A mudança na linguagem como fator de inclusão em Ciências

Professor norte-americano defende que buscar elementos no dia a dia da comunidade pode facilitar o aprendizado dos alunos -- sobretudo em áreas carentes

POR:
Ubiratan Leal
Crédito: Getty Images

As Ciências estão em tudo. Estão na rotação da Terra que cria os dias e as noites, na eletricidade que liga a TV, no frio que se sente quando se toma chuva, no funcionamento do motor do carro, no cheiro ruim da comida que estragou. Mas nem sempre ela é apresentada assim. Muitos conceitos científicos são transmitidos em aula como linguagem distantes da realidade dos alunos. E, para o pesquisador norte-americano Bryan Brown, esse é um elemento que dificulta o aprendizado, principalmente em regiões mais carentes.

Professor da Escola de Educação da Universidade Stanford, no estado da Califórnia (EUA), Brown realizou uma pesquisa em que comparou o desempenho de alunos de minorias étnicas dos Estados Unidos no estudo de Ciências. Um grupo recebeu aulas tradicionais da disciplina, enquanto outro teve projetos que trabalhassem a ciência por trás dos elementos de seu dia a dia. O segundo grupo teve desempenho 50% superior em provas. Além disso, os alunos que tiveram aulas com linguagem tradicional erraram o triplo de vezes quando tiveram de explicar algum conceito.

Brown esteve no Brasil para apresentar os resultados de seus estudos e como ele pode ser aplicado. Segundo ele, o primeiro passo é o professor conhecer sua comunidade e a linguagem familiar a seus alunos. “Ele precisa se tornar um estudante de seus estudantes”, afirma. A partir daí, o docente poderia apresentar as Ciências de uma forma mais inclusiva. “Mudar a ideia de quem pode se tornar um cientista.”

Durante sua passagem, o pesquisador conversou com NOVA ESCOLA e até deu sugestão de como sua estratégia poderia ser aplicada na realidade brasileira (segundo o professor, dentro do pouco que ele pôde conhecer da cultura brasileira). Confira sua entrevista.

O que significa usar a linguagem do aluno?

Primeiro, precisamos entender que, em Ciências, ideia e linguagem não são a mesma coisa. Quando um cientista descobre um fenômeno, ele descobre a ideia primeiro e depois dá um nome a ela. Enquanto, após séculos de pesquisas científicas, tudo o que foi produzido se transformou em uma linguagem pesada e desafiadora para os alunos. Nossa resposta a isso é explorar o que acontece quando ensinamos as grandes ideias do conteúdo científico, uma linguagem que sabemos que ele conhece. Quando eu converso com você, vou usar apenas palavras que eu sei que você vai entender. Mas, quando ensinamos Ciências, não fazemos isso. Então, se ensinamos primeiro as ideias, com linguagem simples, eles se lembrarão da informação e até da linguagem melhor do que se ensinássemos o conceito e a linguagem da ciência ao mesmo tempo. Em uma analogia simples, se eu vou aprender uma língua estrangeira, começarei com palavras novas para conceitos que eu já conheço no meu idioma.

Você pode dar um exemplo de como se pode usar a cultura do estudante para ensinar Ciências?

Se eu fosse dar uma aula, eu começaria fazendo um estudo prévio para descobrir qual a linguagem que os alunos têm para explicar um fenômeno qualquer. Se eu estou estudando reações químicas, eu passo a eles um questionário sobre o que eles sabem sobre isso. As palavras e explicações servirão de base para eu saber que conceitos eles entendem. Se eles usarem termos como “reações físicas” e “reações químicas”, eu saberei que essas ideias eles já entendem, por exemplo.

O pesquisador norte-americano Bryan Brown (Divulgação / Universidade Stanford)

Esses conceitos podem ser aplicados em qualquer disciplina, não apenas em Ciências, não?

Acho que sim. Ele é particularmente importante em Matemática, porque envolve um sistema de símbolos que representam ideias. Podemos verificar o que os alunos conseguem traduzir dos símbolos e a apropriação deles da linguagem do dia a dia. Mas as Ciências são únicas no volume de termos, muito maior que nas demais disciplinas. Estudar História certamente envolve ideias para serem registradas, mas o volume de novas palavras não chega nem perto.

Baseado no que você já viu no Brasil, que elementos poderiam ser usados para ensinar Ciências em uma escola brasileira?

Parte do que faz um grande professor é entender os estudantes com os quais ele está trabalhando. Se eu tivesse de dar aula aqui, teria de realmente trabalhar duro para entender a cultura brasileira e onde as Ciências são parte da vida cotidiana de vocês. Por exemplo, andei de carro por São Paulo e Rio de Janeiro e vi vários apartamentos em que roupas e roupas de cama eram pendurados do lado de fora para secar. Há Ciência aí. Você pode ensinar a evaporação ou o conceito de osmose. Minha pergunta seria: “como pendurar as roupas do lado de fora produz a secagem?”. Isso daria informação sobre algo que os alunos conhecem em linguagem que eles conhecem para chegar a uma Ciência que eles entendam. Eu poderia perguntar sobre cabeamento de TV e eletricidade. Não tive a oportunidade de ver isso, mas me disseram que, em muitas comunidades, as pessoas conectam o cabo no poste ou dividem o cabo para trazer eletricidade ou sinal de TV para sua casa. Há Ciência aí também. Podemos falar de rede elétrica, circuito fechado. Se eu estou dando aula de física, não entraria na sala dizendo “vamos aprender sobre circuito fechado”. Eu prefiro entrar e explicar como uma pessoa pode levar o bairro inteiro a ficar sem luz por desplugar a rede. Essa lição é mais poderosa por dois motivos: posso encontrar a linguagem que o aluno poderá compreender e, sempre que eles virem aqueles cabos, eles se lembrarão da aula. Mas eu não conheço a cultura brasileira bem o suficiente. São apenas dois exemplos que peguei nos poucos dias de passagem pelo país.

Esse conceito de ensino pode promover mais igualdade do nível de Educação entre os centros e as periferias?

Uma coisa que pode mudar é a ideia de quem pode se tornar um cientista. O pensamento geral é que Ciências são só para a elite, e isso se deve ao fato de que nunca ensinamos Ciências no contexto ou na cultura de quem não faz parte da elite. Então, é muito difícil engajar cientificamente as pessoas que estão fora desse grupo. Então, ensinar Ciências dentro da realidade dele pode ajudá-lo a ter informações sobre por que ele deveria ser um cientista no futuro.

Que tipo de mudança de abordagem o professor precisa fazer para ensinar dentro desse conceito?

A primeira coisa que os professores precisam fazer é aprender a ensinar Ciências de forma diferente. Eles podem ter mestrado em Física, mas, se não souber onde está a Física do dia a dia da comunidade, precisará repensar a forma de ver sua disciplina. Isso exige um trabalho do docente. A outra coisa é que o professor precisa se tornar um estudante de seus estudantes. Ele precisa realmente entender as comunidades em que ele está ensinando.

Você tem algum tipo de dinâmica diferente na classe para fazer os alunos entenderem que a aula será diferente do tradicional?

Certamente. Assim que entro na classe, peço aos alunos para falarem sobre os problemas mais importantes de seu bairro e começamos a falar de Ciências dentro desse contexto. Isso certamente os motiva mais. Ao invés de falar “vou ensinar a vocês sobre bolor”, pergunto “sabem por que os vegetais são guardados dessa forma nos mercados?”. O papel do professor é especialmente importante na segunda fase, que é fazer os estudantes entenderem a ideia científica no cotidiano dele. Em um terceiro momento, os alunos fazem testes, experimentam o conceito e, no final, podem entrar em contato com a comunidade para ver o que aprenderam na prática.

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