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"Demos um salto, mas ainda há muito por fazer"

Pesquisadores e formuladores de políticas precisam se aproximar

POR:
Ana Ligia Scachetti
José Eustáquio Romão,

José Eustáquio Romão,
diretor da pós-graduação em Educação na Universidade Nove de Julho (Uninove), em São Paulo, e membro do Conselho Nacional de Educação (CNE)

Embora ainda existam problemas graves, a Educação brasileira tem conseguido avançar gradativamente para um patamar de maior qualidade. Para que esse movimento continue ocorrendo, é necessário, entre outros aspectos, que a interação entre os apontamentos das pesquisas realizadas sobre essa área e as decisões dos formuladores de políticas públicas se estreitem ainda mais. Acompanhe, na entrevista a seguir, as reflexões de José Eustáquio Romão, da Uninove, sobre como isso pode acontecer.

As políticas públicas poderiam se beneficiar mais do que é indicado pelos estudos e pesquisas em Educação?
JOSÉ EUSTÁQUIO ROMÃO É claro! Certa vez, na Uninove, promovemos um seminário no qual tentamos, e conseguimos, colocar tête-à-tête as agências financiadoras públicas de pesquisa, os pesquisadores da Educação, os responsáveis por formular e implementar políticas, e os que as concretizam na ponta. Foi uma discussão interessantíssima. Lamentavelmente, não tenho tido notícia de eventos da mesma natureza.

Como essa relação entre a produção dos pesquisadores e a decisão dos gestores pode ser aprimorada?
ROMÃO
Tenho participado de uma experiência interessante no Conselho Nacional de Educação (CNE). Há um recurso anual que só pode ser gasto com pesquisas e estudos encomendados por esse colegiado, no sentido de subsidiar os conselheiros com dados, informações e análises, para que melhor fundamentem e formulem seus pareceres nas centenas de processos que chegam. Assim, penso que os órgãos de governo formuladores de políticas poderiam ter recursos da mesma natureza, de modo a orientar as eventuais correções de rumos e ajustes de procedimentos.

Falta adequação dos estudos e das pesquisas (inclusive nos mestrados e nos doutorados) às necessidades das políticas?
ROMÃO
Muitas vezes, o distanciamento das pesquisas acadêmicas em relação aos problemas prioritários da realidade educacional brasileira é quase abissal. Parece que não têm prestígio as pesquisas que se voltam para a solução imediata de problemas. Em geral, são acusadas de pragmatismo. Esse é um vício que tem sido alimentado pela academia, a começar pelas propostas de dissertação e de tese que não podem se apresentar como projetos de intervenção, mas de investigação distanciada da realidade. Quase só têm prestígio aqueles trabalhos feitos para que apenas os iniciados possam ler e usufruir.

A descontinuidade das políticas, causadas pelas mudanças de governo, ainda é um problema? Como isso pode ser contornado?
ROMÃO
De um modo geral, planos, programas e projetos são abandonados pelas novas administrações, sem que haja uma profunda avaliação do que funcionava e do que não surtia efeito. São simplesmente interrompidos. No campo educacional, além das perdas materiais - mais visíveis no desperdício de obras públicas abandonadas sem serem acabadas -, ocorre o prejuízo de uma cultura da descrença fundada no recorrente fatalismo do "isso não tem jeito mesmo". Parece-me que o problema pode ser contornado com a progressiva expansão dos mecanismos de gestão colegiada direta, isto é, por meio dos conselhos de classe, escolares e municipais, com mandatos desencontrados dos agentes executivos.

As políticas públicas de Educação deram um salto positivo considerável desde a redemocratização do Brasil. Quais são os principais desafios daqui em diante?
ROMÃO
É inegável que demos um salto na área de Educação. No entanto, há muito por fazer. Há questões educacionais que ainda estão esperando respostas, como é o caso da Educação para a população da zona rural, da Educação de adultos e da Educação Infantil, segmento em que os educadores carecem de formação.

A formação de professores e gestores tem acompanhado esse salto?
ROMÃO
A formação continuada de gestores e professores tem sido fartamente desenvolvida no país. Resta saber se o que é oferecido responde às demandas dos profissionais e às necessidades reais dos sistemas e das escolas. Em um levantamento simples, realizado com professores da rede pública da cidade de São Paulo, constatamos que eles estavam fartos de formação e, nem assim, deixavam de apresentar uma espécie de desencanto com a profissão. Parece que estavam bem preparados em conteúdo e pedagogicamente, mas muito desacorçoados em relação à profissão e até mesmo em relação à própria vida. Atividades voltadas para o reencantamento com a carreira pareciam ser mais necessárias.

O que falta para mudar essa situação?
ROMÃO
Em primeiro lugar, precisamos superar a incompreensão de que o professor é a peça-chave do processo educacional. Sem sentimentalismos, é preciso cuidar melhor de nossos educadores. Se vivemos numa sociedade que proclama a prioridade da Educação, mas ainda discute se se deve pagar um piso salarial profissional, aonde ela quer chegar? Se nossas autoridades educacionais continuarem desconfiando do professor, avaliando-o por instrumentos externos, ameaçando-o com rankings, penalidades e comparações odiosas com os que ganham bônus, aonde querem chegar? É preciso confiar mais nos professores. E é necessário que os docentes sejam seduzidos, no bom sentido da palavra, pela causa da Educação de qualidade. Isso se faz com bons salários, boa formação profissional e boas condições de trabalho. Não há segredo nem mágica.

Como pode-se diminuir a distância entre os gestores da Educação e os educadores?
ROMÃO
Esse distanciamento diminuiu muito nas escolas de Educação Básica desde que surgiram os processos eleitorais para definição de diretores. Continuou grande e com tendência a aumentar nos sistemas educacionais em que a escolha dos gestores é feita por indicação ou por meio de concurso. A primeira modalidade deixa o dirigente a mercê de quem o indicou, em vez de transformá-lo em um representante da comunidade. O segundo modo de escolha o perpetua no cargo que deveria ter um mandato temporário. O melhor formato, a meu ver, é o que combina provas de avaliação de capacidade técnica, que a posição exige, a uma avaliação sobre a liderança, algo que só pode ser aferido nas urnas.


Foto: Flavio Santana

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