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Avaliar beneficia o aprendizado

Para a pesquisadora, a prática regular de autoavaliações e o monitoramento constante pela rede de ensino impactam a melhoria do serviço

POR:
Verônica Fraidenraich
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Embora o atendimento à faixa etária de até 6 anos conte com pelo menos uma ferramenta de autoavaliação - os Indicadores da Qualidade na Educação Infantil, do Ministério da Educação (MEC) -, são poucas as unidades que a utilizam. É consenso, porém, que instrumentos desse tipo trazem ganhos para o trabalho pedagógico e social das unidades. A pesquisa A Gestão da Educação Infantil no Brasil constatou, por exemplo, que, em iguais condições de estrutura, o grupo de instituições que avalia os professores se sai melhor do que o que não utiliza tal recurso. Essa conclusão resulta de uma metodologia estatística que concluiu: as pré-escolas mais bem avaliadas nos aspectos de gestão levantados nesse estudo têm traços comuns com as instituições mais bem pontuadas em uma análise anterior, feita com base em indicadores de qualidade*. O cruzamento dos dados revelou também que a Secretaria de Educação é determinante na qualidade do atendimento quando promove uma supervisão constante e formativa. Para Maria Malta Campos, garantir o apoio da rede de ensino e fomentar a prática de autoavaliação é um desafio que se impõe à sociedade e exige esforços do poder público.

 

Qual a importância das ferramentas de avaliação na melhoria da Educação Infantil?

MARIA MALTA A análise do trabalho docente é um componente da qualidade dos serviços oferecidos pela instituição. Observar os professores e as condições de desenvolvimento e de aprendizagem que as crianças encontram nas creches e pré-escolas faz com que os gestores detectem os problemas antes de eles se tornarem graves e implementem intervenções para aprimorar a parte pedagógica. Contudo, para o sistema funcionar, a escola deve promover a autoavaliação com o apoio das prefeituras, que são corresponsáveis pela melhoria do atendimento.

 

Que aspectos são avaliados nas instuições?

MARIA MALTA A rotina e as atividades oferecidas são as primeiras coisas a serem observadas. É preciso verificar a existência de um programa bem orientado e aplicado no cotidiano. Para crianças de até 6 anos, ter espaço para as brincadeiras, a socialização e o desenvolvimento motor amplo faz diferença, assim como o incentivo à ampliação do conhecimento de mundo. Garantir o acesso a uma boa Educação Infantil contribui para que os resultados da aprendizagem de um aluno sejam positivos durante toda a escolaridade. Os critérios e as formas de acompanhamento da proposta pedagógica devem se ajustar à especificidade desse segmento.

 

Os Indicadores da Qualidade na Educação Infantil atendem às particularidades do segmento?

MARIA MALTA Sim. Trata-se de uma metodologia participativa de autoavaliação na qual podem tomar parte todos os profissionais da escola e também os pais das crianças. A finalidade é traçar um diagnóstico das atividades desenvolvidas. Depois, com a análise dos resultados e a sistematização dos dados, os gestores podem elaborar coletivamente um plano de ação conforme as necessidades. Uma análise do uso do Indicadores, feita com a colaboração da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), apontou que 50% das prefeituras confirmaram ter recebido o documento do MEC. Dessas, 30% disseram usá-lo no monitoramento da rede. Nesse caso, o instrumento teria de ser adaptado, visto que não foi feito com tal propósito. Mas é importante que ele sirva de orientação à supervisão das unidades.

 

Essa avaliação deveria ser obrigatória?

MARIA MALTA Os governos locais têm autonomia para decidir sobre os programas educacionais que querem adotar. Seria difícil prever uma obrigação nesse contexto, ainda mais se considerarmos as diferenças entre os mais de 5 mil municípios brasileiros. O que podemos dizer é que, numa democracia, espera-se que todas as instituições e políticas públicas, inclusive as educacionais, tenham acompanhamento e sejam submetidas ao controle social.

 

Faz sentido criar um teste de conhecimento para as crianças de até 6 anos?

MARIA MALTA Uma avaliação individual compulsória para essa faixa etária não é desejável nem adequada. Exames como a Prova Brasil e o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb) avaliam as redes com base no desempenho dos estudantes em provas objetivas. Sua realização pressupõe a definição de conteúdos e habilidades que, se espera, sejam dominados pelos alunos em determinadas etapas. Os aspectos observados na Educação Infantil não se encaixam num sistema de avaliação individual.

 

De que maneira as redes podem acompanhar o desempenho das unidades ao longo do ano?

MARIA MALTA Elas procuram fazer isso por meio dos supervisores de ensino - os técnicos da Secretaria de Educação que têm como função observar o funcionamento das escolas em todos os seus aspectos - pedagógicos inclusive. Contudo, eles mesmos sentem falta de recursos e orientações mais objetivas sobre como dar esse apoio e o que observar. Além disso, há um grande número de estabelecimentos que cada um deles precisa visitar. Somente a priorização da função de supervisão poderia mudar o cenário da Educação Infantil, pois ela é o elo entre o governo e as escolas.

 

As escolas resistem ao monitoramento?

MARIA MALTA Sim, especialmente as unidades privadas - as particulares e as conveniadas. Nessas últimas, as Secretarias disseram ser difícil implantar melhorias em relação à contratação dos professores, formação, infraestrutura e currículo, mesmo dependendo do subsídio público para funcionar. O MEC tem um documento de orientação para esses convênios, mas nem todas as capitais pesquisadas o consideram. Nas particulares, são encontradas dificuldades semelhantes de fiscalização. Há, inclusive, muitos casos de estabelecimentos que nao oferecem as mínimas condições de qualidade.


* Os indicadores de qualidade foram elaborados com base na Escala de Avaliação de Ambientes de Pré-Escola (ECERS-Revised), utilizada na pesquisa Educação Infantil no Brasil - Avaliação Qualitativa e Quantitativa, de 2010, coordenada por Maria Malta Campos. O estudo pontua as unidades segundo a presença de uma série de itens relacionados aos ambientes frequentados pelas crianças e às atividades desenvolvidas pelos professores.
Foto: Raoni Maddalena

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