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Contra o isolamento da disciplina

Docente da Universidade Federal Fluminense defende um ensino com base no estabelecimento de relações com o que o aluno conhece

POR:
NOVA ESCOLA
Carlos Eduardo Mathias,

Carlos Eduardo Mathias,
do Departamento de Matemática Aplicada e do Laboratório de Novas Tecnologias de Ensino (Lante) da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Dá para relacionar Matemática com História, Geografia, cinema, música, games e tudo o que está no dia a dia das pessoas. Afinal, ela é um meio de se conectar à vida criado pelo homem, como define Carlos Eduardo Mathias. No entanto, o senso comum encara a disciplina como um amontoado de técnicas para fazer cálculos sem ligação com a realidade. O professor deve ter uma visão mais ampla da disciplina e divulgá-la entre os alunos para favorecer a aprendizagem. A seguir, Mathias defende essa e outras medidas para melhorar a qualidade do trabalho em sala.

Quais os maiores equívocos no ensino da Matemática?

CARLOS EDUARDO MATHIAS O principal é a visão do que ela é. Muitos professores acreditam que a disciplina se resume a procedimentos técnicos e a ensinam de maneira desconectada dos saberes dos alunos, sem mostrar que ela é uma criação humana para resolver problemas reais.

Isso reforça a rejeição à disciplina?

MATHIAS Sim. Crianças e jovens entendem que aquilo não tem nada a ver com eles e nunca vai ter. A disciplina carrega o estigma de ser difícil até fora da escola, entre os pais, por exemplo. Tanto que muitas pessoas acham que uma criança só é muito inteligente quando é boa em Matemática. Talvez ela consiga multiplicar, mas não saiba o que é multiplicação de um modo mais amplo ou em que situações usar essa operação. Se você pergunta quanto é 15 dividido por 3, ela acerta. Mas, se apresenta na prova um problema que pode ser resolvido com a mesma conta ela não consegue solucionar, justamente porque não entende o enunciado.

Qual a melhor forma de introduzir um conteúdo em sala?

MATHIAS Uma boa prática é se basear em contextos do cotidiano. Mas de quem? Do carteiro, do cientista, do bancário, do motorista? Muitos dirão: o do aluno que aquele professor tem. E quem é ele? São vários, na verdade. Por isso digo que o melhor contexto é a vida. Às vezes, usa-se a Matemática informal do pedreiro, que calcula o material necessário a uma obra por estimativa, com base na experiência. Em outras, pode-se falar de game, arte, História, cinema, de muita coisa, pois não é o cotidiano específico de ninguém.

E as muito usadas questões relacionadas ao consumo funcionam?

MATHIAS Os problemas que citam que fulano foi à feira, ao mercado, ao banco não servem para tudo. Nenhuma situação desse tipo dará conta de contextualizar as equações de segundo grau, por exemplo.

"O bom professor é aquele que é tão apaixonado pela Matemática que faz tudo para os outros se apaixonarem também"

Além de uma visão ampla da disciplina, que fatores contribuem para a qualidade do ensino da Matemática?

MATHIAS É necessário dar voz a crianças e jovens, porque o aprendizado é um processo de construção colaborativo. O professor não está lá apenas para comunicar o que sabe, em uma via de mão única. É preciso, em certos momentos, haver um ambiente horizontal para que a aprendizagem ocorra. Outro ponto importante é buscar um equilíbrio entre diferentes propostas. Assim como ele não deve se limitar a aulas expositivas sobre conceitos matemáticos, também não pode ensinar exclusivamente resolvendo problemas que têm a ver com o cotidiano ou trabalhando com jogos e softwares. Há momentos em que é necessário tratar da Matemática pura, de processos técnicos bem específicos e aparentemente menos atraentes.

Em que as novas tecnologias contribuem para o ensino da disciplina?

MATHIAS Quando usadas para que a classe teste possibilidades e faça conjecturas, elas podem contribuir para a construção de uma visão mais clara e ampla do conteúdo. Por si só, um software de geometria - algo que tem sido muito comentado hoje - não melhora a aula em nada. O que conta é o bom docente, que sabe explorá-lo em vez de utilizá-lo para algo similar ao que faria no quadro-negro.

Qualquer professor, até o menos carismático, pode aprender a envolver os estudantes no processo?

MATHIAS Alguns docentes têm, naturalmente, simpatia e carisma. Mas há os que são sérios e tímidos, falam baixo e tudo. Sim, eles podem aprender outras formas de incentivar a classe a participar que não dependam tanto de sua personalidade. O bom professor é aquele que é tão apaixonado pela Matemática que faz tudo para os outros se apaixonarem também. Se buscar estratégias dinâmicas, envolverá a turma e despertará sua curiosidade.

Esse dinamismo evita aulas maçantes quando se aborda Matemática pura?

MATHIAS Se o professor tem de falar da parte teórica, deve fazer isso sem culpa. É possível envolver a sala também nessas horas. Voltando ao exemplo das equações de segundo grau, dá para introduzir o conteúdo com um problema ou um recurso tecnológico que incentive todos a fazer e discutir conjecturas. Assim, irá ampliar a visão da turma e preparar o terreno para os conceitos mais abstratos.


Foto Fernando Frazão

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