O Enem pode ajudar a Educação Básica?

Sim. Para isso, as questões do Exame Nacional do Ensino Médio precisam ser relevantes para a vida social, cultural e profissional dos jovens

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Luis Carlos de Menezes
Luis Carlos de Menezes. Foto: Marina Piedade
Luis Carlos de Menezes é físico e educador da Universidade de São Paulo (USP)

Creio ser necessário analisar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) não só pelo que já lhe garante tanto espaço na mídia mas também pela influência que tem e terá sobre toda a Educação brasileira, dependendo de como for conduzido. Antes de discutir perspectivas, porém, é bom ver como ele surgiu e se transformou.

Quando a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) definiu qualificações gerais para os concluintes da Educação Básica, o Enem as traduziu em habilidades e competências para avaliá-las. Os resultados, enviados aos estudantes, orientariam sua escolha de carreira, revelando seu preparo para, em contextos reais, usar linguagens, compreender processos e fenômenos, enfrentar situações-problema, argumentar e elaborar textos opinativos. Ainda em coerência com a LDB, foi concebido o Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja), que combinava isso tudo com saberes disciplinares e, juntamente com uma produção textual específica, avaliava as quatro áreas de conhecimento para certificar a conclusão da Educação de Jovens e Adultos (EJA).

O atual Enem é uma versão do Encceja, mas serve hoje especialmente ao ingresso no Ensino Superior, dando também acesso ao Programa Universidade para Todos (Prouni), que subsidia o acesso a cursos de instituições particulares. Além disso, seus resultados têm gerado uma disputada classificação de escolas. Mas o que interessa agora é reconhecer a importância adquirida pelo Enem e discutir como, em função da natureza e da qualidade de suas questões, poderá influir nas diferentes etapas do nosso ensino.

Será cada vez melhor a sinalização dada pelo Enem à Educação Básica se, na sua formulação, apresentar situações-problema em contextos reais e demandar linguagens e conhecimentos que correspondam a recursos para a vida social, para a construção cultural e para a trajetória profissional dos jovens. Isso não é fácil, mas justifica-se o esforço pelo custo e pela relevância de algo dirigido anualmente a milhões de jovens. Neste ano, há esperanças nesse sentido, pois foi feito um convite geral a professores para que contribuíssem na preparação de um banco de questões, e os docentes universitários que tiverem acesso a elas talvez possam aproveitar para também reformular alguns vestibulares.

Se, pelo contrário, o Enem continuar com itens sem situações-problema, com pretextos em lugar de contextos, com questões que possam ser respondidas pela mera exclusão de alternativas absurdas e outras pedindo informações que ninguém lamentaria esquecer no dia seguinte, então, será mais uma avaliação burocrática a desorientar nosso Ensino Fundamental e também o Médio. Nesse caso, o novo Enem constituirá mais um desserviço, estimulando escolas em que, desde criança, os alunos parecem ser treinados em disciplinas estanques para disputar exames vestibulares enciclopédicos e malconcebidos, em prejuízo de qualificações essenciais para a vida, independentemente de virem ou não a cursar universidades.

E o que cada um pode fazer em relação ao Enem? Em sala, em vez de esperar que ele evolua no sentido necessário e ficar na torcida, todos podem usar sua matriz no ensino de cada disciplina. Devemos, então, simplesmente aceitá-lo? Quem concordar que aceite, sim. Quem discordar que reclame e sugira modificações, como tento fazer nesta coluna. O exame deste ano está aí: olho nele!

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