Literatura na escola - 8º ano: Contos de A. Tchekhov

POR:
novaescola

Objetivo(s) 

Estimular o gosto pela leitura;
Desenvolver a competência leitora;
Desenvolver a sensibilidade estética, a imaginação, a criatividade e o senso crítico;
Estabelecer relações entre o lido/vivido ou conhecido (conhecimento de mundo);
Reconhecer e analisar os elementos da narrativa e as partes do enredo.
Elementos da narrativa;
Reificação / personificação;
Partes do enredo: apresentação, complicação, clímax e desfecho.

Ano(s) 

6º, 7º, 8º, 9º

Tempo estimado 

Seis aulas

Material necessário 

- Livro A dama do cachorrinho e outros contos. A.P Tchekhov, 368 págs. Editora 34. tel (11) 3816-6777

Desenvolvimento 

1ª etapa 

Esta é a décima primeira de uma série de 16 sequências didáticas que formam um programa de leitura literária para o Ensino Fundamental II. 

Antecipação/Motivação/Sensibilização 
Lance a pergunta à classe:

- O que você espera de uma narrativa, cujo título é Angústia? Registre no seu caderno suas expectativas de leitura.

- Você já ouviu falar do escritor A. Tchekhov? Conhece alguma obra que ele publicou?

Ouça as repostas da turma e apresente o escritor a eles.

Anton Tchekhov

"Ao exigir do artista uma atitude consciente em relação ao seu trabalho, você tem razão, mas confunde dois conceitos: a solução do problema e a colocação correta do problema. Apenas o segundo é obrigatório para o artista."

Um dos mais famosos novelistas e dramaturgos russos, Anton Tchekhov, nasceu em Taganrog em 1860, e faleceu em 1906.

Médico de profissão, Tchekhov começou sua carreira como escritor em 1880, com a publicação de alguns ensaios literários. A partir daí não demorou muito para que o então desconhecido escritor alcançasse uma extraordinária popularidade, não só por suas novelas, mas também por suas peças, das quais as mais conhecidas são: "As Três Irmãs", "Ivanov", "O Tio Vania e a Cerejeira".

Melancolicamente pessimista e aproveitando ao máximo todas as experiências humanas e sociais, Tchekhov seria o criador de uma escola literária que encontraria mais tarde, mesmo nos países ocidentais, enorme repercussão: o Realismo.

http://almanaque.folha.uol.com.br/tchekhov.htm

Considerado um dos mestres do conto moderno, privilegiou alguns aspectos em suas narrativas: brevidade, impressão total no leitor, força, clareza, compactação e realismo. O realismo de Tchekhov tencionava denunciar a opressão e a falta de liberdade. "Meu objetivo é matar dois pássaros com uma só pedra: pintar a vida nos seus aspectos verdadeiros e mostrar quão longe está da vida ideal" (citado por Gotlib, 2003, p.47)
"Seus contos são sem grandes ações, abrindo brechas para uma linhagem de conto moderno, em que às vezes nada acontece. A unidade tradicional do conto, calcada no início, meio e fim, é transgredida." (Gotlib, 2003, p.47)

Nadia Battella Gotlib. Teoria do conto. São Paulo, Ática, 2003

 

2ª etapa 

Leia o conto com "Angústia", do livro "A Dama do cachorrinho e outros contos", com a sala e recolha as impressões gerais. Conte aos alunos que o texto foi escrito em 1886.

Finalizada a leitura, pergunte (pode pedir que os alunos respondam oralmente): 
- Iona e seu cavalo estão em uma cidade grande ou pequena? Por quê?
- Por que ninguém quer escutar o cocheiro?
- Como você explicaria o título "Angústia"?

3ª etapa 

O conto se inicia da seguinte forma:


Crepúsculo vespertino. Uma neve úmida, em grandes flocos, remoinha preguiçosa junto aos lampiões recém-acesos, cobrindo com uma camada fina e macia os telhados das casas, os dorsos dos cavalos, os ombros das pessoas, os chapéus. 

Peça que os alunos respondam por escrito:

- Há no fragmento a seguir uma construção predominantemente descritiva e econômica nos verbos. Que efeito de sentido essa construção provoca na narrativa?

A narrativa de Tchekhov começa com uma cena: casas, cavalos e homens cobertos de neve. As primeiras linhas são predominantemente descritivas, produzindo um efeito de estaticidade.

A seguir, o narrador nos faz conhecer Iona Potapov. Releia com a turma:

O cocheiro Iona Potapov está completamente branco, como um fantasma. Encolhido o mais que pode se encolher um corpo vivo, está sentado na boléia, sem se mover.Tem-se a impressão de que, mesmo que caísse sobre ele um montão de neve, não consideraria necessário sacudi-la... Seu rocim está igualmente branco e imóvel. Graças a sua imobilidade, à angulosidade das formas e ao perpendicular de estaca de suas patas, parece mesmo, de perto, um cavalinho de pão-de-ló de um copeque. Seguramente, ele está imerso em meditação. Não pode deixar de meditar quem foi arrancado do arado, da paisagem cinzenta e familiar, e atirado nessa voragem, repleta de luzes monstruosas, de um barulho incessante e de gente correndo...

Mostre aos alunos que a estaticidade observada nas primeiras linhas transborda para a descrição da personagem principal e de seu cavalo. Em seguida pergunte (oralmente):

1) Quem está meditando, o cocheiro ou o cavalo?
2) É possível um cavalo meditar?
3) Que figura de linguagem foi empregada aqui pelo autor? Por quê?
4) Qual o conteúdo do pensamento do cavalo?
5) Por que é ele, e não o cocheiro, que medita sobre essas coisas? 

Por sua imobilidade, tanto Iona quanto seu rocim confundem-se com os objetos da paisagem. O fato de o cavalo aparecer personificado (ele "medita") torna o cocheiro ainda mais reificado. (Sobre "reificação" ou "coisificação", ver a sequência sobre a crônica de Luís Fernando Veríssimo e a sequência sobre poemas de Carlos Drummond de Andrade.) Não é ele quem sente o impacto da cidade grande sobre a vida campesina, e sim o animal.

 

4ª etapa 

Releia para a turma as falas dos clientes e transeuntes:

Cocheiro, para a Víborgskaia!
Para a Víborgkaia! ¿ repete o militar. ¿ Está dormindo!
Onde vai, demônio?! ¿ ouve, logo depois, Iona exclamações partidas da massa escura de gente, que se desloca em ambos os sentidos. ¿ Para onde te empurram os diabos? Mantenha-se à direita!
Não sabe dirigir! Olha à direita ¿ zanga-se o militar.
Dá a volta, diabo! ¿ ressoa nas trevas uma voz. ¿ Não está mais enxergando, cachorro velho? É com os olhos que tem que olhar!
Anda, anda... ¿ diz o passageiro. ¿ Assim, não chegamos nem amanhã. Mais depressa!
Bem, faz o cavalo andar! ¿ grita com voz trêmula o corcunda, ajeitando-se de pé e soprando no pescoço de Iona. ¿ Dá nele! Que chapéu você tem, irmão! Não se encontra um pior em toda Petersburgo...
Ora, você assim é, bate no cavalo! Vai andar desse jeito o tempo todo? Sim? E se eu te torcer o pescoço?
Irra, com todos os diabos!... ¿ indigna-se o corcunda. ¿ Você vai andar ou não, velha peste? É assim que se anda? Estala o chicote no cavalo! Eh, diabo! Eh! Dá nele!
Está ouvindo, velha peste? Vou te moer o pescoço de pancada! Não se pode fazer cerimônia com gente como você, senão é melhor andar a pé! Está ouvindo Zmiéi Gorínitch? Ou você não se importa com o que a gente diz?
E Iona ouve, mais que sente, os sons de uma pancada no pescoço. 


Mostre aos alunos que, mesmo sendo tão destratado, Iona prefere trabalhar a ficar parado.

Tanto faz seja um rublo ou cinco copeques, contanto que haja passageiros... (...)
Ouve os insultos que lhe são dirigidos, vê gente, e o sentimento de solidão começa, pouco a pouco, a deixar-lhe o peito.


Pergunte à classe:
1) Iona prefere trabalhar por causa do dinheiro?
2) A que se deve a sua angústia?

O cocheiro é submisso aos clientes a ponto de não se indignar nem com os insultos nem com as agressões físicas. Estar em movimento e entre pessoas, mesmo que desconsiderado e ganhando muito pouco, parece aliviar sua solidão.

 

5ª etapa 

Releia para a turma os trechos em que Iona tenta compartilhar a morte de seu filho com os clientes:

Pois é, meu senhor, assim é... Perdi um filho esta semana.
Hum!... De que foi que foi que morreu?
Iona volta todo o corpo na direção do passageiro e diz:
Quem é que pode saber! Acho que foi de febre... Passou três dias no hospital e morreu... Deus quis.
(...)
Anda, anda... diz o passageiro. Assim, não chegamos nem amanhã.
***
Esta semana... assim... perdi meu filho!
Todos vamos morrer  suspira o corcunda, enxugando os lábios após o acesso de tosse.
***
...Pois é, irmão, e eu perdi um filho... Está ouvindo? Foi esta semana, no hospital... Que coisa!
Iona procura ver o efeito que causaram suas palavras, mas não vê nada. O jovem se cobriu até a cabeça e já está dormindo. 


Em aula expositiva dialogada, analise tais tentativas.

Tanto os clientes quanto o jovem colega de trabalho reagem com indiferença à tragédia pessoal do cocheiro. Iona trafega em meio a uma multidão hostil e sem rosto, sem conseguir um mínimo de empatia. O luto incomunicável gera angústia por não poder ser elaborado. Não há, em nenhuma das pessoas que Iona encontra, a menor disponibilidade de se colocar no lugar do outro. Todos têm pressa ou estão cansados e preocupados apenas com seus próprios problemas. Observe como as falas e a violência dos clientes muitas vezes parecem se dirigir mais a um animal do que a um humano.

 

6ª etapa 

Releia para a classe os parágrafos finais e analise-os:

Veste-se e vai para a cocheira, onde está seu cavalo. Iona pensa sobre a aveia, o feno, o tempo... Estando sozinho, não pode pensar no filho... Pode-se falar sobre ele com alguém, mas pensar nele sozinho, desenhar mentalmente sua imagem, dá um medo insuportável...
Está mastigando? pergunta Iona ao cavalo, vendo seus olhos brilhantes. Ora, mastiga, mastiga... Se não ganhamos para a aveia, vamos comer feno... Sim... Já estou velho para trabalhar de cocheiro... O filho é que devia trabalhar, não eu... Era um cocheiro de verdade... Só faltou viver mais...
Iona permanece algum tempo em silêncio e prossegue:
Assim é, irmão, minha eguinha... Não existe mais Kuzmá Iônitch... Foi-se para o outro mundo... Morreu assim, por nada... Agora, vamos dizer, você tem um potrinho, que é teu filho... E, de repente, vamos dizer, esse mesmo potrinho vai para o outro mundo... Dá pena, não é verdade?
O cavalinho vai mastigando, escuta e sopra na mão de seu amo... Iona anima-se e conta-lhe tudo...

Ao contrário dos passageiros, o cavalo "escuta" Iona. Mais uma vez é atribuída ao animal uma faculdade humana: a de escutar. Personificado o animal, é possível ao cocheiro finalmente encontrar um interlocutor.

Por outro lado, as pessoas e reservam a Iona tanta falta de empatia e um tratamento tão desumano que ele acaba por reificar-se, buscando no animal um amigo. Homem e animal se acolhem, nivelando-se.

 

Avaliação 

Peça que os alunos respondam por escrito, pode ser em dupla: A narrativa tradicional apresenta, usualmente, as seguintes partes do enredo: apresentação, complicação, clímax e desfecho. Tais categorias podem ser aplicadas ao conto "Angústia", de Tchekhov?

Para ajudar nas respostas e saber mais sobre as partes do enredo, acesse http://www.webvestibular.com.br/redacao/curso_de_redacao/narracao.htm

Créditos: Helena Weisz Formação: Mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP) Créditos: Regiane Magalhães Boainain Formação: Mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC- SP)

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