os valores humanos entre homens e animais

POR:
professor

Objetivo(s) 

- Analisar a relação entre a sociedade contemporânea e os animais domésticos
- Explorar as similaridades e diferenças entre homens e animais
- Apresentar as ideias de cultura e consumo como traços distintivos da espécie humana

Ano(s) 

1º, 2º, 3º, 4º

Tempo estimado 

Duas aulas

Material necessário 

Reportagem de VEJA:

- Cópias da matéria "Lulu Pop Star" (Veja, 14 de agosto de 2013, 2334) para todos os alunos

Desenvolvimento 

1ª etapa 

Na matéria de Veja, "Lulu Pop Star" (14 de agosto de 2013), somos apresentados a pessoas que tratam seus animais de estimação como se eles fossem seres humanos. Ainda que esse comportamento possa ser visto como uma excentricidade ou exagero, esse fato social cada vez mais comum permite problematizar a relação entre humanos e animais domésticos na contemporaneidade. Além disso, o texto abre margem para discutir as similaridades e diferenças entre os homens e os animais.

Este plano de aula discute essas questões, procurando incentivar nos alunos a curiosidade e reflexão crítica sobre a relação de nossa sociedade com os animais e, ao mesmo tempo, a própria natureza do "animal humano". 

Inicie a aula com um bate-papo informal. Procure saber o que a turma pensa sobre os animais de estimação, quais os pets preferidos dos alunos, quais estudantes possuem algum bicho de estimação e como são os cuidados com esses animais no dia a dia. Em seguida, distribua as cópias da reportagem de Veja e realize uma leitura dirigida do texto. Ao final da leitura, direcione a discussão por meio de perguntas como:

- Por que as pessoas possuem animais de estimação?

- Quais as espécies de animais domesticadas pelos seres humanos?

- O que as pessoas mencionadas na reportagem pensam sobre seus animais de estimação? Quais os traços em comum entre essas pessoas?

- É possível que animais de estimação tenham perfis em redes sociais ou escolham sua própria alimentação? Eles podem fazer escolhas de consumo? Como esses animais se comportariam se fossem criados por outros humanos em condições econômicas e culturais distintas? Ou em outra época histórica?

Incentive a turma a fazer comentários ou observações, procurando ouvir e comparar opiniões diferentes. Para aprofundar a discussão, faça uma exposição utilizando o texto de apoio abaixo:

 

O homem e os animais domésticos

De acordo com a Convenção sobre a Diversidade Biológica, um tratado internacional adotado por 168 países do mundo, as espécies vegetais e animais domesticadas são aquelas cujo "processo evolucionário tem sido influenciado pelos humanos, para satisfação de suas necessidades". No caso específico dos animais, o processo de domesticação serviu para a produção de alimentos, transporte e força de tração para a agricultura, proteção, companhia e até mesmo uso em experimentos científicos.

Evidências arqueológicas indicam que os cães foram os primeiros animais domesticados, descendendo originalmente de lobos que se juntaram aos acampamentos das tribos de humanos caçadores-coletores. Especula-se que ambas as espécies se beneficiaram dessa relação: os cães encontravam nos acampamentos humanos maior proteção ao clima e acesso a restos de alimentos, enquanto os humanos se utilizavam desses animais para a caça, segurança e, posteriormente, para o manejo de rebanhos.

No entanto, convém salientar que na longa trajetória humana, apenas muito recentemente os animais passaram a ser vistos como "companheiros", ao invés de animais "funcionais". No caso dos cães, sua adoção como animais exclusivamente de estimação ou "de companhia", ainda que fosse comum para os nobres em períodos históricos passados, segundo a pesquisadora australiana Emma Power, foi apenas nos últimos 60 anos que os cães passaram a "morar dentro de casa", convivendo com os humanos e como membros das unidades familiares.

Essas mudanças culturais e de atitudes em relação aos animais de estimação se inserem em um debate mais amplo sobre a diferenciação entre humanos e os animais em geral. Em um dos extremos das possíveis posições filosóficas e comportamentais em relação aos animais encontra-se a ideia (nem sempre declarada explicitamente) do especismo. O termo, popularizado pelo filósofo australiano Peter Singer, é usado para designar os posicionamentos e escolhas morais realizadas pelos humanos quando consideram a espécie humana como diferente e superior aos outros animais, de forma semelhante ao sentido dos termos racismo e sexismo. Em outras palavras, a postura especista implica que o pertencimento à espécie humana é suficiente para justificar a dominação e uso indiscriminado dos outros animais para, por exemplo, abate e consumo de carne. Nesse sentido, a superação do especismo é um dos argumentos centrais dos defensores dos animais e adeptos do veganismo.

No outro extremo, encontra-se a tendência do antropomorfismo, isto é, a atribuição de características, personalidades e peculiaridades humanas aos animais. O antropomorfismo possui antecedentes nas religiões antigas e nas artes (como, por exemplo, nas Fábulas de Esopo) e pode ser considerado um mecanismos cognitivo para entendermos o comportamento animal. Além disso, psicólogos indicam que em certo grau essa humanização nos permite ter cuidado e afeto pelos animais. No entanto, em excesso essa postura pode indicar problemas de relacionamento social, solidão ou isolamento. Vale lembrar que os humanos podem ser seletivos ao atribuírem características humanas aos animais: enquanto a antropomorfização de cães e gatos é importante para o contexto de convivência cada vez mais íntima entre humanos e seus bichos de estimação, no ocidente os animais destinados ao abate continuam, em sua maioria, "desumanizados", pois afinal não é conveniente ou prático que se tenha empatia com eles.

(elaboração: Maiko Rafael Spiess)


 

Para finalizar, estimule os alunos a reavaliarem a reportagem de Veja, considerando as informações apresentadas acima. Na opinião deles, qual o posicionamento assumido pelos donos de animais descritos no texto: especismo ou antropomorfismo? Ou nenhum dos dois? Eles são favoráveis a alguma das posições apresentadas ou enxergam alternativas possíveis para a relação entre os humanos e animais? "Fama" e "consumo" são ideias que fazem sentido para os animais? O que diferencia, no final das contas, os animais estimação e seus donos?

2ª etapa 

Para iniciar esta etapa, escreva no quadro ou leia para a turma a seguinte frase atribuída ao filósofo Bertrand Russel:

"Não importa o quão eloquentemente um cachorro possa latir, ele nunca poderá lhe contar que os pais dele eram pobres, porém honestos."

Na opinião dos alunos, o que o filósofo quis dizer com isso? A afirmação implica que os cães são inferiores aos humanos ou apenas diferentes? Existem outras coisas que os animais, quando comparados com os humanos, não são capazes de fazer? Para continuar o debate, utilize o texto de apoio abaixo para introduzir a noção de cultura:

 

Humano, demasiado humano

Pesquisas científicas demonstram que muitos animais são dotados de capacidades emotivas, de memória e de realização de atividades complexas. Frequentemente, surgem na mídia especializada e na internet, notícias sobre animais capazes de realizar operações aritméticas básicas, utilizar ferramentas rudimentares ou até mesmo que consigam identificar palavras usadas pelos humanos. Diariamente, descobrimos que os animais são mais inteligentes do que poderiam supor nossos antepassados.

No entanto, dentre todos os animais existentes no planeta, supõe-se que apenas o ser humano desenvolveu as características necessárias para permitir o raciocínio abstrato, o uso de linguagens complexas, aprendizado e o desenvolvimento de diferentes tecnologias. No final das contas, o ser humano é o único animal que domina o fogo, cozinha seus alimentos, usa vestimentas e que aprendeu a domesticar outros animais. Nesse sentido, um dos principais aspectos que distinguem os humanos dos demais animais é sua capacidade de reproduzir esses avanços por meio da cultura.

A cultura pode ser definida como o conjunto de padrões comportamentais, explícitos ou implícitos, transmitidos e adquiridos por meio de símbolos e linguagens, e em muitos casos incorporados em artefatos materiais. A cultura influencia a forma como vivenciamos o mundo e nos relacionamos com outras pessoas, ditando os comportamentos previstos e aceitáveis para as diversas situações com as quais podemos nos defrontar. A necessidade de alimento é um fator biológico da condição humana, que compartilhamos com outros animais. Todavia, os detalhes de nossas refeições, sua composição, frequência e as regras de etiqueta relacionadas são aspectos intrinsicamente determinados pelo contexto cultural onde vivemos. Brasileiros e japoneses são membros da mesma espécie, mas suas práticas de alimentação são drasticamente diferentes, pois estão inseridos em diferentes culturas.

Nas ciências sociais, costuma-se dizer que a cultura tem duas dimensões: material e imaterial. A cultura material é tudo aquilo que os homens adaptam da natureza para uso próprio ou coletivo, atribuindo significado ao objeto no processo. Um computador, por exemplo, é um objeto material, produzido a partir de recursos naturais, que representa certos padrões culturais (das sociedades industriais), mas que pode não ter o mesmo significado em outros (digamos, em uma tribo isolada na Amazônia). Por sua vez, a cultura imaterial é o conjunto de ideias, crenças, práticas, normas e linguagens compartilhados por um grupo humano. As nuances das linguagens e a interpretação contextual de situações sociais - por exemplo, as regras de etiqueta para um jantar formal - são exemplos da dimensão imaterial das culturas humanas. Muitas vezes, essas regras não estão escritas em lugar algum e, mesmo assim, são compartilhadas pela maioria dos membros de uma cultura.

A produção industrial, o comércio e o consumo de bens materiais são também traços marcantes das culturas ocidentais contemporâneas: nesses contextos, os bens de consumo possuem dimensões imateriais que vão muito além da satisfação das necessidades biológicas dos seres humanos (alimentação, abrigo, saúde). Em muitos casos, os bens materiais são adquiridos apenas com a finalidade de demonstrar uma posição econômica ou cultural superior, sem levar em conta sua utilidade prática e material direta. Esse fenômeno, chamado pelo sociólogo norte-americano Thorstein Veblen de consumo conspícuo ou ostentatório refere-se ao fenômeno essencialmente cultural (e, portanto, humano) de aquisição e consumo de bens materiais como uma forma de distinção social.

Dessa forma, os homens e os demais animais não poderiam ser mais diferentes. O ser humano é o único animal que possui cultura, mas é também a única espécie que explora o meio ambiente e os outros animais apenas para se diferenciar de seus pares.

(elaboração: Maiko Rafael Spiess
 

3ª etapa 

Recapitule com a turma as principais ideias abordadas na sequência didática. Certifique-se de que não restaram dúvidas sobre os conceitos apresentados. Solicite que os alunos elaborem um texto curto (entre quatro e seis parágrafos), abordando as noções de cultura e consumo ostentatório e empregue esses conceitos na análise sobre a relação entre os donos e as "celebridades" animais apresentadas na reportagem de Veja. A relação entre essas pessoas e seus bichos de estimação indica preocupação com o bem-estar deles ou trata-se de uma nova forma de consumismo ostentatório, que reafirma uma posição social por meio dos animais?

Avaliação 

Os alunos serão avaliados por sua participação nas aulas, compreensão dos temas e sua capacidade de raciocínio crítico. Considere também a criatividade e a qualidade dos textos produzidos na última etapa.   Quer saber mais? SINGER, Peter. Libertação Animal. Editora Lugano, 2004. VEBLEN, Thorstein. A Teoria da Classe Ociosa. Nova Cultural, 1987.    

Créditos: Maiko Rafael Spiess Formação: Sociólogo, mestre e doutorando em Política Científica e Tecnológica pela Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP

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