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Os estudantes em primeiro lugar

Conheça as sugestões dadas por especialistas para as insatisfações e os problemas apontados pelos jovens ouvidos na pesquisa da FVC

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NOVA ESCOLA

Quando o Ensino Médio foi estruturado, as características que diferenciam os alunos dessa etapa da escolaridade dos que ainda cursam o Fundamental pouco foram consideradas. Não por acaso, uma das críticas ao modelo que temos hoje é a completa falta de conexão entre os interesses e as necessidades dos adolescentes e o que a escola oferece. Na pesquisa da FVC, os jovens foram ouvidos e pontuaram questões importantes sobre a infraestrutura, a postura do professor e o uso da tecnologia, entre outras. A seguir, especialistas sugerem formas de articular o que eles pensam sobre a escola com a realidade da Educação brasileira e indicam rumos pelos quais as políticas na área poderiam evoluir, para que as questões mais relevantes sejam equacionadas. O investimento em equipamentos básicos e na formação profissional estão na lista. Mas o protagonismo juvenil e o respeito à diversidade cultural também mereceram destaque.

 

Aproximar a escola do universo dos alunos

O jovem do Ensino Médio deve ser ao mesmo tempo sujeito e objeto da ação do seu desenvolvimento. Ele precisa ser envolvido nas questões escolares que o afetam, na condição de líder de turma, por exemplo, levando aos gestores reivindicações e ideias. Os adolescentes também podem participar de projetos de preservação do patrimônio escolar, de bandas de música e de círculos de leitura, além de outros, que ultrapassem os muros escolares, como os de preservação ambiental. "O ideal é que esses projetos dialoguem com os interesses dos estudantes mas também que estejam integrados com o projeto pedagógico das disciplinas. Eles não devem ser dissociados dos objetivos estabelecidos para cada série", afirma Marcos Magalhães, presidente do Instituto de Co-Responsabilidade pela Educação.

 

Garantir professores presentes e preparados

Para tratar a questão do absenteísmo, é necessário atuar em diversas frentes. O salário é um ponto importante, mas está longe de ser o único. "Os professores têm de ser capacitados e estar preparados para lidar com as necessidades e expectativas dos jovens. Oferecer um plano de carreira a eles e resgatar o status da profissão são outras questões relevantes", diz Laura Laganá, diretora superintendente do Centro Paula Souza. Para Magalhães, o ideal é manter os que trabalham em tempo integral lecionando em apenas uma escola. "Só com a dedicação exclusiva, o professor consegue cumprir suas funções a contento."

 

Proporcionar aprendizado significativo

O aluno que vai à escola pensando exclusivamente na obtenção do diploma o faz porque não vê sentido nas atividades apresentadas pelos professores ou prazer no aprendizado. Para mudar essa realidade, propor aulas mais dinâmicas, práticas e com o uso de recursos didáticos diferenciados - além da lousa e dos livros - é uma boa estratégia. "A escola também pode aproveitar a necessidade de socialização, característica dos jovens, para estimulá-los a trabalhar em grupos e a participar mais de fóruns e discussões na sala de aula", sugere a pesquisadora Priscila Albuquerque Tavares, da Fundação Getulio Vargas (FGV).

 

Usar as novas tecnologias com propósito pedagógico

A escola deve estar comprometida com o objetivo de desenvolver, no jovem, as competências exigidas dele no século 21, o que evidentemente inclui o domínio das novas tecnologias. Ainda assim, não basta ampliar o acesso aos computadores. "Os professores precisam estar capacitados para utilizá-los como uma ferramenta para melhorar a qualidade da aula", defende Magalhães. "É preciso desenvolver nos alunos uma consciência crítica acerca das tecnologias. Elas devem ser uma ferramenta e estar alinhadas com um conteúdo pedagógico", diz Raquel Souza, da Ação Educativa.

 

Diversificar modelos de formação

O público que chega ao Ensino Médio é heterogêneo. E a escola precisa oferecer apoio aos mais diversos projetos de vida desses alunos, para além da formação básica. "Nesse sentido, é preciso contemplar os interesses dos que desejam ir para a universidade, dos que trabalham ou desejam fazer isso, dos que pretendem seguir carreira técnica ou empreender", diz Magalhães. Para atender a essa demanda, uma opção seria flexibilizar o currículo, disponibilizando um número maior de disciplinas eletivas, ou pensar em modelos de escolas que atendam às diferentes juventudes.

 

Melhorar a infraestrutura

Garantir a existência e o bom funcionamento dos equipamentos básicos dentro da escola, como quadras de esportes, bibliotecas e laboratórios de informática, é condição essencial para que esse nível de ensino atenda às necessidades dos estudantes. Além disso, é preciso oferecer capacitação aos professores para que eles possam aproveitar da melhor forma todos esses recursos nas aulas que ministram. Um terceiro ponto importante é pensar em meios de evitar a depredação das instalações. Nesse sentido, as escolas podem criar projetos que envolvem os alunos, as famílias e a comunidade, tornando-os corresponsáveis pelo espaço. "Quando os estudantes entendem que a escola é deles, caem muito os problemas de má conservação", diz Laura.

 

Zelar pela segurança

A questão da violência não é exclusiva das escolas, é uma realidade que envolve todo o país. No entanto, para atacar o problema dentro delas, um caminho seria dar ao jovem a oportunidade de participar mais ativamente da dinâmica escolar. Isso se daria por meio de um maior envolvimento dele no processo de ensino e aprendizagem e da valorização de suas competências individuais. "Também é importante incentivar a comunidade a participar da escola. Ela deve conhecer os projetos, opinar e ser ouvida, na medida do possível. Em geral, isso contribui para diminuir os conflitos", diz Laura.