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Professor e auxiliar: ação em conjunto

É preciso repensar as carreiras desses profissionais e garantir que eles atuem de forma articulada

POR:
Caroline Ferreira

De que a Educação Infantil é uma etapa importante da Educação Básica, ninguém mais duvida. Afinal, as vivências que acontecem nos primeiros anos de vida são marcantes para o desenvolvimento integral da criança. Portanto, os adultos responsáveis por cuidar das crianças de até 6 anos em creches e pré-escolas deveriam ser muito bem formados. A eles cabe instigar e promover as relações, interações e brincadeiras que tragam às crianças experiências diversas, com a finalidade de ampliar o conhecimento de si e do mundo, facilitar o acesso a diferentes linguagens e o uso delas no dia a dia e a aquisição de autonomia para participar de atividades individuais e coletivas.

Lidar com essas especificidades requer muito estudo - o que nem sempre é garantido nos cursos de formação inicial nem oferecido na formação continuada - e tempo para planejar - muitas vezes, ausente da rotina desses profissionais. De acordo com a pesquisa da Fundação Victor Civita (FVC), apesar de a maioria dos professores de Educação Infantil ser formada em Pedagogia, apenas 35% fizeram uma especialização na área (leia mais sobre o perfil docente no quadro abaixo).

"Além de conhecer as etapas do desenvolvimento da faixa etária atendida por creches e pré-escolas, o docente precisa saber como a criança pequena aprende", diz Regina Magna, professora do Departamento de Educação da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e especialista em Gestão e Políticas Públicas da Educação.

Já os auxiliares - também chamados de assistentes, cuidadores e recreacionistas - têm concluído, em geral, apenas o Ensino Médio. Todavia, a pesquisa destaca a necessidade de esse profissional trabalhar de forma articulada com o professor e ter assegurados os horários de formação em serviço. Isso porque, além dos cuidados rotineiros - como trocar fraldas, alimentar, fazer a higiene bucal, dar banho e colocar para dormir -, ele participa de ações educativas e atividades pedagógicas. Em diversos momentos, o auxiliar costuma ficar sozinho com a turma, principalmente quando há programação no contraturno - o que não é adequado.

Cabe à rede de ensino reservar espaço e tempo para que professor e auxiliar planejem juntos e essas horas sejam valorizadas e incorporadas à jornada de trabalho. Dentro dessa perspectiva, é imprescindível a presença de um coordenador pedagógico em cada unidade, que seja capaz de promover a capacitação em serviço, e de um supervisor que apoie e oriente as equipes gestora e docente (leia outras recomendações no quadro mais abaixo).

Perfil do professor da Educação Infantil

Dados sobre a experiência acadêmica e profissional, segundo as respostas dos 281 docentes da rede direta e conveniada das seis capitais analisadas


Gênero

  • 98,6% são do sexo feminino

Faixa etária 

  • 39,1% até 34 anos 
  • 41,3% entre 35 e 44 anos 
  • 18,9% 45 anos ou mais

Formação inicial 

  • 82,2% têm formação superior 
  • 53,0% têm pós-graduação

Jornada de trabalho

  • 53,7% cumprem 40 horas ou mais

Formação em serviço 

  • 41,3% têm mais de 40 horas 
  • 49,5% têm 40 horas ou menos

Equipe extra substitui auxiliares

Em Curitiba, a Secretaria Municipal de Educação garante que, além dos cursos oferecidos pela rede, o auxiliar participe das duas horas semanais de trabalho coletivo em serviço, contando sempre com o apoio de um formador. "O planejamento conjunto me ajuda a identificar as dificuldades das crianças com mais rapidez", afirma Célia Regina da Rosa, auxiliar da CMEI Lala Schneider (leia abaixo outros depoimentos da equipe).

Para que isso seja possível, cada estabelecimento conta com uma equipe de permanência, que nada mais é do que um grupo de auxiliares que cuidam das crianças enquantos os colegas participam dos momentos de formação. "Esses substitutos, por sua vez, também têm tempo garantido para a formação e o planejamento", explica Adriana Collodel, pedagoga de uma das sedes regionais da Secretaria.

Além de assegurar a contratação desse pessoal, a supervisão do município realiza visitas periódicas em todas as unidades, promove capacitações regulares, fornece material de apoio e orienta na elaboração do plano de ação - documento que explicita os objetivos de aprendizagem para cada faixa etária que devem ser atingidos ao longo do ano.

Equipe articulada

"Fazemos o planejamento do ano com a coordenadora e os auxiliares para acompanhar a aprendizagem."
Maria Eliza Fernandes da Silva (à esquerda), professora do CMEI Lala Schneider, em Curitiba

"Quando substituímos os colegas, as ações realizadas seguem a proposta pedagógica da instituição."
Gisele Cardoso (segunda da esquerda para direita), auxiliar da equipe de permanência do CMEI Lala Schneider

"Se a criança tem dificuldades, eu e a professora preparamos atividades para ajudá-las a atingir os objetivos pedagógicos"
Célia Regina da Rosa (segunda da direita para esquerda), auxiliar do CMEI Lala Schneider

"Todo o nosso trabalho é seguido de perto pela supervisão de ensino. Tenho reservadas quatro horas semanais só para o meu aprimoramento."
Vera Lucia Martins (à direita), coordenadora pedagógica do CMEI Lala Schneider

Troca de experiências enriquece reuniões

Segundo o estudo da FVC, 90% dos professores participam de capacitações. No entanto, mais da metade (49,5%) dispensa menos de um terço da carga horária para atividades extraclasse, portanto, tempo inferior ao previsto na Lei do Piso Salarial do Magistério. Além disso, os encontros têm pouca referência aos problemas enfrentados por esses educadores no dia a dia. "A disponibilidade de tempo regulamentado permite ao coordenador realizar uma formação encadeada e contínua", afirma Beatriz Abuchaim, assistente de pesquisa da Fundação Carlos Chagas (FCC), em São Paulo, que colaborou com o estudo: "Os docentes entrevistados disseram sentir falta de orientação específica, por exemplo, quanto ao uso de certos materiais pedagógicos ou mesmo sobre como trabalhar com crianças com necessidades especiais de aprendizagem", afirma Beatriz.

Estar atento às demandas do grupo é imprescindível. Foi graças às conversas ocorridas nos encontros formativos que os professores do CEI Ramza Bedoglin Domingos, em Campo Grande, constataram que a organização dos espaços e disposição dos móveis prejudicava a realização de certas atividades educativas. Juliana Pereira da Silva, coordenadora pedagógica da escola, transformou o assunto em pauta de reunião, providenciando vídeos e textos de apoio. Durante a análise de dados e o debate, o grupo chegou à conclusão de que era preciso fazer mudanças. "Percebemos que os ambientes tinham poucas áreas livres para circulação e isso levava as crianças a ficar constantemente próximas umas das outras, chegando, inclusive, a se trombar", diz Juliana. A solução encontrada foi retirar parte das mesas e cadeiras que dificultavam a movimentação.

 

Partilhar registros facilita planejamento

Em Mogi das Cruzes, município da Grande São Paulo, o trabalho articulado faz parte da rotina das creches e pré-escolas da rede. No CEIM Sebastião Silva, a coordenação pedagógica criou, junto com a equipe docente e os auxiliares, uma planilha comum, que fica arquivada no computador da sala de professores. Ela permite o compartilhamento de informações gerais sobre as crianças e sobre os avanços alcançados em relação aos objetivos estabelecidos.

A coordenadora Helaine Cristina Bio Margarido explica que essa foi a maneira encontrada para centralizar as anotações feitas nos diários de classe por cada um dos educadores. "Agora, o documento fica acessível para que todos o alimentem e consultem sobre as práticas realizadas diariamente", afirma a professora Maria Inês de Mello Faria Peixoto de Miranda. Para a auxiliar Maria Clara Assumpção, essa organização facilita o seu trabalho. "Sabemos quais projetos estão em andamento e se as expectativas de aprendizagem estão sendo contempladas. Isso nos ajuda a dar prosseguimento às atividades" (leia abaixo outros depoimentos da equipe).

Diálogo constante

"As auxiliares são tão educadoras quanto as professoras e devem ser incluídas no trabalho de planejamento e formação."
Helaine Cristina Bio Margarido (à esquerda), coordenadora pedagógica do CEIM Sebastião Silva, de Mogi das Cruzes

"O diálogo constante e o trabalho conjunto são essenciais para as equipes de professoras e auxiliares. Para isso, é preciso tempo e espaço físico adequados."
Maria Inês de Mello Faria Peixoto de Miranda (centro), professora do CEIM Sebastião Silva

"Cada professor tem um projeto específico. A ação das auxiliares segue os mesmos temas e objetivos. Então o processo fica mais claro quando planejamos e sistematizamos tudo juntos."
Maria Clara Assumpção Ferreira (à direita), auxiliar do CEIM Sebastião Silva

Recomendações dos especialistas

Às Secretarias Municipais de Educação

  • Elaborar e implementar planos de carreira para todos os profissionais da Educação Infantil, garantir a isonomia profissional e definir com clareza e objetividade as atribuições de cada função, considerando as especificidades do segmento.
  • Garantir aos professores e auxiliares horas de trabalho remuneradas para planejamento e formação continuada.
  • Implementar uma política de formação continuada baseada nas demandas da rede e dos profissionais.
  • Integrar a supervisão de ensino com a política de formação continuada e a proposta pedagógica do município.
  • Viabilizar o trabalho dos supervisores com a definição das suas atribuições, o devido dimensionamento das equipes e a elaboração de documentos orientadores e instrumentos de acompanhamento pedagógico e administrativo.
  • Garantir um coordenador pedagógico por escola, com carga horária semanal de 40 horas, e oferecer capacitações para que ele possa lidar com as especificidades da Educação Infantil.
  • Implementar uma política de integração da Educação Infantil e do Ensino Fundamental com base no acompanhamento contínuo da trajetória escolar das crianças.
Fotos: Marcelo Almeida e Marina Piedade

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