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Eles querem aulas com mais sentido

O descompasso entre o que se ensina na escola e os projetos futuros é uma queixa comum da maioria dos jovens, que não se sentem preparados nem para o vestibular nem para o mercado de trabalho

POR:
Rita Trevisan

A escola de Ensino Médio está longe de atender bem todos os jovens. Se entre os 7 e os 14 anos o acesso ao ensino está praticamente universalizado no país, o mesmo não ocorre na faixa entre 15 e 17 anos. Apenas pouco mais da metade (50,9%) dos 10,3 milhões de brasileiros nessa idade está matriculada no Ensino Médio - 34,3% ainda estão no Fundamental e os 14,8% restantes estão fora da escola. Estes, na maioria, pertencentes às classes menos favorecidas. Entender melhor quem é esse público, o que deseja e valoriza e de que sente falta ajuda a tornar esse nível de ensino mais eficiente.

O fator socioeconômico é um dos pontos a ser analisados por quem trabalha com o Ensino Médio. De acordo com a Síntese dos Indicadores Sociais de 2009, da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), entre os 20% mais pobres da população, 78,4% dos adolescentes nessa faixa etária frequentam a escola, enquanto entre os 20% mais ricos o número sobre para 93,7%. Mais de 65,6% do total frequenta as aulas no período diurno. A Pnad revela ainda que 59,3% dos matriculados no Ensino Médio se dedicam exclusivamente aos estudos. O cenário tem melhorado nas últimas décadas: em 1993, eles representavam 41%. "Muitas famílias, ainda que menos favorecidas economicamente, estão optando por investir na Educação dos filhos, postergando a entrada deles no mercado de trabalho até que terminem essa etapa da escolaridade", diz Ana Paula Corti, professora de Sociologia do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo. "Isso contribui para a redução significativa da procura pelos cursos noturnos, que eram responsáveis pela maioria das matrículas na década de 1980 e 90", afirma.

Ainda assim, conciliar trabalho e sala de aula ainda é uma dificuldade para um grupo desses adolescentes. A pesquisa Determinantes do Abandono do Ensino Médio pelos Jovens do Estado de Minas Gerais, financiada pelo Instituto Unibanco, mostra que 33,2% dos alunos apontam esse fator como a principal dificuldade para permanecer estudando. A falta de apoio da família também interfere: 82,7% dos que cursam o Ensino Médio são apoiados pelos pais, contra apenas 68,1% entre os que evadiram. Para o levantamento, foram ouvidos 2.765 estudantes da rede pública mineira e visitada a residência de 600 jovens que haviam deixado a sala de aula entre 2006 e 2009.

Ana Paula Celestino Mesiano, 18 anos, aluna do 3º ano do Ensino Médio do CE Barão do Rio Branco, em Rio Branco

"Pela formação que tive na escola, não me sinto preparada para prestar o vestibular. Em todos esses anos, a escola entrou poucas vezes nesse assunto. Sobre profissões, tivemos uma palestra e só. A gente está com a cabeça nisso o tempo todo, mas o problema é que não consegue fazer uma ligação entre o que está estudando e o que vai fazer no futuro. Isso é uma das coisas que a escola poderia mudar. Desde o início, a gente deveria receber orientações de como se preparar para a universidade e para o primeiro emprego. Essa é uma fase de muita pressão. Seria legal se os professores entendessem isso e conversassem um pouco mais com a gente."

A escola afasta o aluno de diversas formas

A evasão - que está na casa dos 10% - tem uma relação evidente com a defasagem idade-série. Segundo a pesquisa, cada ano de atraso no ingresso do Ensino Médio aumenta em 5% o risco de abandono, enquanto cada ano gasto a mais no decorrer do ciclo faz as chances de desistência subirem 77%. "As reprovações repetidas são uma forma eficiente de expulsar os alunos da escola e representam um dos fatores mais importantes para a evasão", diz Maria Inês Fini, consultora na área de currículo e avaliação e pesquisadora do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Aspectos relacionados à própria dinâmica escolar e a interação aluno/professor também contribuem para a evasão, como mostra pesquisa realizada em 2007 pela organização não-governamental Ação Educativa - para a qual foram ouvidos 880 estudantes de escolas públicas da capital paulista. O estudo, que faz parte do Projeto Jovens Agentes pelo Direito à Educação (Jade), mostra que entre os alunos reprovados no ciclo os motivos mais frequentes que levam à perda de motivação para estudar foram as dificuldades com as matérias e os professores e os desentendimentos com os colegas, somando 27% das menções.

O mesmo estudo mostra que, entre as expectativas dos alunos para melhorar o Ensino Médio, está a de que os educadores consigam ministrar aulas mais dinâmicas e práticas - desejo de 29% dos entrevistados. A relação interpessoal também é mencionada: o professor respeitar os alunos e dialogar mais com eles são duas questões importantes, que, somadas, perfazem 32% das respostas. "Hoje há uma verdadeira desconexão entre a juventude e o professor", diz Sandra Regina Garcia, coordenadora geral da Secretaria de Educação Básica do Ministério da Educação (MEC). "Há um vácuo no entendimento da escola sobre quem são os jovens do Ensino Médio, da mesma forma que há certa dificuldade em ampliar o diálogo com eles. O professor ainda está na postura de transmissor de conhecimentos e os jovens pedem mais interação", afirma ela.

Na pesquisa do Instituto Unibanco, as reclamações dos estudantes não fogem muito dessa temática. Entre os entrevistados que cursam o Ensino Médio, 48,8% afirmam que, quanto mais o professor enche o quadro de matérias, mais vontade eles têm de sair da sala. O sentimento é ainda mais frequente no grupo que já deixou a escola, chegando a 53,2%. "A questão do Ensino Médio é, obviamente, multifacetada", diz Camila Iwasaki, assessora de planejamento e avaliação da entidade. "Um ponto crucial, no entanto, é que a dinâmica das aulas não ajuda. As interações com os colegas são gostosas, e as aulas, não. Além disso, os jovens não veem melhores perspectivas para sua vida com base no aprendizado que recebem em sala." Os conhecimentos adquiridos na escola não são, no entendimento deles, um facilitador para a entrada na vida adulta. O jovem consciente de que o estudo lhe dará oportunidades melhores no mercado tem 50% mais chance de continuar em sala do que aquele que não vê perspectivas abertas por um diploma. "A escola precisa fazer uma ponte com a universidade e o mundo do trabalho para que os adolescentes vejam sentido naquilo que estudam", diz Camila.

De acordo com a pesquisa da Ação Educativa, 43% dos alunos do Ensino Médio acham que a prioridade desse segmento deve ser prepará-los para entrar na faculdade. Já 32% deles afirmam que o mais importante é a formação para o mercado de trabalho. "Fica claro que esses jovens esperam receber uma preparação para a continuidade dos estudos e para a carreira, mas não defendem que a escola vire um cursinho pré-vestibular ou que se torne um colégio técnico. Eles almejam uma orientação que permita delinear um projeto de vida, realizar uma síntese de seu percurso escolar e definir quais os rumos a serem trilhados daí por diante", diz Ana Paula Corti, uma das coordenadoras do estudo.

Para a consultora e pesquisadora Maria Inês Fini, da Unicamp, o que os estudantes querem, independentemente do segmento de ensino, do turno e da modalidade em que estão inseridos, é um ensino contextualizado com o mundo em que vivem e com os seus interesses. "Os alunos precisam ser ouvidos e querem ver respeitado o seu protagonismo nas decisões da escola", afirma a consultora.

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