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12 de Setembro de 2017 Imprimir
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Um bom professor não usa laudo como desculpa

A medicina pode ter algo a dizer sobre seu aluno. Mas, na sala de aula, a voz é sua

Por: Leandro Beguoci
Foto: Ricardo Toscani

Vamos começar pelo óbvio. A sala de aula é um dos ambientes mais desafiadores do mundo. E a complexidade cresce ainda mais quando há alunos com comportamentos que escapam muito do habitual, seja pelo excesso de energia ou pela falta de atenção.

Mas o óbvio não é o bastante para garantir uma Educação de alta qualidade para cada criança, para cada adolescente. Por isso, quero fazer uma provocação. Por que você abdica do seu poder de educar? Estou falando dos laudos médicos, tema da reportagem de capa desta edição.

Mesmo entre nossos melhores professores, nas melhores escolas, com as melhores condições de trabalho, os laudos se propagam como fogo em palha seca. Percebemos esse movimento recentemente. Aparece no nosso site, nas redes sociais, nos encontros com leitores. “Esse aluno tem um laudo”, “essa aluna ainda não tem laudo, mas precisa”, “é certamente um caso de laudo”. Aos poucos, a linguagem médica capturou a pedagógica.

Não há nada de errado em aprender com outras áreas do saber. É ótimo contar com o conhecimento de especialistas para identificar problemas que nós, por formação, não conseguimos. É justamente isso: contamos com (ou seja, somamos). Não se trata de obrigar ou limitar. Um laudo não deveria diminuir as expectativas que temos sobre os alunos. Deveria, apenas, acrescentar uma informação sobre como lidar com as pessoas. O problema é que o contar virou limitação.

O laudo se transforma em um atestado para o professor. Já que determinado aluno tem um transtorno médico, muitos educadores se sentem confortáveis em diminuir as expectativas sobre ele. Isso precisa acabar. Vários países que deram grandes saltos em Educação também passaram por uma grande mudança de atitude. Eles dialogaram com os professores. Mostraram aos educadores que é preciso acreditar numa verdade simples: todos os alunos podem aprender. Cada um no seu ritmo, é verdade, mas podem.

Em uma interessante biografia de Albert Einstein (1879-1955), o escritor David Bodanis relata os anos escolares do futuro gênio. Ele era indisciplinado, rebelde, não prestava atenção na aula. Um professor do jovem Einstein um dia disse: “Você nunca chegará a lugar nenhum!”. Depois, ao refletir sobre a escola, o homem que revolucionou nossa concepção de Universo reservaria linhas amargas à sala de aula: “É simplesmente um milagre que nossos métodos modernos de instrução ainda não tenham suprimido inteiramente a sagrada curiosidade pela investigação”.

Vamos terminar voltando ao óbvio. Nem todos os alunos, com ou sem laudo, serão futuros Einsteins. Mas, na sala de aula, você, professor, é o gênio da pedagogia. Você domina a didática. É você, com seu conhecimento, que pode ajudar um jovem talento a despertar. Não abra mão do seu poder. Com ou sem laudo. Alguma questão? Me escreva em leandro@novaescola.org.br. 

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