Reportagens | Apresentação | Reportagens

O que faz a diferença em sala de aula

Pesquisa revela as práticas que contribuem para o aumento da eficiência do professor de Matemática

POR:
NOVA ESCOLA

Qual é a fórmula para ser um bom professor de Matemática? É óbvio que não existe uma pronta e aprovada por unanimidade. Mas há pistas claras do que ela deve conter. Pesquisa da Fundação Victor Civita (FVC), realizada pela Fundação Cesgranrio com o apoio do Banco Itaú BBA e do Instituto Unibanco, levantou as características, atitudes e práticas frequentes entre 63 docentes da disciplina responsáveis por turmas do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental e do Médio em escolas públicas paulistas. Os docentes observados no estudo Boas Práticas Docentes no Ensino da Matemática foram escolhidos entre os que se saíram melhor no Processo de Promoção por Merecimento da rede estadual paulista e que obtiveram médias altas em pelo menos duas edições do Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp) entre 2008 e 2010.

Dez mestrandos ou doutorandos de Matemática observaram (e filmaram) o grupo selecionado em ação e responderam a questões sobre as condições da sala, a estrutura da aula e o clima em classe. Cinco especialistas com vasta experiência em Matemática e Educação assistiram às gravações de forma que o trabalho de cada docente fosse avaliado por mais de um deles. Todos usaram critérios idênticos para eleger as aulas mais interessantes do ponto de vista didático-pedagógico e identificar os melhores momentos.

A pesquisa, coordenada por Nilma Santos Fontanive e Ruben Klein, da Cesgranrio, detectou, por exemplo, que 40,5% das aulas observadas são iniciadas com a explicitação das expectativas, metas ou conteúdos a serem abordados e em 86,5% delas os professores ouvem, de fato, o que os alunos estão dizendo e respondem apropriadamente. Além disso, 39,8% foram baseadas em contextos do cotidiano para desenvolver um conceito ou descobrir a relação matemática envolvida em determinada situação.

 

O melhor caminho para trabalhar com conteúdos abstratos

Para Ledo Vaccaro Machado, um dos consultores da pesquisa, a disciplina tem peculiaridades, em especial o fato de lidar com o abstrato. "Por isso, para introduzir conteúdos, é interessante começar no específico, ir para o geral e retornar para o específico." Durante a construção do conhecimento, quanto mais os estudantes participarem, melhor para a aprendizagem. Tanto que outro integrante do grupo de consultores, Carlos Eduardo Mathias, acredita que o bom professor é capaz de envolver a turma: "Ele é tão apaixonado pela Matemática que faz tudo para os outros se apaixonarem também", diz (leia a entrevista). Não há modo mais garantido de conquistar os alunos do que colocá-los no centro da ação.

O estudo da Cesgranrio constatou que apesar de, no geral, as aulas serem essencialmente expositivas e com o predomínio do uso do quadro-negro - em 94,8% delas - registraram-se altos índices de participação de todos em classe. Somente em um quarto das atuações pesquisadas o professor foi o único protagonista. Nas demais, os estudantes foram incitados a se manifestar de diferentes maneiras. Em 69,7% das aulas, o docente utilizou as afirmações de um dos jovens para ampliar ou reforçar conceitos para a turma inteira, enquanto em mais da metade delas foi pedida a explicação ao estudante sobre o procedimento usado para resolver um problema.

Outro aspecto abordado diz respeito ao modo de lidar com as situações em que alguém não acerta ao responder a uma pergunta ou resolver um problema proposto. "Os erros são um campo riquíssimo para quem leciona e, quando bem explorados, ajudam a comprometer e fidelizar os alunos", diz Machado. "Deve-se deixar claro para todos que errar é algo natural e uma parte importante do processo de descoberta e construção do conhecimento."

Uma forma bem positiva de usar os erros em favor da aprendizagem é, em vez de dar a resposta certa de imediato, oferecer a chance de cada um chegar a ela por conta própria, apresentando contraexemplos, retomando uma regra conhecida ou recorrendo a outros meios que estimulem a pensar mais. Em 63,7% das aulas monitoradas, essa postura foi adotada.

No que se refere à lição de casa - hora de estudar sozinho e de ampliar o conhecimento trabalhado em sala -, somente em 35,3% das aulas avaliadas ela foi proposta e em 17,7% sua execução foi verificada. "Não há como aprender Matemática sem exercícios resolvidos individualmente", diz Machado. A baixa frequência dessa rotina nas aulas observadas foi enfatizada pelos pesquisadores, pois propor e corrigir a lição é uma das 12 boas práticas levantadas pelo estudo.


Ilustração Claudio Gil