre são superficiais e não ajudam a melhorar o desempenho", diz Zilma Ramos de Oliveira, professora de Psicologia do Desenvolvimento da Universidade de São Paulo. De acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, a avaliação deve incluir o acompanhamento e o registro do dia-a-dia em sala de aula. Portanto, todos têm direito a uma análise profunda, crítica e reflexiva sobre seus avanços cognitivos, motores, afetivos e sociais.

 

Sem comparações

Ao escrever sobre Ivan, Glória não fez nenhuma comparação entre ele e os colegas de sala. A observação do desempenho tinha como objetivo ajudá-lo a se adaptar ao ambiente escolar e a evoluir. Notas e conceitos não demonstrariam isso. Boletins atendem apenas às necessidades burocráticas e muitas vezes se baseiam em atividades específicas.

Algumas escolas anexam ao texto descritivo fotografias, fitas de vídeo e portfólios. Seja qual for o produto final, o resultado depende de uma rede que começa com o projeto pedagógico e passa pelo plano anual ou semestral até chegar ao planejamento de cada professor. "A avaliação é um dos momentos mais importantes do trabalho docente. Nela ficam evidentes as concepções educacionais da escola", afirma Zilma.

 

Como fazer o registro

O bom e velho caderno é o melhor companheiro na hora de reunir informações. Nele, cada criança da sala de Glória tem uma página. Durante as atividades, ela só anota palavras soltas mas, no final do dia, as informações são organizadas. Para o balanço diário, ela reserva 30 minutos. Tudo é discutido com a coordenadora.

Quem não faz registros sistemáticos tem dificuldade na hora de entregar os relatórios para a direção e corre o risco de fazer análises incorretas. "Os maiores desafios são organizar as idéias e escolher as melhores palavras", afirma Helena Cristina Cruz Ruiz, orientadora pedagógica da escola Maria Alice Pasquarelli. A solução? Escrever. Um acompanhamento contínuo é feito com registros individuais, do grupo e dos projetos.

Apesar de difícil no início, a atividade se torna prazerosa. Toda vez que retoma as anotações, a professora Glória se lembra de cada criança em diversas situações. Suas cartas não são longas, mas são cheias de informação e carinho (leia um trecho na imagem acima).

A avaliação é uma via de duas mãos. Ao mesmo tempo que acompanha o crescimento dos pequenos, você revê métodos e estratégias. A atenção é a chave do sucesso: ao observar, o professor registra; ao registrar, reflete; ao refletir, planeja; ao planejar, avalia; e ao avaliar, replaneja. A avaliação, para ser eficiente, deve fazer parte dessa corrente.

Quer saber mais?

Contato

  • EMEI Maria Alice Pasquarelli, Pça. Joaquim Figueira de Andrade, 60, 12221-220, São José dos Campos, SP, tel. (12) 3929-1854

Bibliografia

  • Educação Infantil: Muitos Olhares, Zilma Ramos de Oliveira, 190 págs., Ed. Cortez, tel. (11) 3864-0111, 25 reais
  • Manual de Portfólio, Elizabeth Shores e Cathy Grace, 160 págs., Ed. Artmed, tel. 0800-703-3444, 44 reais

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