"Ela queria ser socióloga como eu, porque fiz com que ela acreditasse que era capaz"

Eliane conta como trabalhar com Beyoncé e tribos urbanas ajudou uma aluna a não deixar sua deficiência impedi-la de crescer

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NOVA ESCOLA
A cantora norte-americana Beyoncé durante show em São Paulo (Marcos Hermes / Divulgação)

Sou professora de sociologia e sofri muito quando comecei a lecionar. Trata-se de uma disciplina que poucos conheciam, que é perseguida até hoje e carrega temas sensíveis. São muitas as histórias que poderia contar aqui, mas tem uma que diz respeito mais à minha atuação como professora e que me emociona muito: a de uma menina cadeirante que foi aluna minha no Ensino Médio.

Ela era arredia, não produzia nada. Nos conselhos de classe, a conversa era a mesma para todos os alunos portadores de alguma necessidade especial: "não vai muito além disso, dá uma nota suficiente para passar!". Embora eu me incomodasse com aquilo, a aluna não me permitia aproximação. Ela chegou a me dizer que me odiava e não entendia nada do conteúdo. Acho que saber que ela não gostava de mim fez com que isso me desafiasse ainda mais.

Voltei à turma dela no 3º ano, com conteúdo que falava sobre cultura. Descobri que ela era apaixonada pela Beyoncé. A partir daí, usei isso como referência e pedi trabalhos sobre cultura pop, tribos urbanas, identidade jovem, exclusão e bulliyng. A concepção de tribos urbanas foi usada como comparação com os padrões instituídos socialmente como desejáveis e falar como a identidade jovem é moldada, negando alguns valores e agregando outros. A ideia foi trabalhar alteridade e diversidade cultural, de forma que os alunos percebam que há uma multiplicidade de sujeitos e que nossa identidade social, assim como a cultura, está em constante transformação quando estamos abertos ao aprendizado. Falamos de papéis sociais, de feminismo.

Foi nesse contexto que entrou a Beyoncé, pois está relacionado ao que eles consomem enquanto música e cultura popular. A aluna sabia tudo dela e estava na fase de compreensão sobre empoderamento feminino. O que fiz foi relacionar aquilo que era apenas uma musica com letras fortes, com a teoria que fundamenta tais letras. Dei aula para toda a turma, mas sabia que, ao abordar a cantora em várias aulas, faria com que aquela aluna se mantivesse interessada pela discussão.

Dei a eles um trabalho com músicas de sucesso, de acordo com o que estavam acostumados a ouvir. Que desconstruíssem a letra, buscando pontos de reprodução de violências simbolicas e sexistas em comparação com letras que valorizassem a mulher. Parti do principio que buscariam as letras de funk, mas eles trouxeram de tudo: de MPB ao sertanejo universitário, muito consumido aqui no interior do Paraná.

Ela participou de tudo. Esforçava-se nas provas e, apesar de nunca ter sido aluna de tirar notas altas (ela tinha também hidrocefalia e atrofia renal, descobri conversando com ela sobre superar padrões sociais), ela evoluiu bastante. As notas que ela tirava eram reais, de acordo com sua produção. Eu não estava "dando" notas.

Como o assunto interessava a ela, começamos a conversar nos corredores da escola. Depois ela me adicionou no Facebook, e consegui conhecer um pouco mais sobre suas preferências e personalidade. Ela era bem consciente da exclusão que sofria dentro da escola, que sempre passava de ano sem precisar se esforçar por conta da deficiência. Então, quando ela se viu envolvida pelo conteúdo, tirando tempo para estudar, se reunindo com outros alunos e participando de trabalhos em grupo, percebeu que poderia ir mais além.

No final do ano, a chegou para mim e diz que iria fazer vestibular. Ela queria ser socióloga como eu, porque fiz com que ela acreditasse que era capaz, ganhasse força e novas perspectivas. Mesmo que não passasse, sabia que não podia parar de tentar outras coisas na vida. Ela aprendeu que suas limitações físicas não podiam impedir de tentar ser mais feliz. Sempre me emociono quando meus alunos dizem que querem seguir a mesma área que eu, mas me emocionei mais por ela dizer que faria o vestibular, indiferente do curso. No dia da colação de grau, entreguei o canudo pra ela. Choramos.

Eliane Oliveira, 45 anos, mora e trabalha em Sarandi (PR) e leciona há seis anos

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