Quanto mais jogos o professor puder usar na Educação Física, melhor

OPINIÃO: Adotar modalidades populares em outros países não é submissão cultural, mas apresentar novas possibilidades aos alunos

POR:
Ubiratan Leal
Jogo de taco, uma adaptação brasileira do britânico críquete, em escola de Porto Alegre (Divulgação / Secretaria de Educação de Porto Alegre)

“Pai, hoje o professor deu futbeiqueimada na aula de Educação Física." Meu filho estranhou porque nunca tinha visto essa modalidade na TV, e ele ainda não tem idade -- está com seis anos -- para entender que nem todas as atividades atléticas escolares são baseadas em modalidades esportivas disputadas em competições oficiais. “Era tipo beisebol, mas a gente chuta a bola em vez de rebater, e depois o outro time tem que acertar a bola na gente enquanto estamos correndo, como na queimada”, resumiu ele as regras desse esporte, semelhante a algumas versões simplificadas e abrasileiradas que a Confederação Brasileira de Beisebol e Softbol criou para que sua modalidade tivesse mais espaço nas escolas.

Essa conversa com o meu filho me fez lembrar dos comentários de que esportes populares de outros países seriam inadequados à Educação Física por não serem culturalmente brasileiros o suficiente, ou que praticá-los na escola seria sinal de imperialismo. Houve algumas manifestações nesse sentido durante as audiências públicas da Base Nacional Comum Curricular, ocorridas entre julho e setembro. Houve até no Facebook de NOVA ESCOLA quando falamos sobre como o futebol americano poderia ser usado em aula.

PLANO DE AULA: Introduza o beisebol nas aulas de Educação Física

Claro, o fato de ter conexão com a cultura brasileira deve fazer que um conteúdo tenha preferência sobre outro. Mas o que seria uma atividade esportiva dentro de nossa cultura? Queimada e jogos infantis tradicionais obviamente se encaixam nisso. Mas futebol, basquete, vôlei e handebol, largamente praticados em Educação Física, têm origem estrangeira e chegaram a ser combatidos na época em que ainda se estabeleciam no país. Hoje, com espaço já consolidado, consideramos natural sua presença nas aulas.

Ainda que cada atividade tenha uma origem, elas sempre foram reinterpretadas -- seja em adaptação de regras, seja como forma de praticar -- quando inseridas em regiões diferentes. Dois dos jogos infantis mais populares do Brasil, o taco (também conhecido como bets) e o paredão, surgiram como adaptações de modalidades que parecem completamente alienígenas em nossa cultura, o críquete e a pelota basca. O britânico rúgbi virou símbolo dos povos nativos da Nova Zelândia. O beisebol -- chamado pelos norte-americanos de “passatempo nacional” -- é a modalidade mais praticada no Japão e ainda virou obsessão em nações culturalmente próximas à nossa, como República Dominicana, Cuba, Porto Rico e Venezuela.

Com isso, a aula de Educação Física se transforma em uma aula de linguagem, de como se expressar dentro da dinâmica de cada atividade. O professor tem a capacidade de identificar que jogo oferecerá os elementos que ele considera importante trabalhar com aqueles alunos. Quanto maior for o leque de modalidades à disposição do docente, tanto melhor. Porque, no final, o que os estudantes farão não é expressar uma cultura norte-americana, inglesa, italiana ou japonesa. É a sua própria.

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