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“Professora, pessoas pobres podem entrar na Sala São Paulo?”

Uma visita à orquestra mostrou aos alunos que cultura é um direito de todos

POR:
NOVA ESCOLA
Crédito: Rubens Chiri / Divulgação Osesp
Esse texto é parte do especial de Dia dos Professores de NOVA ESCOLA. Para ver outros relatos de professores, clique aqui. Para mandar a sua história, mande um e-mail para novaescola@novaescola.org.br.

Era 2008. Assumi uma turma difícil da rede pública, desmotivada pela repetência e com sérias questões de consumo de drogas. Esses alunos do 8° ano estavam naquelas antigas salas de aceleração no período noturno. Como tenho habilitação em música, decidi usar os meus conhecimentos para trabalhar as canções orquestrais durante as aulas de Arte.

A cada dois anos eu realizo cursos de atualização e um deles tinha como requisito levar os alunos a concertos didáticos e trabalhar com atividades lúdicas. Por isso, decidi planejar uma visita ao concerto noturno do Programa Descubra a Orquestra, que ocorre na Sala São Paulo [principal sala de concertos da capital paulista]. O objetivo era resgatar a autoestima desses jovens por meio da música.

Antes do passeio, disse para a turma “estou investindo em vocês porque acredito que são pessoas merecedoras. Nós estudamos a história do patrimônio público arquitetônico e cultural de São Paulo e vocês precisam usufruir disso como cidadãos”. Mostrei a programação do que seria apresentado e os tipos de instrumentos. O repertório incluía músicas de filmes de cinema, o que deixou os alunos mais motivados a ir.

Durante a preparação, um aluno tímido chamado Luciano se aproximou de mim e falou que seu pai ficou empolgado com a visita ao lugar. Entreguei um panfleto da Sala São Paulo para o aluno levar para casa.

No dia do passeio, todos os alunos estavam na fila. Enquanto esperávamos, apresentei o prédio, falei sobre o estilo grego das colunas, os vitrais que contavam o ciclo do café e a história do prédio. Na abertura do concerto os alunos aprenderam sobre o tratamento acústico da construção. As adolescentes tiraram muitas fotos para registrar o momento.

Após esse dia, notei que o aluno introspectivo que havia me pedido o panfleto estava mais próximo de mim. Ao final de uma aula, ele me chamou e perguntou se todo mundo poderia visitar a Sala São Paulo, mesmo que fosse pobre. Eu disse que aquele espaço pertencia ao povo e que, uma vez por mês, os concertos matinais de domingo custavam 2 reais (valor da época) e que estudantes e idosos pagavam meia entrada.

Ele me contou que o pai dele trabalhava próximo à Estação da Luz [estação de trem e metrô localizada ao lado da Sala São Paulo] e que, durante o almoço, costumava parar na calçada daquele lugar chique só para ouvir os instrumentos do lado de fora. Disse para ele procurar no site do lugar para verificar quando o próximo concerto aconteceria.

Uma semana depois ele conseguiu levar o seu pai para a orquestra. Luciano disse que o senhorzinho chorou emocionado ao pisar dentro da Sala São Paulo. Ele mal conseguia ouvir a música, pois não acreditava que estava lá dentro. O aluno me agradeceu por me mostrar que podia frequentar lugares como esse. Ele estava feliz em saber que poderia ir com seu pai aos concertos matinais sempre que pudesse.

Mas há coisas que um relato não conta. Aqueles olhinhos brilhantes, a emoção, os aplausos, o abraço que eu recebi quando ele falou sobre o pai... Talvez ele nunca saiba o quanto a fala dele foi importante para direcionar minha carreira, minha intuição como docente. As pessoas ainda vêem a Arte como uma disciplina voltada para o "sensorial, lazer, relaxamento", quando poucos sabem a carga histórico-cultural e de desenvolvimento de quem opta em educar para o olhar crítico. 

Marta Guedes, professora de Arte na rede pública de São Paulo desde 2003

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