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Pierre Bourdieu

O pesquisador da desigualdade em sala de aula

POR:
NOVA ESCOLA
Pierre Bourdieu: investigação sociológica do conhecimento   Crédito: Wikimedia Commons/Wikipedia

Embora a maioria dos grandes pensadores da Educação tenha desenvolvido suas teorias com base numa visão crítica da escola, só na segunda metade do século 20 surgiram questionamentos bem fundamentados sobre a neutralidade da instituição. Até então, a instrução era vista como um meio de elevação cultural que se encontrava mais ou menos à parte das tensões sociais. O francês Pierre Bourdieu (1930-2002) empreendeu uma investigação sociológica do conhecimento que detectou, na circulação dos bens culturais e simbólicos, um jogo de dominação e reprodução de valores.

Outros pensadores, como o francês Michel Foucault (1926-1984) e a argentina Emilia Ferreiro, fizeram análises semelhantes. Todos exerceram influência nos ambientes pedagógicos (leia mais no quadro abaixo) entre as décadas de 1970 e 1980. Depois disso, as teorias de reprodução de Bourdieu foram criticadas por exagerar a visão pessimista sobre a escola, diz Cláudio Martins Nogueira, da Universidade Federal de Minas Gerais. Vários autores passaram a mostrar que nem sempre as desigualdades sociais se reproduzem completamente na sala de aula.

Na essência, contudo, as conclusões de Bourdieu não foram contestadas. Na mesma época em que as restrições a sua obra acadêmica se tornaram mais frequentes, a figura pública do sociólogo ganhou notoriedade pelas críticas à mídia, aos governos de esquerda da Europa e à globalização (leia mais no quadro abaixo). Ele costuma ser incluído na tradição francesa do intelectual público e combativo, a exemplo do escritor Émile Zola (1840-1902) e do filósofo Jean Paul Sartre (1905-1980). Mesmo em seu trabalho de circulação mais restrita, Bourdieu foi um caso raro de cientista social que, durante toda a carreira, conciliou pesquisa de campo e reflexão teórica ele via na atividade intelectual um terreno de luta contra o que considerava injusto. 

Os sutis artifícios de perpetuação

Para Bourdieu, a escola é um espaço de reprodução de estruturas sociais e de transferência de capitais de uma geração para outra. 

É nela que o legado econômico da família transforma-se em capital cultural. E este, segundo o sociólogo, está relacionado ao desempenho dos alunos na sala de aula. Eles tendem a ser julgados pela quantidade e pela qualidade do conhecimento que já trazem de casa, assim como por várias heranças, como a postura corporal e a habilidade de falar em público. Só os alunos oriundos das camadas superiores da sociedade têm como responder às expectativas do sistema de ensino, diz Cláudio Nogueira. A escola costuma considerar essas características como naturais nos alunos das classes mais altas, assim como costuma ver nas crianças menos privilegiadas economicamente um desafio. Pior que isso, os próprios estudantes mais pobres acabam encarando a trajetória dos bem-sucedidos como resultante de um esforço recompensado. Nesse contexto, a avaliação escolar funciona como um julgamento moral e estético, além de exercer uma triagem social. Uma amostra dos mecanismos de reprodução de desigualdade está no fato, facilmente verificável, de que a frustração com o fracasso escolar leva muitos alunos e suas famílias a investir menos esforços no aprendizado formal, desenhando um círculo que se auto alimenta. Ao mesmo tempo, quanto maior o acesso a um certo grau de ensino, menos ele é valorizado como capital cultural. Nos primeiros livros, Bourdieu previa a possibilidade de superar essa situação se as escolas deixassem de supor o que os alunos trazem de casa e partissem do zero, ensinando a todos as referências e habilidades necessárias para um bom desempenho. No entanto, o pessimismo foi crescendo na obra do sociólogo: a competição escolar passou a ser vista como inevitável e injusta. 

A globalização e os descontentes

Nos últimos anos do século passado, Pierre Bourdieu tornou-se ideólogo e símbolo dos protestos contra a globalização econômica e cultural, sobretudo depois do lançamento do livro A Miséria do Mundo. Ele assumiu um papel ativo de apoio à greve dos servidores franceses, em 1995 e 1996, por julgar que ela representava um sinal de resistência do espírito público contra as privatizações. Desde então, Bourdieu se posicionou fortemente contra a tendência política neoliberal e todas as outras que considerava aparentadas com ela, incluindo a linha de moderação adotada pelos partidos de esquerda que ocuparam muitos governos europeus nos anos 1980 e 1990 (como os socialistas na França, os trabalhistas na Grã-Bretanha e os socialdemocratas na Alemanha). Grupos movidos por insatisfação semelhante à de Bourdieu amplificaram seus protestos durante a reunião da Organização Mundial do Comércio em Seattle, nos Estados Unidos, em 1999, dando origem ao Fórum Social Mundial de Porto Alegre. Junto com a condenação ao modo como o poder estava sendo exercido, Bourdieu centrou fogo contra os meios de comunicação, que acusava de se render à lógica do comércio e produzir lixo cultural em grande escala. Descrente da possibilidade de obter apoio de políticos, Bourdieu apelou para a solidariedade de intelectuais. Foi o mentor do grupo Raisons dAgir, que reúne cientistas, políticos e sindicalistas contra o desemprego e a exclusão social.

Valores incorporados

O livro A Reprodução, escrito em parceria com Jean Claude Passeron e publicado em 1970, investigou o funcionamento do sistema escolar francês e concluiu que, em vez de ter uma função transformadora, ele reproduz e reforça as desigualdades sociais. Quando a criança começa sua aprendizagem formal, segundo os autores, é recebida num ambiente marcado pelo caráter de classe da organização pedagógica ao modo como prepara o futuro dos alunos.

Para construir sua teoria, Bourdieu criou uma série de conceitos, como habitus e capital cultural. Todos partem de uma tentativa de superação da dicotomia entre subjetivismo e objetivismo. Ele acreditava que qualquer uma dessas tendências, tomada isoladamente, conduz a uma interpretação restrita ou mesmo equivocada da realidade social, explica Nogueira. A noção de habitus procura evitar esse risco. Ela se refere à incorporação de uma determinada estrutura social pelos indivíduos, influindo em seu modo de sentir, pensar e agir, de tal forma que se inclinam a confirmá-la e reproduzi-la, ainda que nem sempre de modo consciente.

Um exemplo disso: a dominação masculina, segundo o sociólogo, se mantém não só pela preservação de mecanismos sociais mas também pela absorção involuntária, por parte das mulheres, de um discurso conciliador. Na formação do habitus, a produção simbólica resultado das elaborações em áreas como arte, ciência, religião e moral constitui o vetor principal porque exerce a reprodução das desigualdades de modo indireto e disfarçado, escamoteando as hierarquias e os constrangimentos.

Assim, estruturas sociais e agentes individuais se alimentam continuamente, numa engrenagem de caráter conservador. É o caso da maneira como cada um lida com a linguagem. Tudo que a envolve correção gramatical, sotaque, habilidade no uso de palavras etc. está fortemente relacionado à posição social de quem fala e à função de ratificar a ordem estabelecida. O gosto para a arte, o modo de vestir e até o jeito de andar participam dessa dinâmica. Para Bourdieu, essas ferramentas de poder são essencialmente arbitrárias, mas isso não costuma ser percebido. É necessário que os dominados as percebam como legítimas, justas e dignas de serem utilizadas, afirma Nogueira. 

Capital cultural

Outro conceito utilizado por Bourdieu é o de campo, para designar nichos da atividade humana nos quais se desenrolam lutas pela detenção do poder simbólico, que produz e confirma significados. Esses conflitos consagram valores que se tornam aceitáveis pelo senso comum. No campo da arte, por exemplo, a luta simbólica decide o que é erudito ou popular, de bom ou de mau gosto. Dos elementos vitoriosos formam-se o habitus e o código de aceitação social.

Os indivíduos, por sua vez, se posicionam nos campos de acordo com o capital acumulado que pode ser social, cultural, econômico e simbólico. O capital social, por exemplo, corresponde à rede de relações interpessoais que cada um constrói, com os benefícios ou malefícios que ela pode gerar na competição entre os grupos humanos. Já na Educação se acumula sobretudo o capital cultural, que pode se apresentar de três formas, todas muito influentes nas trocas simbólicas: em estado incorporado (informações e valores apreendidos), objetivado (sob a forma de bens como livros, quadros, máquinas etc.) e institucionalizado (certificados e diplomas).

Com esses instrumentos teóricos, Bourdieu afastou de suas análises a ênfase central nos fatores econômicos que caracteriza o marxismo e introduziu, para se referir ao controle de um estrato social sobre outro, o conceito de violência simbólica, legitimadora da dominação e posta em prática por meio de estilos de vida. Isso explicaria por que é tão difícil alterar certos padrões sociais: o poder exercido em campos como a linguagem é mais eficiente e sutil do que o uso da força propriamente dita.

Biografia

Pierre Bourdieu nasceu em 1930 no vilarejo de Denguin, província de Béarn, no sudoeste da França, de pais de origem camponesa. Fez os estudos básicos num internato em Pau, experiência que lhe causou profundas marcas negativas. Em 1951, ingressou na Faculdade de Letras, em Paris, e na Escola Normal Superior. Três anos depois, graduou-se em Filosofia e tornou-se professor dessa disciplina na cidade de Moulins. Prestou serviço militar na Argélia (então uma colônia francesa), onde retomou a carreira acadêmica e escreveu o primeiro livro, um estudo sobre a sociedade cabila.

De volta à França, assumiu a função de assistente do filósofo Raymond Aron (1905-1983) na Faculdade de Letras de Paris e, simultaneamente, filiou-se ao Centro Europeu de Sociologia, do qual veio a ser secretário-geral em 1962. Fundou, em 1967, o Centro de Sociologia da Educação e da Cultura na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris. A partir dos anos 1970, atuou em universidades como Harvard e Chicago (nos Estados Unidos) e Max Plank e Johann Wolfgang Goethe (Alemanha). Bourdieu publicou mais de 300 títulos, entre livros e artigos. Fundou as publicações Actes de la Recherche en Sciences Sociales e Liber.

Em 1982, propôs a criação de uma sociologia da sociologia em sua aula inaugural no Collège de France, levando esse objetivo em frente nos anos seguintes. Quando morreu de câncer, em 2002, foi tema de longos perfis na imprensa europeia. Um ano antes, um documentário sobre ele, intitulado Sociologia É um Esporte de Combate, havia sido um sucesso inesperado nos cinemas da França. Entre seus livros mais conhecidos estão A Distinção (1979), que trata dos julgamentos estéticos como distinção de classe, A Miséria do Mundo (1993), Sobre a Televisão (1996) e Contrafogos (1998), a respeito do discurso do chamado neoliberalismo.

Para pensar

Frequentemente fazemos, sem perceber, julgamentos severos com base em motivos nada consistentes ou, pior, preconceituosos. Na escola, é comum alunos serem discriminados por causa de sua aparência e seus hábitos. Você já observou como muitas vezes isso é uma manifestação de sentimentos de superioridade de alguns grupos sociais em relação a outros?

Para saber mais

A Economia das Trocas Simbólicas, Pierre Bourdieu (org. Sergio Miceli), 372 págs., Ed. Perspectiva, tel. (11) 3885-8388

A Reprodução: Elementos para uma Teoria do Sistema de Ensino, Howard Gardner, 348 págs., Ed. Objetiva, tel. (21) 2556-7824

Jogos para Estimulação das Inteligências, Jean-Claude Passeron e Pierre Bourdieu, 312 págs., Ed. Francisco Alves, tel. (21) 2240-7989

Bourdieu e a Educação, Maria Alice Nogueira e Cláudio Martins Nogueira, 152 págs., Ed. Autêntica, tel. (31) 3423-3022

Escritos de Educação, Pierre Bourdieu (orgs. Maria Alice Nogueira e Afrânio Catani), 252 págs., Ed. Vozes, tel. (24) 2233-9000

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