Rodrigo Ratier Jornalista e professor da Faculdade Cásper Líbero. Fundou um curso de redação gratuito e deu aulas no Ensino Médio público e particular. Antes de Nova Escola, trabalhou em revistas como Galileu, Mundo Estranho e Superinteressante. É doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP). Torce para o Santos. Pontualmente às 17h30, larga tudo para buscar a Luiza na escola (e, em breve, também a Clara).

Um bônus de ser pai ou mãe: fazer novos amigos

Opinião: ter filhos é uma chance que a vida oferece para novas amizades

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Rodrigo Ratier
Crédito: Getty Images

De onde vêm seus amigos?

Se pensarmos bem, não são tantas as oportunidades de conhecer gente nova na vida. Se bobear, a gente até conhece dezenas de pessoas por dia. Outra coisa é criar conexões, compartilhar experiências e ter aquela certeza, quase nunca explicitada, mas sempre sentida, de que você pode contar com alguém. Ou seja, aquilo que chamamos de amizade.

Meus amigos vêm dos mesmos lugares que os seus. Primeiro, na família -- a minha é pequena, então não são muitos. Depois vem os vizinhos, que sei onde estão pelo Facebook, mas não passa muito disso. Terceira fonte: a escola. E aí quem migrou de área -- como eu, que fui do técnico em eletrônica ao jornalismo -- tende a se distanciar do grupo (outras ideias, outro rolê, já diria Mano Brown). Sobram a faculdade e o trabalho, sendo esse último ambiente não costuma ser o lugar mais propício para manifestação de afetos.

E fim. Meu ponto é que, lá pelos 30 anos, boa parte das oportunidades sociais para fazer amigos já passaram. Novidades inesperadas acontecem. Mas, em geral, a gente tem de se virar com os poucos (ou muitos) e bons até o fim.

Pensava que seria assim comigo. Mas, depois que me tornei pai, novas situações surgiram. E elas me colocaram diante de outras pessoas, muitas delas tão legais a ponto de se tornarem amigas.

O vínculo mais óbvio é com pais e mães da escola. Há uma relação de identificação (estamos todos no mesmo barco de criar uma criança nesse mundo complicado) que cria vínculos de solidariedade. Vai atrasar hoje? Pode buscar seu filho na minha casa. Acabou a fralda? Claro, use as da minha bolsa. Vai ter mais um filho? Tenho roupinhas e brinquedos que você pode aproveitar.

O interessante é que o assunto crianças é apenas a porta de entrada. Com Fernando e Milene temos planos de recuperar uma praça. Maria e Hedi são ótimos para falar de política. Com a Isa aprendo muito sobre literatura, inclusive roubo várias dicas para minhas aulas. Com o Gabriel tomamos cerveja e discutimos futebol. Da Vivi e do Daniel nos aproximamos ao ponto de sermos recebidos como família na casa deles em outro país.

Há outras pessoas. Gente que se solidariza por nossa condição, gente que se encanta com nossa filha. São pessoas de faixas etárias variadas que têm em comum o fato de se aproximar para ajudar.

Tenho a impressão que a solidariedade é outro excelente cartão de visitas. No meu caso, gerou uma proximidade com vizinhos de porta que eu nem conhecia. E convites para pizza, bolos variados -- nossa vizinha Márcia é uma excelente cozinheira -- e pedidos para ficar com a chave quando vamos viajar. Ainda não são amizades profundas. Mas, num mundo em que a desconfiança é a regra e os laços sociais são cada vez mais superficiais (grandes condomínios em São Paulo podem ser solitários), essa é uma excelente notícia.

Todo o respeito a quem não quer filhos. O registro, aqui, é puramente pessoal. A paternidade não para de me surpreender! A chance de fazer novos amigos é um bônus inesperado e muito bem-vindo para essa fase da vida. Quem diria que a vida me apresentaria uma outra chance.

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