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O que mais sabemos sobre nossos alunos?

Além de compreender as mudanças pelas quais os adolescentes passam, é necessário observar como se relacionam com o mundo em que vivem

POR:
NOVA ESCOLA
Maria do Carmo Brant,

Maria do Carmo Brant,
doutora em Serviço Social, pesquisadora e consultora, foi superintendente do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec)

Trago aqui uma pequena reflexão sobre a pesquisa da FVC. O relatório mostra que os alunos desta fase são pré-adolescentes de 11 e 12 anos e adolescentes de 13 e 14, que vivem em um particular ciclo da vida: já não são crianças e nem tampouco jovens. Mas o que mais sabemos sobre eles?

Além de estarem passando pelas mudanças da puberdade, esses alunos navegam na complexidade da sociedade contemporânea. São nativos da era digital e informacional; apresentam outra racionalidade cognitiva na qual o aprender se faz descentrado e difuso. São capazes de acessar um conjunto simultâneo de informações e conhecimentos espraiados em vários espaços que não mais apenas a escola. Transitam por meios e circuitos virtuais e navegam por links e hiperlinks nada sequenciais e lineares.

Contraditoriamente, no entanto, não agarram as informações e saberes que acessam. Carecem da mediação que a escola nem sempre realiza. Sentem-se abandonados e inseguros para lidar com o excesso cultural e com informações instantâneas mundiais e locais que lhes chegam isoladas, vulneráveis e fora de ordem. Vivem mergulhados no presente. Querem aprendizagens ágeis e vivenciadas, e não se adaptam à escola.

Os adolescentes querem um saber fazer, não apenas um saber. Querem oportunidades alargadas de sociabilidade, que praticamente não possuem - apesar de serem algo essencial nesse período de construção de identidade. Desgarraramse das saias da mãe ou da "tia". A preferência agora são os pares, o grupo de amigos que escolhem para responder a suas necessidades de comunicação, autonomia, trocas afetivas e de identidade.

As resistências em relação à escola começam com a enorme dificuldade de serem reconhecidos na busca de sociabilidade. A paixão pela relação os torna irrequietos, dispersos e afastados dos conteúdos. Rotinas, regras e recortes escolares acabam por cercear a socialização.

Há uma visível incivilidade no trato das relações e dos espaços institucionais de convivência. Essa incivilidade tornouse uma prática banalizada no interior das escolas - até porque vivemos numa sociedade cunhada por interesses individuais, em que não se sabe mais desenvolver valores ligados ao bem comum.

A prática do zoar marca as relações entre os adolescentes, sobretudo quando se veem diante de situações que fogem ao controle, e é aceita e valorizada entre os pares. A atitude é mais um ato de irreverência e de afirmação no jogo das relações do que propriamente bagunça, mas é um dos pesadelos dos professores - interpretada como indisciplina. Perdese então o respeito mútuo.

A mesmice da escola desmotiva seus alunos adolescentes. Há um claro conflito entre as promessas postergadas para o futuro e a urgência em obter respostas para o presente. Querem saber viver e mover-se com maior segurança frente às demandas que os cercam. Querem aprendizagens convertidas em competências no seu uso imediato. Em outras palavras, precisam de conhecimentos úteis e contextualizados que lhes possibilitem ligar e religar fatos e significados, realizar mediações, expressar, argumentar, pesquisar, construir nexos de compreensão do mundo e de si.

Equalizar esses aspectos e rever a maneira como os anos finais do Ensino Fundamental estão organizados são um grande desafio. O que está claro, no entanto, é que não se pode mais ignorar quem são e o que pensam esses meninos e meninas que passam pela escola.


Montagem sobre foto de divulgação

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