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Profissionais distantes do público

Os docentes são os mesmos do Ensino Médio, mas os alunos são bem diferentes. Saiba como isso impacta a sala de aula

POR:
Tatiana Pinheiro

Para dar aulas do 6º ao 9º ano, o professor precisa ter licenciatura plena em uma das disciplinas do currículo, como Língua Portuguesa, Matemática, História e Geografia. Com essa mesma formação específica, ele também pode lecionar para turmas do Ensino Médio. O problema é que os estudantes dessas duas fases escolares são bastante diferentes e, muitas vezes, o educador não se dá conta disso.

Declarações dos professores entrevistados para a pesquisa denotam que muitos se decepcionam com os jovens de 11 a 14 anos (leia depoimentos analisados por especialistas). Para eles, os alunos não conseguem se comportar com o mínimo de maturidade, não demonstram interesse pela aquisição de conhecimento e, muito menos, valorizam a figura do professor.

 

Formação em xeque

Parte dessa percepção negativa ocorre porque a formação desses especialistas se atém mais aos conteúdos de suas disciplinas do que às questões pedagógicas e às particularidades dos estudantes mais novos, que ainda estão no início da adolescência. As discussões nos cursos de graduação passam ao largo das questões práticas que afetam meninos e meninas nesse período escolar - como ter cadernos distintos para cada disciplina, entregar lições e trabalhos com periodicidades irregulares, iniciar o uso da agenda, organizar o tempo de estudo em casa de forma autônoma, etc.

Aspectos da capacidade de compreensão dos alunos também não são objeto de reflexão na formação inicial. "Esses jovens não estão prontos para aprender como os educadores gostariam", explica a consultora Bernardete Gatti. Essa garotada precisa de ajuda para dominar o pensamento abstrato e a linguagem própria dos novos conteúdos.

Muitas vezes, os professores também caem na armadilha de seguir, estritamente, o planejamento de aulas, passando pelos conteúdos estipulados sem estabelecer conexões com o que os estudantes já sabem - ou deveriam saber - e sem considerar os conhecimentos não adquiridos por eles nos anos anteriores.

 

Alguns caminhos a seguir

Se, do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental, os alunos nutrem um carinho quase incondicional por seus docentes, isso se torna raro daí em diante. O que funciona com essa moçada é um professor "admirado por sua forma de ensinar, pelo compromisso que demonstra ter com os alunos, pelo cuidado em apresentar uma aula coerente e organizada, e pela correção cuidadosa e respeitosa que faz dos trabalhos solicitados", diz o estudo.

Nesse sentido, formações continuadas podem ser proveitosas, desde que explorem as características próprias desta faixa etária e trabalhem formas eficientes de atribuir significado ao conhecimento e à escola. Mas de nada vale isso se os docentes não construírem uma visão positiva de seus estudantes. Confiar neles e se preocupar com o futuro deles faz parte do processo de ensino e aprendizagem.


Ilustrações: Gabriel Lora