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Um bate-papo sem fim

Turmas de creche e pré-escola aprendem a se comunicar, a ouvir e a organizar idéias participando de rodas de conversa

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Temas variados: sentados em círculo, os pequenos falam sobre o dia-a-dia ou temas de estudo.
Foto: Carlos Costa

É possível desenhar alguma coisa que a gente nunca viu? "Os dinossauros!", respondeu entusiasmado um menino de 5 anos, logo emendando que "eles morreram por causa de um vulcão". E o papo continuou: "Eu vi um cara voando. Acho que era o Super-Homem!". A professora retomava a pergunta, mas o que importava para todos eram as idéias que os colegas apresentavam, uma atrás da outra. A situação ocorreu durante uma roda de conversa observada pelo escritor Antonio Prata e descrita no livro Escola Viva - produzido para a comunidade do colégio paulistano em que ele estudou na infância. Diálogos como esse são matéria-prima riquíssima não só para um autor, mas também para o educador atento.

Essa torrente de falas da garotada cria um rico espaço de aprendizagem e interação. Saber aproveitá-la no desenvolvimento da oralidade, da socialização e da construção de sentidos e conhecimentos é um desafio. Quando a escola busca referenciais teóricos nessa área e proporciona experiências significativas, dá aos pequenos a oportunidade de vivenciar a língua em seu uso real e fluente. E isso vai muito além de apenas fazer perguntas que suscitem respostas em coro. "Na situação ideal, há alternância de vozes e troca de percepções, permitindo que algo novo seja construído", explica Maria Virgínia Gastaldi, editora de Educação Infantil da Editora Moderna, em São Paulo. É na hora da conversa que aprendemos a ouvir, confrontar opiniões e reproduzir partes do discurso de outros, o que é comum até os 3 anos de idade.

 

As falas têm lógica, sim

O pensamento infantil não segue uma estrutura formal como a dos adultos, o que não quer dizer que ele seja desorganizado ou sem sentido. As associações que as crianças fazem entre elementos da experiência real e da imaginação - o chamado pensamento sincrético - produzem falas irreverentes e até poéticas.

Na CMEI Cecília Meireles, em Goiânia, os educadores identificaram que a garotada tinha necessidade de falar mais sobre o cotidiano e expor opiniões, desejos e dúvidas. O espaço foi aberto e, hoje, a atividade está presente em diversos momentos, com destaque para a elaboração da proposta pedagógica. Para chegar a esse nível, muitos obstáculos precisaram ser vencidos. "A dificuldade inicial foi preparar a equipe para, de fato, escutar a garotada", lembra o coordenador pedagógico Romilson Martins Siqueira.

As rodas são realizadas com todas as faixas etárias, com enfoques diferentes. Na turma de 1 e 2 anos, a professora Lucineide dos Santos favorece a interação, a oralidade e a visão do espaço coletivo, já que os recém-saídos do berçário estão acostumados com o tratamento individual. "Eles estão aprendendo a falar sobre si mesmos. Agora, já dizem que querem ir ao banheiro, mesmo com poucas palavras. Isso ajudou metade deles a largar as fraldas", conta.

Para as classes de 3 a 6 anos, a atividade amplia o universo cultural. Além de relatos sobre o cotidiano, são apresentadas questões relacionadas ao que tem sido trabalhado em sala.

Como toda ação pedagógica, a roda de conversa exige planejamento. "O educador deve intervir e mediar os diálogos para que não caiam no vazio", sugere Ana Rogéria de Aguiar, da Universidade Federal de Goiás. É importante promover a interação entre todos e estimular a discussão com perguntas. O momento vai ser mais produtivo se forem levantados temas que estejam de acordo com o ponto de vista curioso dos pequenos. A professora Gilda Maria de Carvalho, do CMEI Cecília Meireles, leva as crianças de 5 anos para conversar no pátio, debaixo de uma árvore. "Tudo o que acontece na rua em frente à escola vira assunto."

Em turmas numerosas, há o risco de dispersão. Por isso, despertar a atenção dos que se distraem é essencial. O fato de alguns ficarem em pé para se expressar não é empecilho. "O movimento deve ser entendido como parte do discurso", diz Daniela Pannuti, orientadora pedagógica do Colégio Vera Cruz, em São Paulo. "Mais relevante que o resultado final é o caminho do aprendizado, quando todos se deparam com o que ainda não conhecem", afirma Maria Virgínia Gastaldi.

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Contatos

Bibliografia

  • Gêneros Orais e Escritos na Escola, Bernard Schneuwly, Joaquim Dolz e colaboradores, 278 págs., Ed. Mercado de Letras, tel. (19) 3241-7514, 47 reais

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