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Os desafios do professor

O autor da pesquisa sobre a juventude e a escola fala sobre um dos principais agentes de mudança no Ensino Médio

POR:
NOVA ESCOLA
Haroldo da gama torres,

Haroldo da gama torres,
economista; mestre em Demografia pela UFMG e doutor em Ciências Sociais pela Unicamp.

Para boa parte dos alunos, o professor ocupa uma posição de destaque na escola, sendo considerado um dos maiores representantes da instituição. A qualidade do vínculo estabelecido entre eles e o docente influencia a avaliação que fazem da disciplina, dos conteúdos estudados e até mesmo da escola. Esses foram alguns dos achados da pesquisa desenvolvida por Haroldo da Gama Torres. Ele estabelece um paralelo entre muitas das opiniões dos alunos e o que elas mostram sobre os novos desafios da docência, em particular no Ensino Médio, além de traçar um perfil do professor que os jovens preferem.

 

Como os educadores podem aproveitar a influência que têm sobre os alunos para melhorar a aprendizagem?

HAROLDO DA GAMA TORRES Na percepção dos entrevistados, o bom professor consegue produzir vínculos, despertar o interesse para a disciplina que ensina e trazer os conteúdos para a vida dos alunos estabelecendo, de algum modo, paralelos que deixam a experiência do aprendizado menos abstrata. O pior professor, na opinião deles, só fica escrevendo na lousa, de costas para a sala, não tira dúvidas, não dialoga e, muitas vezes, adota um registro repressivo. O discurso dos estudantes não passa pela competência técnica do professor, mas pela natureza do contato estabelecido entre eles. Os vínculos formados com os educadores influenciam na percepção geral que os adolescentes têm sobre a escola, tanto entre os que ainda estudam quanto entre os que abandonaram.

 

A questão do absenteísmo dos professores é um dos grandes problemas enfrentados no Ensino Médio. Qual o impacto das faltas constantes na trajetória dos alunos?

TORRES Quando olhamos a avaliação da escola ou do professor, feita pelos alunos, as faltas parecem não influenciar muito. Há uma postura indulgente deles com os educadores que se ausentam. Os próprios jovens reconhecem que os professores trabalham demais, ganham mal e têm vários empregos. Por outro lado, quando fazemos a modelagem de dados para entender as razões de abandono, os níveis de faltas muito altos aparecem como um motivo importante de evasão. Nas entrevistas em profundidade com os que abandonaram, esse aspecto é significativo. Não dá para afirmar que eles deixaram a escola por causa disso, mas talvez tenha sido a gota dágua. Quem já repetiu várias vezes e olha para o mercado questiona ainda mais a validade da escola diante de problemas como esse e opta por outros caminhos.

 

A escola não parece preparada para lidar com as variadas culturas e estilos juvenis. Existem alternativas para isso?

TORRES A pesquisa não tocou exatamente nessa questão. Mas eu conheço outras pesquisas e até experiências de sucesso de escolas de Ensino Médio que incorporaram, por exemplo, a música e a dança em algum momento do processo educacional, na tentativa de construir um diálogo entre o saber institucionalizado e os elementos da cultura popular, do universo jovem. Com um pouco de esforço, é possível garimpar, em todas as disciplinas, conteúdos familiares que permitam conectar o que se aprende na escola e a realidade. E o principal agente facilitador no processo é o professor.


A zoeira, ou indisciplina, é uma resposta à falta de reconhecimento da identidade dos jovens ou da falta de autonomia deles no ambiente escolar? Como os professores podem lidar com ela?

TORRES Durante a pesquisa, visitei algumas escolas limpas, organizadas e que respeitam e incentivam o protagonismo juvenil. Nelas, a zoeira não é um problema. Os jovens ali participam de bandas de música, concursos e campeonatos de esportes, por exemplo. Na outra ponta, em escolas onde as regras não são claras e tudo é largado, a autoridade, seja dos gestores, seja dos professores, se dilui.

O bom professor consegue produzir vínculos, despertar o interesse para a disciplina que ensina e trazer os conteúdos para a vida dos alunos.

Os alunos dominam os recursos tecnológicos e, nessa área, sabem mais do que os seus professores. De que forma isso desestabiliza a relação aluno e professor?

TORRES Precisa haver um esforço coletivo dos atores envolvidos com a Educação no país para inserir a escola no mundo digital. O professor não deve ser mais aquele que traz a informação, que elabora a aula expositiva, mas aquele que dialoga em classe sobre o conteúdo que os alunos muitas vezes já acessaram fora da escola. Em experiências desse tipo no exterior, o mestre se torna um mediador. Na pesquisa, 60% dos jovens afirmaram possuir um celular inteligente. Então, em vez de sermos reativos ou negarmos a penetração da tecnologia na escola, proponho vê-la como uma oportunidade de construir novos tipos de relacionamento e formatos para transmitir os conteúdos e estimular a aprendizagem.

 

A pesquisa aborda também a falta de mediação, por parte do professor, entre as turmas da frente e as do fundão.

TORRES Há professores que simplesmente ignoram os conflitos entre os alunos. Já em algumas escolas, eles conseguem fazer essa mediação, com benefícios para o clima da classe e o da escola. Os professores que ouvem os alunos e criam espaços de diálogo entre eles são os que estabelecem condições interessantes para o aprendizado.

 

Em várias circunstâncias, os professores pertencem a um grupo social distinto dos alunos, com diferentes níveis de formação, valores e visões de mundo. E a escola de periferia é percebida como a mais difícil para lecionar. A pesquisa captou situações de preconceito na relação aluno e professor?

TORRES Esse conteúdo emergiu numa pesquisa anterior que fiz, envolvendo 800 professores. Aqueles de situação econômica precária têm uma postura mais acolhedora com os jovens mais pobres, pois se identificam com esses alunos e se preocupam realmente com a aprendizagem deles. Por outro lado, é verdade que há professores de classe média com muita dificuldade de dialogar com alunos economicamente menos favorecidos. Na minha pesquisa apareceram, inclusive, recortes raciais. E essa questão, obviamente, tem impacto sobre a aprendizagem. Se o professor não acreditar que o aluno pode aprender e se não construir vínculos, fica mais difícil ensinar. Nesse sentido, os conflitos geracionais e de classe têm uma grande importância e precisam ser olhados com bastante atenção.

 

Como deveria ser a formação inicial e continuada dos professores do Ensino Médio?

TORRES Devo ressaltar a importância de oferecer aos professores uma formação mais pragmática e menos teórica e abstrata. Porque é disso que os estudantes mais reclamam. Até agora, discutimos como a escola deveria ser. Chegou a hora de discutir como a escola é e como lidar com a realidade atual. É preciso pensar em alternativas que ajudem o professor a se relacionar com o aluno que já chega ao Ensino Médio mal preparado, vive em condições precárias e tem experiências de vida difíceis. Esse ainda é um grande desafio para todos nós que nos preocupamos com a Educação.


Foto Flavio Santana

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