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Momento de entender a vida em sociedade

A produção de croquis e fanzines, baseada em conceitos da Geografia e da Sociologia, permite aos jovens compreender a cidade em que vivem e as relações sociais presentes no cotidiano

POR:
Cyntia Calhado

Conceitos básicos de Geografia e cartografia são estudados em sala  na EME Professora Alcina Dantas Feijão, em São Caetano do Sul

Conceitos como território, população e posição geográfica ganham significado quando aplicados ao bairro em que se vive. Pensando nisso, o professor de Geografia David Augusto Santos decidiu desenvolver com seus alunos do 2ª ano da EME Professora Alcina Dantas Feijão, em São Caetano do Sul, na Grande São Paulo, um trabalho de mapeamento dos bairros da cidade com a identificação de características de cada região e a produção de croquis. O objetivo do projeto, que dura um trimestre, é desenvolver o olhar geográfico dos estudantes e estimular as relações entre cartografia e geopolítica com base na realidade dos jovens.

Para o professor Antonio Carlos Castrogiovanni, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o planejamento da área de Ciências Humanas deve incluir atividades que levem o estudante a se inserir no espaço em que vive. "Metodologias de problematização da paisagem, que estimulem a investigação e a reflexão sobre o local em que o jovem mora, são essenciais no ensino nessa fase", afirma Castrogiovanni.

Depois de estudar na sala de aula conceitos elementares da Geografia e da cartografia, os estudantes são divididos em grupos. A tarefa passa a ser desenhar um bairro de livre escolha com o apoio de um mapa original.

Baseados na experiência do cotidiano, na observação feita nas ruas e em pesquisas em instituições como a Fundação Pró-Memória, localizada no município, os jovens colocam no papel suas percepções a respeito das diferenças regionais. Nas legendas, eles indicam, por exemplo, os locais com maior incidência de assaltos, tráfego intenso e grande especulação imobiliária, além de centros comerciais.

"A produção dos croquis permite a análise das diferenças territoriais de bairros conhecidos pela garotada, que muitas vezes não são percebidas", afirma o professor. Segundo ele, esse tipo de trabalho proporciona uma maior liberdade de criação, em comparação com os mapas propriamente ditos. "Como não é necessário seguir as normas cartográficas, é possível explorar mais a percepção da paisagem, mobilizando conceitos já estudados", comenta ele. Com a proposta, Santos complementou os conteúdos abordados no livro didático que adota, que explora exclusivamente os fenômenos nacionais e mundiais.

Além dos croquis, os estudantes produzem um relatório em que analisam os diversos processos e fluxos do bairro e as mudanças históricas ali ocorridas, relacionando-as ao poder econômico ou político. No fim, em uma apresentação oral em classe, eles comentam sobre as dificuldades enfrentadas durante as atividades. Em um trabalho sobre o bairro Boa Vista, conhecido pelas belas paisagens, por exemplo, uma das equipes criticou a diminuição das áreas verdes por causa da verticalização proposta pela prefeitura. "O aluno deve compreender que as relações entre o poder e o território estão presentes cotidianamente. O olhar geográfico é importante também para desvendar a complexidade dos fatos e perceber a dimensão política dos fenômenos", afirma o professor Santos.

 

Os estudantes se expressam em fanzines e seminários

Em Minas Gerais, o professor de Sociologia Gilson Roberto Carvalho Júnior também investe em atividades dinâmicas visando aproximar os conceitos sociológicos do cotidiano de alunos de 3º ano da EE de Uberlândia. Entre as propostas apresentadas por ele está a produção de fanzines e seminários sobre os conteúdos abordados na disciplina.

O fanzine funciona como um meio de introduzir o tema das relações sociais. Na publicação, os adolescentes devem expor sua visão sobre a sociabilidade na internet. Divididos em grupos, eles discutem aspectos positivos e negativos do fenômeno e decidem qual será a linha argumentativa do trabalho. Com base em gravuras e textos de revistas e jornais, eles montam as publicações e depois as apresentam aos colegas. Após discussões em sala sobre as soluções visuais encontradas para defender a abordagem escolhida, os trabalhos ficam expostos no mural do colégio. Além de estimular a criatividade e o trabalho artístico, o objetivo da atividade é levantar as informações e concepções dos estudantes a respeito do tema, que mais tarde é aprofundado pelo professor.

Segundo a pesquisadora Elisabeth da Fonseca Guimarães, da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), os conceitos de Sociologia devem ser trabalhados de forma a permitir que os jovens relacionem a teoria com o cotidiano. "O educador deve fornecer meios para que eles superem opiniões baseadas no senso comum e sejam capazes de argumentar com embasamento sobre o funcionamento da vida em sociedade", afirma.

Para desenvolver a expressão oral e o poder de argumentação da turma, o professor também propõe seminários. O foco são os movimentos sociais, como o feminista, o operário e o de defesa dos direitos dos homossexuais. Carvalho Júnior dá dicas sobre as fontes de informação mais adequadas para a pesquisa (como organizações relacionadas ao grupo abordado) e instruções a respeito dos conteúdos que devem compor a apresentação. "Muitas das reportagens de revistas, jornais e sites que uso em sala são trazidas pelos alunos", comenta. Na etapa seguinte, a garotada escreve sobre o tema e elabora um roteiro que servirá de base para a apresentação oral, que pode contar com a participação de convidados. Uma equipe que trabalhou com a questão homossexual, por exemplo, trouxe um dos líderes do movimento da região para o seminário. "O resultado de atividades desse tipo está na riqueza dos comentários e das reflexões que eles fazem em sala", diz o professor.

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