Uma família de verbos cheia de boas intenções com a escola

Contraponto

POR:
Lino de Macedo
Lino de Macedo. Foto: Paulo Vitale

Lino de Macedo
Professor aposentado
do Instituto de Psicologia
da Universidade de
São Paulo (USP)

Gosto de saber que certas palavras formam um conjunto por compartilharem do mesmo radical, mas se diferenciam por prefixos que alteram seu significado. Aprender, compreender, apreender, repreender e surpreender funcionam assim, tal qual uma família em que todos são parentes, ainda que por diferentes vínculos. Esses verbos, usuais no contexto da escola e da sala de aula, não podem ser considerados independentes ou indiferentes entre si. Seu radical comum é prehendere, do latim, composto de prae e hendere. Prae significa à frente. Hendere vem de hédera, hera, a trepadeira que se agarra às paredes para poder crescer. Encontrei também hendere como chegar à costa ou porto, capturar.

Aprender compõe-se de ad (junto, perto, próximo) e prehendere. Significa guardar na memória, adquirir, possuir. As atitudes de observar, experimentar, ouvir, ensinar e repetir são muito importantes ao aprender. Por meio do aprendizado, adquirimos algo - conhecimento, habilidade, informação - que antes não tínhamos, seja em quantidade, seja em qualidade. Apreender, palavra mais comumente utilizada no meio judicial com o sentido de cassar, fazer uma apreensão, é fundamental à realização do objetivo da escola. Tem por definição assimilar, captar, entender ou interiorizar pelo raciocínio. Já compreender (com+prehendere) significa aprender de modo conjunto, ou seja, trata-se de apreender as partes que compõem o todo, estabelecendo relações. Surpreender (sur+prehendere) quer dizer apanhar de improviso, aparecer inesperadamente. Já repreender tem o sentido de restringir ou imobilizar e também de advertir e censurar ou admoestar com energia.

Sirvo-me dessas análises etimológicas para chegar à seguinte linha de correlações: para aprender, os alunos precisam compreender e, em geral, isso funciona se forem surpreendidos positivamente por conteúdos ou formas. Mas costumamos surpreendê-los com repreensões e não com aprendizagens. Julgamos na sala de aula que é função do professor explicar a matéria e repreender a turma. Mas essas ações valem igualmente para todos os que são aprendizes. Quem sabe explicar um conteúdo indica que compreendeu algo que o surpreendeu, por ser novo e diferente. Além disso, o aprendiz aceita corrigir seus erros, repreendendo-se no bom sentido, na perspectiva do aperfeiçoamento e da superação.

Quanto ao professor, sua função não é só a de explicar, mas também de compreender seus alunos: como aprendem? Como se surpreendem? Como se repreendem? Daí a importância de os estudantes explicarem aos colegas e ao professor aquilo que pensam ter aprendido ou vivido em suas experiências. E, dessa forma, podem se surpreender com o que sabem ou não sabem.

Nessa nova perspectiva, o professor é aquele que propõe tarefas, apresenta problemas, dá informações, organiza e mobiliza discussões entre os estudantes. Mais que isso, pensa e reflete diante deles, que, encantados, apreendem modos de argumentar, discorrer ideias e compartilhar conhecimentos e valores. Assim, professor e alunos, ainda que em posições diferentes, passam a pertencer a uma mesma família, comprometida com um projeto comum que é o de preparar e o de preparar-se no presente para o futuro do mundo.

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