Blog de Alfabetização

Troque experiências e boas práticas sobre o processo de aquisição da língua escrita.

Coloque os alunos para fazer (e escrever) entrevistas

O texto jornalístico pode ser usado desde a alfabetização

POR:
Mara Mansani
Ilustração de duas mãos segurando microfones e uma mão segurando um gravador sobre fundo verde
Crédito: Getty Images

Na alfabetização, utilizamos com mais frequência os textos literários como poemas e contos nas atividades de leitura e escrita. Na maioria das vezes, não levamos em conta as ótimas possibilidades que outros tipos de textos nos proporcionam para alfabetizar nossos alunos. Exemplo disso são os textos jornalísticos, que ocupam pouco espaço nas series iniciais, tanto na leitura como nas atividades de escrita.

Pensando nisso, que tal ampliar o uso desses textos e explorar as entrevistas como texto para alfabetizar nossos alunos?

A entrevista é um dos gêneros textuais com função predominantemente informativa, em geral veiculada pelos meios de comunicação. É uma conversa entre duas ou mais pessoas em que perguntas são feitas ao entrevistado para se obter as informações necessárias dentro de um determinado tema em que ele se destaque, que tenha vivência ou faça parte.

A proposta de entrevista na Alfabetização envolve vários saberes: autonomia na escrita, características do gênero, foco no tema, escrita alfabética, entre outras coisas. É uma tarefa complexa, mas com as devidas orientações e intervenções, pode render muita aprendizagem. 

No último mês, desenvolvi um projeto didático de entrevistas com meus alunos. Eles, sozinhos, elaboraram a pauta e as perguntas que fariam. Primeiro entrevistaram a mim, como teste. Em seguida, elegeram algum funcionário da escola para saber mais sobre a sua vida. Veja quem eles escolheram e o passo a passo do projeto a seguir:

1º passo: Modelizando

Para começar o trabalho com esse tipo de texto, precisamos apresentar modelos de entrevistas aos alunos, seus suportes e meios de comunicação que os veiculam. Em uma roda de leitura, apresentei aos alunos algumas entrevistas com temas do universo infantil. Levei jornais e suplementos infantis. Outra possibilidade é exibir vídeos de entrevistas, como esta entrevista que NOVA ESCOLA fez com o escritor Pedro Bandeira.

Conversamos sobre o que eles já sabiam e o que haviam descoberto a partir das entrevistas. Apesar de estarem muito interessados e terem muito conhecimento sobre o tema, nenhum deles havia participado de uma entrevista antes.

2º passo: Experimentando a escrita

Expliquei aos alunos que faríamos as seguintes entrevistas:

- Uma comigo, a professora da turma;
- Uma com outro profissional da escola que eles escolhessem;

Mesmo após a modelização, alguns alunos estranharam a proposta de escrever uma entrevista, afinal, ela geralmente acontece na forma oral. Expliquei a eles que o entrevistador precisa se preparar para fazer a entrevista, planejar o que vai perguntar, e que as perguntas precisam ser escritas, como forma de se organizar para obter as informações que precisa.

Os alunos escreveram, individualmente, perguntas para me entrevistar. Acompanhei as escritas fazendo intervenções quanto à escrita alfabética, às questões ortográficas, o uso da pontuação adequada e ao gênero entrevista. Todos os apontamentos em relação a esses itens foram socializados com toda a turma. Por exemplo, o uso do sinal de interrogação nas perguntas, como se escreve determinada palavra, o uso do "por que" na pergunta, as perguntas repetidas e não muito claras, etc.

Como toda criança de 7 a 8 anos, curiosa por natureza, meus alunos fizeram perguntas muito interessantes e inteligentes, em geral sobre meu trabalho e algumas características que eles acham que combina com um professor, como se eu gosto de estudar ou de ler livros. Foi um prazer respondê-las, pois estreitamos nosso relacionamento.

A segunda entrevista foi com um funcionário da escola. Os pequenos escolheram dona Marlene, a merendeira. A profissão dela gera muita curiosidade da turma, que fez várias perguntas relacionadas a cozinha. Lemos todas, que haviam sido feitas individualmente, selecionamos as que eles consideraram melhores e eliminamos as repetidas. Filmei a entrevista, porque precisávamos guardar as respostas para compor o texto completo.

Foi uma experiência muito gratificante, para os alunos e para a dona Marlene. Todos assumiram seus papéis de entrevistadores e de entrevistada com muita seriedade e responsabilidade. Veja abaixo algumas perguntas que Marlene respondeu:

“Que comida a senhora não gosta de comer?”

“Já sofreu alguma queimadura no fogão?”

“Com quem aprendeu a cozinhar?”

“Gosta de ser merendeira?”

“Qual a comida mais difícil de se fazer?”

"Com quantos anos começou a cozinhar?”

Após a transcrição das respostas, os alunos receberam o texto consolidado para leitura e análise. E a turma gostou da brincadeira. As próximas entrevistas já estão marcadas: uma com um membro da família e outra com uma escritora de nossa cidade. Mas essa história fica para outro post.

Já faz esse tipo de projeto com seus alunos? Conte aqui nos comentários! A quem se inspirou, boas entrevistas para vocês!

Um forte abraço e até a próxima segunda-feira!

Mara Mansani

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