A Educação Infantil como referência para a todas as etapas

Para pesquisador americano, liberdade criativa e projetos coletivos são fundamentais para transformar a Educação

POR:
Leonardo Sá
Foto: Getty Images

Um jardim da infância constante, por onde podemos circular livremente e onde nossos interesses sejam atiçados por estímulos visuais e sonoros que movimentem nossa criatividade. É assim que Mitchel Resnick, pesquisador do Massachusetts Institute of Technology (MIT, uma das principais universidades do mundo) imagina que os ambientes escolares deveriam ser ao longo de toda a vida.

Resnick é coordenador do Lifelong Kindergarten (“Jardim de Infância pela Vida Toda” em inglês), grupo de pesquisadores alocados no laboratório de pesquisa em comunicação e mídia do MIT cujo objetivo é pensar a Educação criativa aliada a um uso engajado da tecnologia. Ele esteve no Brasil em outubro para participar da Conferência Scracht, que reuniu pesquisadores e pensadores da Educação e da tecnologia para discutir o uso do Scracht, ferramenta em que é possível criar atividades e aprender sobre programação ao mesmo tempo.

Para Mitchell, o ensino de programação deve ser cada vez mais disseminado nos próximos anos. O pesquisador acredita que, no futuro, aqueles que não dominarem essa linguagem serão analfabetos. Em conversa com a reportagem de NOVA ESCOLA, Resnick deu a dica sobre quais são os dez primeiros passos a se percorrer para tornar as escolas ambientes imbuídos do que há de melhor no jardim da infância.

Como funciona o Lifelong Kindergarten?

O Lifelong Kindergarten é um grupo focado em desenvolver novas tecnologias e atividades para engajar crianças na criação de novas experiências de aprendizagem. Construir, pensar e agir criativamente tem sido mais importante do que nunca. O

Lifelong é um grupo constituído por pesquisadores, estudantes e funcionários de apoio de diferentes formações e áreas de especialização. Alguns da Educação, outros da psicologia, das ciências da computação e do design. Isto porque, em nosso trabalho, precisamos tanto desenvolver novas tecnologias da Educação quanto novas atividades educacionais a respeito do uso dessas tecnologias. Temos que testá-las com as crianças e estudar como elas estão aprendendo à medida que usam tais tecnologias, isto é, se elas se sentem engajadas em tais atividades e de que modo tais tecnologias vão influenciar a próxima geração de estudantes.

Por que você defende o jardim da infância como modelo de Educação?

Vivemos em um mundo que muda rapidamente. As crianças precisam aprender como criar novas soluções para os problemas que vão enfrentar ao longo da vida. Nós nos inspiramos por este modelo porque pensamos que o jardim da infância tradicional é um bom começo para desenvolver e nos ajudar a criar melhores pensadores. Nele, as crianças passam bastante tempo criando em colaboração uns com os outros, fazem torres com peças de Lego, desenhos com digitais e giz de cera. Neste processo, elas aprendem lições: quando fazem torres com tijolos de Lego, por exemplo, elas aprendem sobre estrutura e geometria. Mas, mais importante, elas entendem como começar qualquer atividade com uma ideia e como concretizá-la. No Lifelong Kindergarten, tentamos tomar tais lições do jardim da infância e trazê-las para os aprendizes de todas as idades, porque pensamos que é muito importante que cada um de nós continue a aprender no modelo do jardim da infância. É por isso que dizemos “lifelong” (“vida toda”), porque queremos que as pessoas aprendam e façam desse jeito ao longo da vida. Infelizmente, não é isso que acontece com a maioria das crianças. Depois do jardim da infância, os alunos gastam muito tempo sentados em cadeiras, preenchendo formulários, apenas ouvindo as aulas. Acho que essas oportunidades não desenvolvem bons pensadores. E, de fato, ultimamente, mesmo no jardim da infância, há crianças preenchendo planilhas, gastando menos tempo brincando e criando em colaboração uns com os outros, de modo que o jardim da infância tem se tornado mais como o resto da escola

O que é o Scracht?

O Scratch é um software de educação desenvolvido por nosso grupo, que se utiliza de blocos lógicos e itens de som e imagem, para que qualquer um possa desenvolver suas próprias histórias interativas, jogos e animações, além de compartilhar de maneira online suas criações. A ideia por trás do Scracht veio da música. Ele surgiu do modo com os DJs de hip hop “arranham” os vinis, juntando “pedaços” de músicas diferentes para compor o seu som. O Scracht oferece às crianças que também juntem pedaços de filmes, animações, sons e música para criar suas histórias de maneira interativa e assim, aos poucos, vão sendo introduzidas na linguagem da programação.

Por falar em programação, você já disse em outras entrevistas que, no futuro, quem não souber programar será considerado analfabeto.

Quando as pessoas pensam sobre programação, elas pensam sobre uma habilidade relacionada sempre a um programador, um cientista da computação, e é claro que essas pessoas usam a programação para o trabalho. O mesmo acontece com pessoas que trabalham com escrita, como é o caso dos jornalistas ou escritores. Mas a gente não ensina a escrever somente as pessoas que vão usar a escrita no campo profissional. Todos precisam aprender a escrever porque é assim que se podem expressar ideias e partilhá-las com os outros. Vemos a programação da mesma maneira. Para algumas pessoas, será um trabalho, mas, para a maior parte, será um jeito de expressar ideias e partilhá-las com os outros. Nossa motivação principal em desenvolver o Scracht, por exemplo, é prover formas para que todas as pessoas, não somente aquelas que se tornem profissionais da área, possam ser capazes de programar. Todas as crianças vão crescer e estarão aptas a usar tecnologia para dividir suas ideias e expressá-las.

Podemos nos inspirar em Paulo Freire no Brasil. Nos movimentos de alfabetização que ele liderou, não se tratava de uma alfabetização para que as pessoas conseguissem empregos, mas porque você precisa estar alfabetizado para tornar-se um cidadão, para ter sua voz ouvida de modo que você possa participar em sua comunidade. Eu vejo a programação do mesmo modo: uma forma de ajudar as pessoas a desenvolver suas vozes e a participar plenamente na comunidade. Infelizmente, esse não é modo como a programação tem sido ensinada hoje em dia. Aprender programação tem se resumido a aprender habilidades específicas.

Mitchell Resnick, pesquisador do MIT

Neste sentido, as escolas que ainda carecem de acesso a tecnologia tendem a ficar mais ultrapassadas?

Existem algumas limitações por conta do acesso à tecnologia, mas isso está mudando muito rapidamente. Há muito mais acesso à tecnologia hoje em dia do que há cinco anos e, daqui cinco anos, haverá muito mais do que hoje. Isso pode mudar do dia pra noite, e está mudando numa velocidade alta. Não creio que seja este o grande obstáculo. Meu grande medo tem mais a ver com o modo como essa tecnologia está sendo usada. Muitas escolas usam tecnologia apenas para transmitir informações ou transmitir entretenimento. Isso pode ser útil muitas vezes, mas a tecnologia não tem sido usada para ajudar as crianças a se tornarem pensadoras criativas. Então, a melhor opção é ajudar os professores, pais e a própria escola a entender como usar tecnologia de um jeito criativo.

Quais são os principais erros que a escola comete quando vai usar tecnologia?

Frequentemente, eles usam a tecnologia apenas para transmitir informações ou instruções, mas o mesmo problema acontece sem tecnologia. Em muitas aulas presenciais, também os professores apenas transmitem instruções e informações. O que temos que mudar é toda a nossa aproximação da Educação e do aprendizado, oferecendo mais autonomia, pensar em como tornamos a Educação um campo criativo, e aí sim, teremos certeza de que estamos usando a tecnologia para sustentar essa nova aproximação, não apenas fazendo com que a tecnologia caiba em um modo antigo de ensinar e aprender.

Por falar em Educação criativa, você poderia explicar sobre o conceito dos “4 Ps” que você apresenta em seu livro “Lifelong Kindergarten - Cultivating creativity through projects, passion, peers and play” (“Jardim de Infância pela Vida Toda - Cultivando criatividade por meio de projetos, paixão, pares e jogos” em tradução livre)?

Queremos ajudar as crianças a desenvolver seu pensamento criativo, e por isso criamos essas quatro orientações que nos ajudam a pensar sobre como desenvolver tecnologias e atividades com este intuito. O que queremos é engajar as crianças a trabalhar em projetos baseados em suas paixões, sempre em colaboração com outros pares, em um espírito de jogo.

Observamos que os projetos nos quais as crianças trabalham fariam com que elas fizessem conexões mais profundas com suas ideias. Com “projetos”, quero dizer que você aprende sobre todo o processo de criação e elaboração. Se você aprender como começar com uma ideia e criar algo novo a partir dela, de maneira experimental, partilhando-a com os outros, isso te engaja no processo de aprendizado.

Com “paixão”: já vimos que crianças e até mesmo adultos estão mais propensos a trabalhar mais fundo quando trabalham em coisas pelas quais são apaixonados. A gente persiste mais diante da dificuldade e dos desafios, se isso diz respeito a algo que nos importa. Queremos ter certeza que as crianças terão a oportunidade de trabalhar em coisas nas quais elas estejam conectadas com suas paixões.

Com “pares”: muito frequentemente as pessoas pensam que aprender é uma atividade solitária, você se senta lá e preenche uma planilha, lê um texto. Mas de fato, o melhor aprendizado e o melhor pensamento acontecem em colaboração com outras pessoas, com seus pares, com seus amigos. É na troca que a experiência se enriquece.

Com “jogo”: quando dizemos “jogo”, não queremos dizer necessariamente diversão, mas pensamos na atitude de jogador, uma atitude de experimentação constante, tentando coisas novas, se arriscando, porque se queremos chegar a novas ideias precisamos experimentar coisas novas. Então, para que as pessoas se sintam confortáveis com experimentação e com riscos, elas tem que pensar em atingir esse espírito de jogador, de brincadeira. “Nós não deixamos de brincar porque ficamos velhos, nós ficamos velhos porque deixamos de brincar”. Isso é o que deixa a mente ativa.

Quais seriam as primeiras iniciativas para implementar a Educação criativa e aproximar as escola do jardim da infância?

Em meu livro eu ofereço dez dicas para pais e professores que podem ser úteis nesse sentido. Seriam eles:

1) “Nos dê um exemplo!”: se você tiver que orientar um projeto, não é suficiente pedir que as crianças tragam ideias, mas sim, que elas mostrem bons exemplos.

2) Encoraje a “bagunça criativa”: um planejamento restrito por vezes mina a criatividade. As melhores ideias surgem, geralmente, da experimentação. É preciso encorajar as crianças a criar sem tanta segurança, perdendo o medo dos erros.

3) Materiais plurais: é importante oferecer materiais diferentes para a turma, já que cada um atende a uma especificidade. De peças de Lego a papéis de origami, quanto mais diferentes os materiais, mais possibilidades criativas eles suscitam.

4) Abrace todos os tipos de fabricação: podemos criar no mundo físico e no mundo virtual, e ambas as criações tem seu valor.  É importante reconhecer isso, afinal, cada criança tem uma potência, um tipo de habilidade diferente.

5) Ênfase no processos, e não no produto: a aprendizagem criativa se dá em uma espiral, na qual a imaginação é disparada sem saber muito bem onde vai terminar. É importante que o foco seja no processo, e não no produto, para sustentar o processo criativo das crianças sem que elas desistam.

6) Aumente o tempo para projetos: trabalhar em projetos e em experimentações leva mais tempo do que o costume, e esse tempo é preciso para que os projetos se desenvolvam sem restrições. Garantir o tempo do erro é fundamental.

7) Promova alianças entre os aprendizes: pais e professores devem estar atentos para as habilidades complementares de cada aprendiz, e atuar ativamente no sentido de promover alianças em que as facilidades de um juntem-se as facilidades do outro.

8) Se envolva como um colaborador do projeto: o professor não precisa ficar parado, apenas observando os aprendizes. Ele também pode se envolver como um participante ativo. É bom para a turma ver que os professores também podem estar em constante estado de aprendizado.

9) Faça perguntas autênticas: não pergunte questões das quais você já sabe a resposta. Pergunte coisas que você realmente quer saber, e que não são tão óbvias. “Como você sentiu com esse projeto?”, por exemplo. Esteja realmente interessado naquilo que a turma está desenvolvendo.  

10) Compartilhe suas próprias reflexões: mostre para a turma como você se sente, quais são suas reflexões, o que você aprendeu no processo com eles. Na formação de novos aprendizes, é importante que eles vejam que você também é um bom aprendiz.

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