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O valor das metas e da formação

Integrantes de projetos piloto em Recife e Manaus, duas tradicionais escolas estaduais que apresentavam péssimos resultados elevam os níveis de aprendizagem e se tornam modelos para a rede

POR:
Aurélio Amaral

Segunda escola em atividade mais antiga do país, o antigo Ginásio Pernambucano, em Recife, tem uma história gloriosa. Inaugurado em 1825, ele formou boa parte da elite intelectual do Nordeste - entre seus ex-alunos, está o presidente da República Epitácio Pessoa (1865-1942), por exemplo. No passado recente, no entanto, a instituição não obtinha bons resultados e, além disso, o estado de conservação de seu prédio, um casarão tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), era tão crítico que, em 1998, foi fechado e os alunos transferidos para outro local. Em Manaus, o tradicional CE Amazonense Dom Pedro II, fundado em 1886, também apresentava, na década passada, um cenário preocupante com altos índices de retenção e evasão. Hoje, a situação é bem diferente nas duas instituições, que participaram de projetos piloto de gestão para escolas de Ensino Médio.

O Programa de Desenvolvimento dos Centros de Ensino Experimental (Procentro), do qual o Ginásio Pernambucano foi pioneiro, teve início com um grupo de empresários que, em parceria com o governo estadual, quis recuperar a excelência da escola centenária e, posteriormente, difundir o modelo de gestão para a rede. "O projeto priorizou o Ensino Médio porque é o segmento em que os índices de evasão e repetência são mais preocupantes", explica Thereza Barreto, consultora do Instituto de Co-Responsabilidade pela Educação (ICE), em Recife, e diretora do Ginásio Pernambucano de 2004 a 2008.

Terminada a reforma das instalações físicas, feita exclusivamente com investimentos privados, o Ginásio Pernambucano ganhou novos gestores. Por decreto, foi aberta uma exceção à modalidade de eleição (praxe no estado) para selecionar candidatos com base na análise de currículo, em prova e em entrevista. A equipe foi formada por um diretor, coordenadores pedagógico e administrativo-financeiro, professores responsáveis exclusivamente pela biblioteca e pelo laboratório, um secretário e um educador para cuidar da mobilização social.

O quadro docente foi escolhido por triagem, que exigia formação específica e, no mínimo, uma especialização. Um grupo de 50 professores participou de uma formação de quatro meses, conduzida pelo ICE. O programa incluiu reciclagem sobre legislação e matriz curricular e análise de vídeos mostrando práticas de sala de aula. Orientações sobre como trabalhar os conteúdos de forma a valorizar a autonomia do jovem, um dos pilares do modelo de gestão, complementaram a formação. Foram escolhidos, então, 25 educadores, que, a partir de 2004, começaram a colocar o modelo em prática, de acordo com um plano de metas. Esse corpo docente tinha a responsabilidade de lecionar para os 320 alunos das primeiras turmas de 1º ano do novo Centro de Ensino Experimental Ginásio Pernambucano. Como um incentivo para que alcançassem os objetivos foram oferecidos bônus de até 30%.

O currículo também sofreu mudanças. Como a escola recebe alunos com formação muito diversa durante o Ensino Fundamental, o principal objetivo no 1º ano é corrigir lacunas de aprendizagem. Para isso, são oferecidas aulas eletivas de reforço àqueles que apresentam dificuldades. As disciplinas optativas compõem 25% da grade curricular e são intercaladas com as regulares dentro do tempo integral, das 7h30 às 17 horas. Entre as opções estão protagonismo juvenil, em que se desenvolvem atividades de empreendedorismo; projeto de vida, que incentiva o planejamento de metas pessoais e profissionais; e oficinas interdisciplinares, como a de cinema, em que se trabalham ótica, história da arte e Língua Estrangeira.

No 3º ano, quando os planos para o futuro começam a amadurecer, os estudantes podem optar por "aulões" dirigidos à preparação para o vestibular ou orientações para o mercado de trabalho, por exemplo, encontros com profissionais que falam sobre como se comportar em uma entrevista de emprego ou elaborar um currículo. "Dessa forma, evita-se a evasão dos que preferem trabalhar e acham que a orientação para a universidade não os levaria a lugar nenhum", explica Thereza. A aprovação no vestibular vem tendo ótimos resultados. Em 2006, ano em que se formou a primeira turma do Ginásio, a média no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) foi de 48, quatro pontos superior à nacional e seis acima da estadual. No ano passado, 67% dos formados deram continuidade aos estudos em universidades.

A experiência tornou-se, em 2008, política pública do estado de Pernambuco e o Programa Integral está hoje em 160 escolas. O ICE deixou de atuar diretamente na gestão do Ginásio Pernambucano - que passou a chamar-se Escola de Referência Ginásio Pernambucano - para que ele caminhasse com as próprias pernas, sob a direção de Neuza Pontes. "Quando se forma um grupo sólido, é possível dar continuidade ao trabalho, perseguindo o objetivo de levar os alunos a aprender cada vez mais", afirma Neuza.

Recife

"Quando se forma um grupo sólido, é possível dar continuidade ao trabalho, perseguindo o objetivo de levar os alunos a aprender cada vez mais." Neusa Pontes, diretora da Escola de Referência Ginásio Pernambucano, em Recife (segunda à esquerda, com parte da equipe gestora)

Escola de Referência Ginásio Pernambucano

  • Alunos: 760
  • Professores: 31
  • Média no Enem 2009: 582,47

Metas e resultados em 2010

  • Atingir uma taxa de aprovação de pelo menos 30% no vestibular. Superou: Foi de 70%.
  • Aumentar em 5% o rendimento em avaliações externas. Superou: Cresceu 10%.
  • Reduzir a evasão a menos de 2%. Cumpriu: Foi zero.

Capacitação e novo projeto são a base da mudança

A formação também é o foco do Projeto-Piloto de Ensino Médio do Amazonas, idealizado pela Secretaria de Estado da Educação para levar as escolas a alcançar bons resultados. Desde 2006 na direção do CE Amazonense Dom Pedro II, em Manaus, Antônio Carlos Araújo passou por um processo de formação de quase um ano na Secretaria. Só depois conduziu mudanças na escola e a liderou no novo formato de gestão desenvolvido a partir de 2007. O primeiro passo foi a formulação do projeto político-pedagógico (PPP) com o apoio dos funcionários e da comunidade. O documento formalizou a intenção de estabelecer metas de aprendizagem e criar mecanismos para cumpri- las.

Com a implantação do projeto piloto, foram instalados laboratórios de Ciências e salas de informática. A biblioteca foi reformada e passou a ser coordenada por um profissional com dedicação exclusiva. A estrutura da equipe gestora foi reformulada: o binômio diretor-coordenador deu lugar a um quadro que, além do diretor, conta com um coordenador administrativo, um pedagógico e três de área.

Esse trio se reúne três vezes por semana com os professores da área para discutir metodologias, avaliar atividades e identificar problemas de aprendizagem. O tempo dedicado à formação continuada se tornou obrigatório: cinco das 20 horas- aula semanais devem ser destinadas a essas atividades e ao atendimento aos pais. Para dar conta da demanda de aulas, aumentou 7% o número de profissionais efetivos. A exigência sobre a qualificação também se elevou: passou a ser requisito que eles tivessem formação na área em que lecionam, o que implicou na renovação de cerca de 40% da equipe. Como incentivo, foram oferecidos 14º e 15º salários, caso as metas de aprendizagem fossem cumpridas. Em quatro anos, o objetivo de ultrapassar a taxa de 90% de aprovação foi atingido, chegando a 92%. "Os bons resultados se devem ao trabalho intensivo com alunos que apresentam dificuldades, realizado logo após o término do turno - o chamado sexto tempo letivo", diz o diretor.

Para acabar com a evasão, outra meta estabelecida, implantou-se a prática de levantar mensalmente os dados de frequência e acionar a família sempre que detectadas faltas acima da média. Oferecer atividades no contraturno também é uma das grandes estratégias do projeto para envolver mais os jovens. No Dom Pedro II, professores se dedicam à organização de oficinas, como as de dança e xadrez, e incentivam a participação especialmente daqueles que não demonstram entusiasmo com as aulas regulares.

O modelo aprovado está presente em 19 instituições da capital e do interior. A expectativa é que, em oito anos, ele seja levado às 217 escolas do estado. Antes de pôr em prática as novas diretrizes de gestão, no entanto, o diretor precisa passar por uma imersão de duas semanas no Dom Pedro II ou no Instituto de Educação do Amazonas, em Manaus, também participante do projeto-piloto. "O intercâmbio faz com o que o gestor se antecipe a eventuais dificuldades que ele pode passar", diz Edson Mello, gerente de Ensino Médio da Secretaria de Educação do Amazonas.

Manaus

"Os bons resultados se devem ao trabalho intensivo com alunos que apresentam dificuldades, realizado logo após o término do turno - o chamado sexto tempo letivo."
Antônio Carlos Araújo, diretor do CE Amazonense Dom Pedro II, em Manaus (à esquerda, com parte da equipe gestora)

CE Amazonense Dom Pedro II

  • Alunos: 1.200
  • Professores: 56
  • Média no Enem 2009: 555,95

Metas e resultados em 2010

  • Zerar a evasão escolar. Cumpriu
  • Reduzir a reprovação para menos de 10%. Superou: A taxa de repetência foi de 5%.
  • Aprovar uma média de 120 alunos por ano na Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Não atingiu: O número de aprovações chegou a 96.

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