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De olho nas necessidades da turma

Para manter o interesse de jovens e adultos pelas aulas, escola de Belo Horizonte cria oficina para a produção de artigos de higiene integrada ao currículo e flexibiliza os horários

POR:
Izabela Ferreira Alves

Alunos da EM Caio Líbano Soares produzem artigos de limpeza e cosméticos enquanto aprendem conteúdos das disciplinas de Química, Biologia, Matemática e História

Duas grandes preocupações dos estudantes - incrementar seus rendimentos e profissionalizar-se - inspiraram as professoras Juliana Sábato, de Química, e Taís Alexandrina, de Arte, a criar o Projeto Frutos da Educação de Jovens e Adultos (EJA) na EM Caio Líbano Soares, em Belo Horizonte. Sem perder o foco na aprendizagem, as duas montaram uma oficina, ministrada em dez aulas, para ensinar a fazer produtos de limpeza e cosméticos. Durante as atividades, são trabalhados também conteúdos de Biologia, Matemática e História. "Não ensinamos apenas a fazer sabonetes e amaciantes de roupa. Os alunos aprendem sobre pH e ligações químicas, porcentagens, camadas da pele e a história do perfume. O objetivo é conectar o currículo à vida e ao trabalho", afirma Juliana. Após as aulas no laboratório de Química, a classe vai para a frente do computador e desenvolve com Taís o logotipo da marca e as embalagens. Nessa fase, todos também pesquisam na internet os aspectos legais da venda dos produtos. "Buscamos diversificar e oferecer a profissionalização como uma opção", diz o diretor Otacílio Ribeiro.

Com 16 turmas de EJA no Ensino Médio, a escola tem outro trunfo: a flexibilização de horários, com a abertura dos três turnos nesse nível. "Modulamos a carga horária para o estudante ter a chance de aproveitar o período cumprido caso precise se desligar. Se a interrupção for temporária e datada, oferecemos material didático para que estude em casa e aulas de monitoria", completa o diretor.

A estrutura e o programa para a EJA nessa etapa de ensino na Caio Líbano suscitam uma discussão sobre a adequação de voltar o curso para a profissionalização. Dados da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (Secadi) indicam que, do mais de 1,3 milhão de matrículas nessa modalidade, 38.152 estão associadas à formação profissional - apenas 1,34%.

Pesquisas nacionais, no entanto, apontam a melhoria da renda e da posição no mercado de trabalho como as mais altas aspirações de quem volta aos bancos escolares para cursar o Ensino Médio depois da idade regular. "A articulação com a Educação profissional é uma das apostas para enfrentar a evasão, mas isso não vai resolver todos os problemas e não pode ser tomado como uma panaceia", ressalta a professora Maria Clara Di Pierro, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP).

Para o presidente da Câmara da Educação Básica do Conselho Nacional de Educação (CNE), Francisco Cordão, o enfoque na profissionalização é um desafio duplo para a EJA. "Os sistemas têm de criar alternativas para atender os adultos que retomam tardiamente os estudos e os jovens em defasagem idade-série, recém-saídos do Ensino Fundamental." Independentemente da faixa etária, não podem ser deixadas de lado as dimensões filosófica e científica ligadas ao saber, como afirma Cláudio Bazzoni, coordenador do Ensino Médio do Colégio Santa Cruz, em São Paulo. "O ambiente escolar, muitas vezes, é o único espaço em que esses alunos da EJA vão ter contato com grandes questões do conhecimento. Não vejo vantagem em padronizar o currículo. É preferível oferecer aos estudantes caminhos de escolha."

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