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O convívio na escola precisa ser estudado e planejado

Espaço de Convivência

POR:
Telma Vinha
Telma Vinha. Foto: Alexandre Battibugli

Telma Vinha
Professora de Psicologia Educacional da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

São visíveis o desânimo e a indignação demonstrados por muitos professores diante das atitudes dos estudantes. Eles relatam condutas ofensivas, como agressões e humilhações, e também posturas omissas diante de situações de injustiça e desrespeito no cotidiano.

Uma pesquisa coordenada por Suzana Menin, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), investigou projetos de Educação moral realizados em escolas públicas. Os resultados são um alerta: grande parte não apresentava o desenvolvimento moral almejado, pois, na prática, visava o controle disciplinar. Além disso, eram iniciativas de curta duração, com predomínio da transmissão de informação, feitas por um único professor ou grupo - a maioria sem passar por qualquer formação nessa área - e direcionadas somente aos alunos, como se o problema da convivência fosse só deles.

Tais dados contribuem para refletirmos sobre a necessidade de estudar e planejar coletivamente o convívio na escola, da mesma forma que é feito em relação às demais áreas do currículo. No Brasil, essa ideia ainda é nova, visto que essas temáticas quase inexistem na formação docente. Porém, na Espanha, desde 2011, as instituições de ensino devem elaborar seu plano de convivência, que constitui um aspecto do projeto educativo.

Trata-se de um documento que estipula as linhas gerais do modelo de convívio a ser adotado na escola, as normas que o regulam, os objetivos e as ações para alcançá-los. Ele também define o que é convivência e até onde se quer avançar nessa área. Conscientiza e sensibiliza a comunidade educativa sobre a importância de zelar pela qualidade do convívio e o que pode ser feito para melhorá-lo. É um projeto coletivo, pensado por aqueles que fazem parte da instituição educativa.

Os ganhos gerados por um projeto assim são diversos, como a prevenção dos conflitos, o desenvolvimento de relações mais respeitosas e a melhoria do clima escolar. Com o clima bom, o desempenho dos estudantes também aumenta.

Então, como favorecer o ambiente de qualidade num projeto de convivência? A ideia é educar no e para o conflito, com passos bem definidos. A elaboração do programa é função da equipe administrativa, em colaboração com orientadores, coordenadores e representantes da comunidade educativa. A instituição cria uma comissão com integrantes de todas essas áreas e elege um coordenador de convivência. O grupo irá estabelecer as etapas necessárias para a construção do plano.

Para isso, o ponto de partida é a realização de um diagnóstico sobre a situação do convívio em sala e na instituição, considerando as características da escola e do entorno, as formas de participação, as ações já feitas e a relação com as famílias. O projeto deve possuir ações preventivas e curativas em relação aos problemas encontrados.

Essa medida leva à implementação de um ambiente cooperativo, em que os valores democráticos são construídos em espaços sistematizados para que crianças e jovens, educadores e comunidade possam refletir sobre crenças, expressar sentimentos e agir moralmente. O plano deixa de ser "para os alunos" e torna-se "para nós".

Os conflitos não são mais resolvidos apenas pelos adultos, mas por todos que estão comprometidos com uma convivência respeitosa. Assim, se desejamos formar, mais do que bons alunos, bons cidadãos, é necessário que os estudantes possam experimentar a vivência da cidadania. Só dessa forma o convívio escolar deixará de ser um problema para tornar-se um valor.

  • Em colaboração com Luciene Tognetta, professora do Departamento de Psicologia da Educação da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp
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